A viagem no Uíge não foi má de todo. O grupo já se conhecia porque uns eram do mesmo turno e tinham estado oito meses a aguardar embarque e outros eram conhecidos da vida civil. Acresce a isto que a alimentação era boa e enriquecida com o que cada um levava na bagagem e colocava na mesa a meio da manhã, no “lanche” da tarde ou na ceia para prevenir eventual fome entre o jantar e a tardia hora que os jovens escolhem para dormir.
Bem tratados de estômago seria natural que a boa disposição fosse apanágio do grupo e tal aconteceu.
Foi essa boa disposição que ajudou a passar o Equador. Uma linha difícil de transpor pois para toda aquela gente, com excepção para um ou outro sargento ou oficial que aproveitava os momentos de diálogo para “dar graças a Deus” pela serenidade da viagem, já que em experiências anteriores tinham sofrido as “passas do Algarve”, com temporais.
Não foi o que nos aconteceu, pois navegámos vários dias praticamente com mar-chão, apenas com o inconveniente do estridente som da sirene que ia marcando presença por causa do nevoeiro e nos impedia de ir até ao convés ou ao tombadilho das baleeiras.
Mas por esta altura da viagem houve a “cerimónia” da passagem do Equador, que era aproveitada para parodiar os mais ingénuos que teriam que saltar para transpor tão importante obstáculo.
E porque, como dizia o capitão Almeida, que conheci com os meus dezoito anos de idade, como delegado da Comissão Central de Censura, quando fui para a Redacção do tri-semanário «O Setubalense», “festa sem comeria é gaita que não assobia”. E lá fomos devorar mais umas cervejas enquanto apreciávamos mais um petisquinho.
Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em fevereiro 26, 2004 12:43 PM