março 13, 2004

A noite no ComZML

O primeiro contacto com a cidade do Luso, aquela que iria ser a minha terra durante quase dois anos, foi agradável. A recepção foi simpática e os camaradas davam mostras de ser solidários e dispostos a ajudar-nos.

Depois do lanche na Cristália, havia que tratar do acomodamento que passaria a ser nos anexos do Comando, lá ao fundo, ao lado da cantina e da caserna dos motoristas. Ali estivemos aquartelados pouco mais de uma semana, até que saiu à Ordem o nosso desaranchamento e a autorização para pernoitar fora das instalações militares.


Lá ao canto, atrás do jeep, era onde ficámos a dormir. A segunda porta que se vê na foto era o Centro Cripto. Na foto estou eu, o Toni, o Cabrita Lopes e o Sá, todos Op.Cripto

As refeições eram tomadas, enquanto o nosso pedido não fosse deferido, no PAD (Pelotão de Apoio Directo), que ficava na Avenida António José de Almeida, quase ao pé do cinema Luena e da esquina com a PM.

Para se ficar com uma ideia do nível deste refeitório basta dizer que era conhecido entre os militares como “o Biafra”. A variedade da ementa era coisa que o sargento responsável pelo rancho não deveria conhecer o verdadeiro significado porque, durante uma semana, se comeu sempre a mesma uma sopa ao almoço e ao jantar. E quando alguém optou por fazer uma sopa diferente foi pior ainda, porque quase ninguém conseguiu comeu, por intragável. Simpaticamente pode dizer-se que tal aconteceu por não se estar habituado à nova sopa.

Quando eu, o Cabrita Lopes, o Francisco Duro, o Carlos Alberto Martins, que viajámos no Uíge, chegámos ao Luso, já lá estava o Zé Luís, que sendo mais novo em idade e tempo de tropa teve a sorte de embarcar no Pátria e chegar mais cedo. A mesma sorte não teve o Fernando Vieira Curval, que embarcou num navio da Armada, mas porque fez escala na Madeira e Açores, acabou por chegar depois de nós.

Ao entrar-se no Comando, pelos anexos, tínhamos logo a porta do gabinete do padre capelão, que Lobo Antunes refere no livro Cus de Judas. A porta ao lado era a entrada do Centro Cripto, uma pequena sala que tinha um armário, onde o primeiro-sargento Azeitona Costa guardava o economato, que fazia de guarda vento e protegia que o interior da sala fosse devassada de olhares. Ao longo de uma das paredes tinha uma bancada incrustada na parede, onde trabalhávamos. Numa das extremidades dessa mesma bancada o sargento mecânico de material cripto resolvia os problemas técnicos que algumas máquinas de cifrar e decifrar mensagens iam criando, de tanto que trabalhavam. Completavam o mobiliário, um armário onde guardávamos os processos e a secretária do Azeitona Costa.

O alferes Serra tinha local de trabalho na sala ao lado, o Centro de Mensagens, onde tinha lugar para uma secretária e onde havia uma extensão de telefone, o 14, que utilizávamos quando queríamos comunicar com as outras unidades aquarteladas em volta da cidade.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 13, 2004 12:08 AM
Comentários

Foi com entusiasmo que li os seus textos e vi as fotos publicadas. Vivi no Luso de 1967 a 1975, fui furriel na CCS/COMZML desde JUL71 até 1974 e foi com saudade que recordei esses tempos através dos seus escritos. Muito obrigado por me fazer voltar à memória tantas coisas que pensava esquecidas.

Afixado por: João Grenha em maio 30, 2004 11:17 PM

É com agrado que encontro algo sobre o PAD , pois o meu pai serviu no Ultramar como mecânico auto no PAD em Luanda, que souber mais sobre o mmo PAD peço que me envie um e-mail com o respectivo endereço para que possa consultar, o meu PAi chamava-se Antonio CArraça e era mecânico, Obrigado a todos por a atenção dispensada o meu e-mail é Miguel_ito.m@mail.pt

Afixado por: Miguel Carraça em julho 5, 2004 09:13 PM