março 11, 2004

Chegada ao Luso

A noite no Munhango, terra onde nasceu Jonas Malheiro Savimbi, mas que nos ficou na memória por todos os motivos menos por ser a terra natal do líder da Unita, é recordada pelo que teve de mau. Mau, mas um mau relativo, porque muitos milhares de camaradas militares tiveram, ao longo da comissão, muitas noites muito piores.
A noite no Munhango fica-me na memória porque foi a que antecedeu o dia em que cheguei ao Luso, faz hoje, 11 de Março, precisamente 34 anos.


Marcos, condutor da PM, que vive em Setúbal onde nasceu, eu e o Ezequiel Rodrigues, Op.Cripto, que tocava viola nos Mike, em frente ao café/restaurante Universo

Se o Dondo e General Machado, locais de pernoita na odisseia de Luanda ao Luena, eram pequenas povoações, o Munhango era menos do que tudo. Não me lembro de ver casas, mas certamente haveria a estação do CFB e mais uma ou outra casa. Quanto a estabelecimentos comerciais onde se conseguisse tomar um café ou uma cerveja, também poderia haver, mas não tenho qualquer ideia de os ter visto.

Recordo-me, isso sim, de andar ali perto do comboio a fazer tempo para depois ir procurar qualquer lugar na carruagem onde dormir. Mas nestas, como em tantas outras situações da vida, quando tomamos uma decisão já outros se anteciparam e tomaram um lugar que poderia ser nosso.

Foi o que aconteceu quando entrei na carruagem. Os bancos estavam ocupados com outros militares que tinham decidido colocar o corpo em toda a sua extensão. Lugares onde dormir de pernas esticadas só debaixo do banco.

Foi o que fiz. Deitei-me debaixo de um banco com os braços a cumprirem a missão de travesseiro e a ignorar o pó que ali estava acumulado e que sempre tive a ideia de ter uma cor acastanhada. Esta sensação era transmitida mais pelo olfacto do que pelo que vira porque o breu da noite mantinha-me na ignorância.

Poderia, ao despertar, manhã bem cedo, ter tido a preocupação de verificar se tal correspondia ao que imaginara, mas nestas coisas mais vale manter-nos na ignorância...

O Mala iniciou a marcha. Quatro horas volvidas estaria a chegar ao Luso, onde muita gente esperava na estação. Claro que não nos esperavam a nós. O militar não tinha família. Era só militar e isso é tudo e suficiente. Mas recordo-me de ver o primeiro-sargento José Azeitona Costa, que faria o favor de ser nosso amigo enquanto teve por missão coadjuvar o Serra, que era alferes de Transmissões, tendo à sua responsabilidade o Centro Cripto e o Centro de Mensagens.

No CCP (Centro Cripto) recordo-me de ter na recepção o Ezequiel Rodrigues, o Simões e o Falagueira, estes dois de Viseu e o primeiro de Lisboa.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 11, 2004 12:22 AM
Comentários

O meu irmão mais novo chegou hoje a malanje

Afixado por: Anjo Élico em março 11, 2004 12:34 AM

Cá está mais um "maçarico" chegado ao Luso.

Afixado por: Luís C em março 11, 2004 06:18 PM

Havia no Munhango uma loja, onde se vendia de tudo, em especial peixe seco.
Numa das passagens por lá vou, com uns camaradas, á referida loja e perguntamos o que é que havia para o jantar, ao que nos respondeu o dono, que havia bacalhau demolhado e que se algum de nós soubesse cozinhar, a mulher dele estava com o forno de lenha quente, poderiamos ir lá cozinhá-lo. Só vos digo que foi uma patuscada, daquelas que não se esquece mais.

Afixado por: Vieira em agosto 28, 2004 05:13 PM