Muitas horas no Luso eram passadas nos cafés, a passear, a praticar desporto e a ler. A grande maioria dos militares que vivia na cidade tinha hábitos de leitura e não se perdia muito tempo a ler o jornal porque o “Província de Angola” só chegava ao Luso três vezes por semana, pois nem todos os dias havia avião para o seu transporte.
Num dos dias em que o ardina andava pela esplanada do Café Universo a oferecer a última edição, perguntei-lhe: -“o jornal é d’hoje?” e a resposta foi a que eu menos esperava. –“Não minino. Son dôs quinhento”.
Uma estória deste estilo ouvi-a mais tarde, contada num daqueles programas de divulgação da língua portuguesa, na de televisão em Portugal.
Na livraria que existia na rua do Universo, na esquina que dava para o Luso Hotel, adquiríamos revistas e livros com algum interesse, que os havia por aquelas bandas.
Uma das nossas predilectas era a “Seara Nova”, que orgulhosamente mantínhamos pendurada à cabeceira da cama, como se de um escaparate de jornais se tratasse.
Mas a leitura da “Seara Nova” não era pacífica. Um dia, o primeiro-sargento Azeitona Costa aconselhou-me a que não levasse a revista para dentro do Centro Cripto para não ter problemas com alguém que não partilhasse das mesmas ideias. Nunca tive como prática ceder a pressões, mas Azeitona Costa era realmente amigo dos criptos e entendi aquilo como um aviso e não mais exibi a capa da revista. E como em minha casa só entrava quem eu convidava, apesar da chave estar na parte de fora da porta, a leitura era feita nos momentos em que ali estava recolhido.
Na livraria do Leitão conseguíamos livros de Vladimir Ilitch Ulianov, que a nem toda a gente identificava como Lenine; de Karl Marx e outros. Algum tempo volvido disseram-nos que na livraria informavam a PIDE/DGS de quem comprava aquela literatura e passámos a adoptar outra forma de conseguir as obras sem que tivéssemos que as comprar.
Como a necessidade aguça o engenho e “a tropa manda desenrascar”, quando íamos à livraria levávamos sempre uma revistas ou uns cadernos que nos serviam para “proteger” os livros que queríamos ler...

No meu quarto, a ler. Na parede, à direita, duas revistas “Seara Nova”, vendo-se que a de cima tem Alves Redol, na capa

Em frente à Livraria, no Luso