março 20, 2004

Bêbado com dois “finos”

A malta era jovem - eu era dos mais velhos, pois quando embarquei já tinha feito os 23 anos de idade - e comia bem e bebia melhor.
Não sei se por levarmos a vida nos cafés, porque só íamos ao Comando da Zona de três em três dias, os Op.Cripto, tinham como passatempo comer e beber.

Como em tudo na vida, as pessoas não são todas iguais. É um dos aliciantes que nos dá gosto de andarmos ao cimo da terra.

O Fernando Manuel Vieira Curval distinguia-se pela sua postura intelectual acima da média e também por, nunca virando as costas aos amigos, gostar de estar em grupo. Só que, quando tocava a beber ficava-se pelo caminho e ao segundo fino ficava a fazer versos à Lua.

Como ele próprio dizia, as bebedeiras ficavam-lhe baratas porque ao segundo copo estava alegre.

Na mesma casa vivia eu, o Francisco Duro e o Curval.
Uma noite, estava eu já deitado porque no dia seguinte esperava-me o serviço no CCP do ComZML, trouxeram o Curval perdido de bêbado e só tiveram trabalho de o ajudar a “aterrar” na cama e ali ficou, impávido e sereno, pois certamente teria bebido mais do que dois copos.

Porque nunca me embebedei e porque antes de ir para Angola dava uma ajuda numa taberna que meu pai tinha herdado de meu avô e aí tive oportunidade de lidar com gente que bebia muitos litros de álcool, limitei-me a mostrar desacordo por terem permitido que o meu amigo tivesse chegado àquele estado e apanhei como resposta do nosso “condónimo” Francisco Duro. “O próximo és tu” e retorqui: -“fico a aguardar”.

No dia seguinte o Curval estava com uma ressaca que não se reconhecia. Envergonhado e mal disposto, prometia a ele próprio não voltar a fazer tal figura e cumpriu.

Daí a algum tempo arranjou um quarto só para ele e embora o isolamento lhe custasse, como me chegou a confessar, não mais se viu metido naquelas confusões.

Chegámos a fazer alguns serões no restaurante Universo em que se ficava pelo segundo fino, não porque tivesse a preocupação de não gastar dinheiro mas porque ficava naquele limite entre a poesia e a boa disposição. Aquele ponto onde o intelectual tem humor. Onde o verso combina com o poema. Onde o Homem se desinibe sem perder a lucidez.


Fernando Curval servindo Gerónimo, do Bcaç 2878, eu, em primeiro plano e o Francisco Duro, à direita, todos op.cripto, num almoço à alentejana, na pastelaria Luso, no dia 6 de Setembro de 1970

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 20, 2004 01:00 AM
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