março 25, 2004

Cine-Teatro Luena

O Cine-Teatro Luena era local frequentado por todos os que passavam pelo Luso. Ali representou Paulo Renato, em 1970, quando uma das suas peças andou em digressão por Angola.
Não havia na cidade grande clivagem entre civis e militares e isso era notório nas noites de cinema.

As famílias e os militares, alguns com as esposas, encontravam-se no acanhado átrio da sala de espectáculos e nos dois intervalos aproveitavam para dar um pequeno passeio pela avenida fronteiriça, a Avenida António José de Almeida, enquanto fumavam.

A reentrada na sala era franqueada com uma pequena senha de cartolina de cor diferente conforme o dia da semana, que tinha sido distribuída à saída, mas havia truques para entrar sem pagar.

Era assim. Até ao primeiro intervalo eram projectados o “jornal de actualidades” e um documentário. Nós, nesse período, íamos ver os “quadros” que anunciavam o filme e porque na bilheteira havia a planta da sala onde a funcionária dava baixa dos lugares que iam sendo vendidos, dávamos uma olhadela para ficarmos com uma ideia de quais estavam livres.

Como éramos já conhecidos dos porteiros, por sermos frequentadores assíduos, não nos exigiam a senha de entrada e lá estávamos nós nas filas da frente como se estivéssemos no teatro. Quando o filme era muito bom, tínhamos que nos munir do respectivo bilhete, porque nesse dia não havia lugares vagos.

Numa das noites quando eu entrava na sala, já com o filme “Jogo Perverso” a rodar, Antony Quin, apareceu em grande plano e disse “good afternoon”, ao que respondi: “môio”. A risada foi geral e no intervalo prolonguei a cena dizendo que estava preocupado porque não sabia que o artista me conhecia.

Numa das vezes em que tivemos que comprar bilhete, o nosso amigo Orlando, operador de cripto, natural de Almada, foi comprar os ingressos e disse para a senhora da bilheteira: “dois bilhetes para a segunda noite”. A funcionária emendou: “Primeira noite. É como se chama o filme”. Mas o Orlando não desarmava e ripostou: “Essa já conheço. Sou casado”.


Cine-Teatro Luena, em Maio de 1970


Trinta e três anos volvidos notam-se poucas diferenças. O átrio de entrada tem portas. O restaurante está fechado e a esplanada do café restaurante está emparedada. Foto captada em Junho de 2003, por sarg. Brum, do http://group.msm.com/OsLuenas

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em março 25, 2004 12:17 AM
Comentários

que saudades, esta foi a minha casa durante 3 anos

Afixado por: abreu em novembro 9, 2004 03:20 PM