março 18, 2004

Homenagem ao Manuel Campos

Uma bela noite estávamos no Universo, e já se terá percebido que aquele café-restaurante funcionava quase como nossa segunda casa, tantas as horas que ali passávamos, e um civil, que eu tinha a ideia de conhecer de vista, ficou a conviver connosco, tratando-nos pelo nosso nome, porque conhecia toada a gente.

Em determinada altura começou a arremedar algumas figuras castiças de Setúbal, entre elas um ou outro homossexual, a que o Francisco Duro não achou a mínima graça, pois estava a pensar que o «panasca» se estava a fazer com ele.

Quanto mais o Duro se inquietava, maior era a encenação do setubalense Manuel Campos, que vivia no Cachipoque e que de vez em quando ia ao Luso, quer para conviver com a malta quer para tratar de assuntos que só ele conhecia e que nunca se abriu com pormenores.

Uma dessas noites bem vividas e bebidas, o Manuel Campos, que já não está entre nós, porque as muitas bebedeiras lhe arruinaram o fígado, foi dormir a nossa casa porque não tinha onde pernoitar no Luso.

Não tínhamos camas que dessem para mais um e a opção foi ceder-lhe a minha e dar uma volta pelos bares que estavam abertos. Quando ao alvorecer cheguei a casa já o Manuel Campos, no seu estilo de nunca se saber ao que andava e o que fazia, tinha batido em retirada.

Ao fim de todos estes anos, quando como alheira, me lembro do meu conterrâneo Manuel Campos. Tínhamos combinado almoçar no Universo e chegámos a fazer o pedido ao Alberto. Duas alheiras e, antes do empregado nos trazer a comida para a mesa, o meu companheiro de refeição, que viu algo que nunca cheguei a saber do que se tratava, me disse: “já venho”.

Semanas volvidas apareceu sem dar explicação. Como a curiosidade matou o gato, e a discrição sempre me caracterizou, nunca perguntei o porquê de tal acto. O Manuel Campos tinha estatuto para tudo.

Tinha cumprido a comissão em Angola e, porque a sua vida em Setúbal estava ligada à Lota do peixe, actividade que tinha poucas perspectivas de sucesso, regressou para ser padeiro em Moçamedes, onde as coisas não terão corrido como esperava e optou por ser segurança do CFB.

Quando nos deixou, há cerca de dez anos, era telefonista na Câmara Municipal de Setúbal.


A foto foi captada a 15 de Maio de 1971, no dia dos anos do Manuel Campos (de camisola às riscas), no restaurante Universo. Da esquerda para a direita: Etelvino Damásio, mecânico da 24ª de Comandos; Zéca Curto, furriel da PM; Jorge Santos; Manuel Campos e António Ribeiro, furriel enfermeiro, de Henrique Carvalho, que se deslocava com regularidade ao Luso. Todos de Setúbal.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 18, 2004 12:06 AM
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