A vida militar em Luanda era uma coisa que, nos quase dois anos que eu já tinha de tropa, não imaginava que pudesse existir.
Enquanto no Continente tudo era feito a horas certas, desde as formaturas às refeições, ali cada um, quase com toda a força da expressão, fazia o que queria.
Vejamos. Uma bela tarde, logo a seguir ao almoço, os praças estavam numa coisa que tinha algumas semelhanças com uma formatura e aguardava-se que o furriel miliciano, a cumprir a missão de sargento-de-dia entregasse as dispensas, quando um soldado gritou: Então nunca mais nos despachamos?
E o sargento de dia retorquiu: - Ainda não entreguei as dispensas!
- Então venha entregando, respondeu-lhe o soldado.
E enquanto disse isto aquela espécie de pelotão começou a deslocar-se para a «porta-de-armas» e o belo do furriel lá foi cumprindo a sua tarefa administrativa sem cuidar da disciplina e rigor militar de que estava investido pelo posto e pela missão.
À chegada à «porta-de-armas» tudo se complicou porque o sargento-da-guarda tentou interceptar os “insurrectos” mas debalde. Foi depois coadjuvado pelo sentinela que, apesar de não ter tido o sucesso que esperava, teve a pouca sorte de ainda ser agredido com uma ou outra coronhada.
A malta lá saiu, cada um mais rápido do que o outro para que não houvesse consequência de maior, porque, embora tudo fosse provocado por um ou dois, o certo é que a situação foi aproveitada por todos.
Esta situação, só por si, justifica o facto da CMR 113, sediada nas instalações do RIL-Regimento de Infantaria de Luanda, ser alcunhada de Companhia de Malandros e Reguílas.
Por aqui passavam muitos dos que acabavam de chegar do Continente e também todos aqueles que, depois de cumprirem pena de prisão ou coisa parecida, eram colocados noutras zonas.
Em 1970 encontrámos soldados que estavam em Angola desde os primeiros anos da Guerra Colonial. Gente que nada tinha já a perder.
Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 4, 2004 02:05 AMEstive nessa companhia, em Luanda, no ano de 1971 (Maio ou Junho), em cujo refeitório estava um militar da minha original CCaç (2608. Confirmo a indisplina que não parecia tratar-se de uma unidade militar. Daí segui para o Toto, em rendição individual. João Paes
Afixado por: João Paes em novembro 3, 2004 07:51 PM