fevereiro 20, 2004

Terceiro dia de viagem

Mais de trinta anos volvidos não será fácil explicar o que era uma viagem de quase duas semanas de Lisboa para Luanda, num navio de passageiros que triplicava a às vezes quadruplicava a sua lotação.

Eu, o Cabrita Lopes, o Carlos Alberto Martins e Francisco Duro, todos operadores de cripto, ocupávamos um camarote do Uíge. Umas instalações aceitáveis, mas recordo-me de ver as condições em que viajavam cerca de dois milhares de jovens, amontoados nos porões da carga do navio. O cheiro era horrível e piorava à medida que os dias iam passando, pois as os cuidados com a higiene pessoal eram quase proibitivos. A saturação da viagem provocava enjoos e muitos já nem tinham força física e anímica para subir ao convés para vomitarem da amurada para o mar.

Estou convencido que pouca gente que não passou por isto tenha capacidade para avaliar o que era o tormento de uma viagem deste género no Niassa, um navio de carga “adaptado” com camas nos porões. Seria assim uma espécie de campo de concentração flutuante.

Ao terceiro dia de viagem estaríamos a passar ao largo das Canárias, mais milha menos milha, e ainda ia tudo muito bem composto.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em fevereiro 20, 2004 02:04 AM
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