fevereiro 21, 2004

"Carnaval" em Caripande

A 16 de Fevereiro de 1971, comemorava-se o Carnaval.
O Comando da Zona Militar Leste planeara fazer um bombardeamento a populações a Norte do Luso e ordenara que se pedissem dois aviões e dois pilotos a Luanda e que se informassem os aquartelamentos circundantes dos alvos, para complementar a acção.

Mas o bombardeamento não aconteceu. A mensagem saiu para todas as unidades menos para o local onde estavam os pilotos.

Na manhã de 17 de Fevereiro, o primeiro-sargento Azeitona Costa batia-me à porta de casa avisando-me para que me preparasse porque poderia ser preso.
Limitei-me a sorrir e a perguntar se tinha direito a cama e alimentação e a resposta foi afirmativa.

Retorqui dizendo que não havia qualquer problema porque preso já eu estava porque não podia sair da cidade...

O alibi estava traçado.
Nessa noite de Carnaval o aquartelamento do PC/AV de Caripande, lá bem no Leste, tinha sofrido um ataque de grande envergadura por parte do MPLA e segundo as muitas mensagens recebidas foram alvejados com 113 morteiros e lança-granadas-foguete e armas automáticas.

As mensagens classificadas de “Relâmpago” e “Imediato” eram muitas e grandes. Em suma, os quatro operadores trabalharam toda a noite e essa circunstância foi aproveitada por mim para me “esquecer “ de requisitar os pilotos.

Havia um obstáculo.
As mensagens tinham, obrigatoriamente de ser conferidas por outro cripto, o que na prática não acontecia, pois era-lhe colocada na frente para assinar de cruz. Reinava a confiança mútua.

Havia que escolher quem merecia a confiança para alinhar num acto tão importante que iria poupar muitas - mesmo muitas - vidas.

E levei o resto da noite a preparar o Zé Luís para a situação. De vez em quando dizia-lhe: “acho que há qualquer coisa que não está certo. Não sei o que é, mas tenho a sensação de que falta qualquer coisa...”.

No dia seguinte, primeiro-sarg. Azeitona Costa e alf. Serra ouviram as minhas explicações e pouco mais confusão houve porque tudo estava bem montado e “correcto”.

As mensagens recebidas do PC/AV de Caripande davam conta de que não tinha havido feridos e que os nossos militares ainda tinham recuperado muito armamento ao “inimigo”.

Mais tarde as mensagens assinalavam novas coordenadas para o aquartelamento, o que queria dizer que tinham recuado cerca de cinco quilómetros para o interior de Angola.

Ao ler António Lobo Antunes em “Os Cús de Judas” e “Memória de Elefante” ficamos a saber que ele, como médico, teve bastante trabalho com os feridos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em fevereiro 21, 2004 12:50 PM
Comentários

A propósito do pedido de aviões e pilotos a Luanda parece-me no mínimo curioso,pois embora só tivesse chegado a H. de Carvalho em Novembro de 71,existiam no A.B. 4 meios aéreos que davam conta do recado.

Afixado por: Ribeiro da Silva em julho 28, 2004 04:47 PM