A maior parte dos militares teve, na passagem pelo Luso, uma intervenção política, que se fazia sentir no mais pequeno pormenor e passava despercebida, como convinha, nas grandes acções.
Luís Cruz relata algumas das fintas com que tentou ludibriar os “censores” do seu programa «Impacto» no Rádio Clube do Moxico.
Os vigilantes do regime preocupavam-se muitas vezes com a forma porque não tinham capacidade para segurar o conteúdo. Isto para dizer que os autoritários senhores não estavam de acordo com o nome de um programa mas deixavam passar mensagens que eram bem recebidas pelos destinatários, fossem eles civis ou militares.
Quantas vezes o Rádio Clube do Moxico passou «O menino do Bairro Negro» e “Os Vampiros» de Zeca Afonso? E a mensagem estava lá: “Bairro Negro, onde não há pão não há sossego”, ou “Eles comem tudo, Eles comem tudo”.
Em certa altura chegou ao Luso o furriel Albuquerque - natural do Barreiro e que tinha feito o Liceu comigo, em Setúbal, onde já tínhamos, em 1963, ensaiado algumas tentativas de agitação pela poesia e pela representação teatral – que me convidou a participar numas acções culturais a apresentar na BTR, onde tinha sido integrado. Os primeiros textos foram logo reprovados porque resolvemos falar de Ary dos Santos e de Adriano Correia de Oliveira.
Mas se a intervenção escrita não passava havia que encontrar outras formas de chegar aos militares, principalmente aos que chegavam ao Luso ou ali passavam pelo menos uma noite. O “comacove” chegava à estação do CFB ao fim da tarde e só seguia viagem a caminho de Teixeira de Sousa na madrugada do dia seguinte.
Muitas vezes a malta que chegava manifestava alguma “alegria” principalmente depois de ingerir uns finos e era nessa altura que aproveitávamos para intervir fazendo-lhes ver que participar numa guerra que nada lhes dizia não era motivo para se sentirem felizes. E a nossa luta política acabou por ser coroada de sucesso, não durante a nossa passagem por aquelas terras, mas sim com o 25 de Abril.

Eu com o furriel Albuquerque, no jardim Oliveira Salazar