março 19, 2004

Furriel Rama Ferreira

Mandam as regras da boa educação que não se deve revelar a idade de uma senhora. Está convencionado e aceite. Mas a “senhora” que está sorridente no carrinho de bébé tem a bonita idade de Cristo. Completou 33 anos de idade no ano passado e vai perdoar-me por esta devassa do seu registo de nascimento, se bem que incompleto, como é evidente.

O nome da senhora não me recordo, porque a foto foi captada em Dezembro de 1970 em casa de um dos furriéis que, tal como nós ofereceram dois preciosos anos da sua juventude a uma guerra que nada lhes dizia.

Isto para dizer que o baboso pai que perde a pose para a posteridade em troca das atenções com a sua linda menina, é o furriel miliciano Rama Ferreira, que trabalhava sob o comando do alferes Serra, no Centro de Mensagens, do ComZML.

Acerca do Rama Ferreira não haverá muitas estórias e isso deve-se a uma verdade que ninguém contestará.

Ele era para todos os seus subordinados do Centro de Mensagens, e por arrastamento, porque trabalhávamos também sob o comando do alferes Serra, um verdadeiro camarada para quem o posto que ocupava não era impeditivo de conviver com os amigos, se bem que as normas impostas pelo regime (militar) o impedissem.

Das muitas petiscadas que os operadores de cripto e os operadores de mensagens tinham, o Rama Ferreira participou nalgumas e era um compincha que alegrava um serão com o seu bom humor. A vida de casado travava, também nas circunstâncias em que vivíamos, que o militar andasse na borga com os seus amigos. Ninguém contestava pois como ensinou Karl Marx “a igualdade não é justiça”. Isto para explicar que ninguém ficava contra o facto de os militares casados não alinharem nas patuscadas... porque, independentemente de outras opiniões mais válidas, havia naquelas circunstâncias, duas formas de ser feliz. Ou se comia e bebia convivendo com os amigos, ou se estava no recato do lar.

E estas “regras” estavam aceites por todos. Pelos casados que tinham as esposas na sua companhia. Pelos casados cujas esposas tinham ficado em Portugal. E pelos solteiros.

A foto ajuda-nos a trazer à memória estes episódios, suportados com mais ou menos sacrifícios por uns e por outros.

Rama Ferreira, que reside em Coimbra, tinha a esposa no Luso. José Luís Silva tinha deixado a esposa e a filha em Coimbra e eu era solteiro.


Furriel Rama Ferreira e os Op.Cripto José Luís e Jorge Santos

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 19, 2004 12:07 AM
Comentários

Agradou-me particularmente esta referência ao Rama Ferreira.
Quanto à foto, que há tempos tiveste a gentileza de enviar, ao olhá-la de novo e depois de teres falado no José Luís, tal como o Conde o fez, dá para recordar bem quem é ele.
Consoante vamos lendo, falando e revendo imagens há um reactivar de dados que se encontram em estado de hibernação ao nível da memória.

Afixado por: Luís Cruz em março 19, 2004 08:53 AM