março 10, 2004

Dormir na terra de Savimbi

O terceiro dia de viagem a caminho do Luso tinha como aliciante o facto de termos deixado o machimbombo, em General Machado, e apanharmos o Mala que nos levaria, nesse dia, até ao Monhango, terra de Savimbi.


O «Mala» retratado por Sofia, do site dos Luenas

O Mala, como se chamava o comboio de estilo inglês, com muitas carruagens, ligava o Lobito, no litoral a Teixeira de Sousa, lá na fronteira com a Zâmbia, no Leste.

A população menos abastada - normalmente os nativos - e os militares viajavam na classe mais modesta, onde as pessoas se misturavam com as bagagens e algumas galinhas.

Os de mais posses e os militares com posto mais elevado acomodavam-se nas carruagens de primeira classe com bancos que se transformavam em cama e onde se pernoitava com o mínimo de comodidade.

A viagem de comboio é bonita, mas a grande maioria dos militares não se deliciava com o espectáculo que lhe era oferecido pela natureza, porque o medo que lhes tinham incutido impedia-os de se municiarem da tranquilidade suficiente para fazer apelo a toda a sensibilidade que lhes permitisse fruir a beleza da paisagem.

Umas vezes rápido, outras nem tanto, o Mala lá ia puxado por duas máquinas a vapor. Por vezes o percurso era recto. Noutros locais curva e contra curva permitiam que se ficasse com a espectacularidade do grande comprimento da composição ferroviária, constantemente “guiada” a uma centena de metros de distância, por uma pequena máquina a diesel, que mais parecia um cubo de chapa blindada, pintada de verde, com pequenas ranhuras donde espreitavam os seguranças do CFB (Caminho de Ferro de Benguela).

Esta máquina, designada por ATL, tinha a missão de intimidar qualquer pretensão de ataque desferido de bem perto do comboio e também de rebenta-minas na eventualidade de qualquer explosivo ter sido colocado nos carris.

Numa fase do percurso o Mala passava por entre morros bem altos e se até ali toda a gente viajava à janela ou nos patamares nas extremidades das carruagens, naquela zona eram raras as cabeças que se afoitavam a espreitar a paisagem que, diga-se, pouco ou nada tinha para ser apreciada.

Recordo-me de ver camaradas agarrados à espingarda, em posição para ripostar a qualquer ataque. Admito que tenha sido por inconsciência mas a minha mauser nunca saiu do local onde estavam as malas e a culatra permanecia no fundo do saco fazendo companhia às balas.

Ao fim da tarde, pouco antes do pôr-do-sol, o Mala parou no Munhango, onde pernoitámos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 10, 2004 01:20 AM
Comentários

Gostei de rever o "mala". As carruagens fabricadas em Inglaterra eram bonitas para a época.

Afixado por: Luís C em março 11, 2004 06:20 PM

Gostei muito do texto, mas também nõa seria mal se o tivessem aperfeiçoado mais.

Afixado por: João A. A. Levys em agosto 16, 2004 06:52 PM

Caro Levys,
Diz que "não seria mal se o tivessem aperfeiçoado mais" o texto.
Em que sentido o deveriamos aperfeiçoar mais?
No estilo literário, ou nos pormenores?
Um fraterno abraço.

Afixado por: Jorge Santos em agosto 16, 2004 08:45 PM