março 21, 2004

Cola-cola como bronzeador

Os primeiros dias no Luso foram, como se compreenderá, ricos em experiências. E os primeiros tempos dos “maçaricos” eram os de despedida dos “velhos” que se preparavam para regressar a Portugal.

Quando em Março de 1970 chegámos ao Centro Cripto do Comando da Zona Militar Leste, o Simões e o Fareleira começaram a fazer contas à vida e a arrumar as suas coisas para rumarem até Viseu e foram eles os nossos grandes cicerones quer nas questões relacionadas com as tarefas militares, quer no dia a dia na cidade.

Estávamos de serviço um dia e folgávamos dois dias seguidos e assim sucessivamente. Para o Simões, mais preocupado com as questões da imagem, não se justificava muito regressar a Portugal, ao fim de mais de dois anos, e aparecer à família e aos amigos com a pele muito branca como se tivesse estado no Pólo Norte. E havia que aproveitar os últimos dias para passar as manhãs no rio para apanhar um pouco de cor.

Como não havia bronzeadores, o Simões pensava resolver a situação com coca-cola, pois estava convencido de que o refrigerante, aplicado na pele e com a acção do Sol teria particularidades pigmentárias.

E lá íamos de toalha debaixo do braço e garrafa de coca-cola na mão a caminho do Luena atravessando os quimbos e cumprimentando os velhos nativos com o tradicional “môio” e recebendo delicadamente como resposta “bundia”.

Na margem do rio, nas poucas zonas de areia que tinha, ou na erva rasteira, estendíamos a toalha e deliciávamo-nos com o Sol, já que a pouca profundidade das águas não dava para grandes banhos.

Chegava a altura de o Simões me pedir para lhe espalhar coca-cola nas costas e aí entrava a malandrice do “maçarico” fazendo a partida ao “velhinho” e em vez de fazer o que ele me pedira, molhava a mão no rio, deixando-o convencido de que lhe aplicava o precioso líquido americano nas costas.

Enquanto isto, ia bebendo pela garrafa valendo-me que os outros camaradas se iam aguentando à bronca sem me denunciar. Ainda hoje o Simões, de quem nunca mais tive notícias, deve estar convicto de que chegou a Portugal bronzeado graças a um produto que estava proibido no nosso “puto”, por decisão de Salazar.


Antigo dique do rio Luena

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 21, 2004 12:39 AM
Comentários

Recordo bem o rio Luena e tenho por aqui alguns slides feitos nas suas margens e que documentam bem o que referes.
Curiosamente não me recordo do dique!

Afixado por: Luís Cruz em março 21, 2004 10:28 AM

O dique ficava relativamente perto da ponte para a BTR e Companhia de Engenharia. Descia ali perto do Rádio Clube do Moxico e do Liceu. Das poucas fotos que tenho da zona há uma onde estão os negritos a lavar uma Berliet da tropa.

Afixado por: Jorge Santos em março 21, 2004 01:56 PM