fevereiro 28, 2004

Ainda a bordo do Uíge

Sempre tive dificuldade em adormecer, mas ao longo dos anos tenho aprendido algumas técnicas para vencer esse obstáculo.
A primeira, que me recorde, foi durante a viagem de Lisboa para Luanda, onde estávamos todos a viver uma situação nova e, como tal, a família, pelo menos para mim, não me trazia grandes preocupações.

Recordo-me que, quando me deitava, pensava para com os meus botões: - ainda hoje não pensei na família e, depois de alguns instantes de recordação dos pais, avós, irmãs e namorada, logo mergulhava no sono que me levaria até à manhã seguinte.

Era a nossa primeira experiência de ausência de notícias dos que nos eram mais queridos e, pelo mesmo motivo, também ninguém sabia nada de nós.
Contudo, a situação provocava-nos – mais a uns do que a outros – alguns momentos de tristeza e recordo-me de uma camarada de Guimarães, salvo erro Rodrigues de seu nome, que passava muito tempo encostado à amurada do navio a olhar o mar que passava.

Quando lhe dizíamos qualquer coisa, como que tentando que ele se abrisse connosco, logo retorquia: - lá no fundo és bom rapaz!

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em fevereiro 28, 2004 01:49 AM
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