Nos quarenta e um meses que cumpri de serviço militar deu-me, tal como à grande maioria dos camaradas, para fazer muitas coisas e Angola foi uma boa escola. Ali aprendi a revelar fotografias, chegando mesmo a comprar um laboratório e a fazer as fotos da malta amiga, mas também acompanhei fado à viola, num “cabaré refilão” que abriu no Luso e que se chamava «Pica-Pau».
As “receitas” como fotografo não eram grande coisa porque os preços estavam muito abaixo dos praticados na casa da especialidade que havia no Luso, mas, mesmo assim conseguia fazer alguns gastos que outros que ganhavam o mesmo que eu não tinham possibilidade de igualar “por insuficiência de tesouraria”.
A vida de boémio naquela cidade era cara e não estava à mão dos “sargentos e praças” mas um grupo de “artistas” passou a ter acesso à “vida” nocturna quando lhe foi reconhecida a capacidade para tocar guitarra e viola e como fadistas.
Como guitarristas tínhamos o Ezequiel Rodrigues, operador de cripto do ComZML, e o Vitor Rego, cabo especialista da FA. À viola actuavam o Nelson, cabo da 24ª de Comandos e eu, que não sabia o que é um instrumento musical, se bem que tenha estudado música nos tempos de Liceu.
Com algumas lições do Ezequiel e do Nelson, aprendi as principais posições na viola e quando à noite estávamos a actuar, o guitarrista dizia-me “dó” ou “ré” e eu, com o esforço natural de quem não percebe nada do assunto, lá ia dedilhando as cordas e os sons saíam.
O “caché” era aceitável para a época e atendendo ao facto de sermos jovens e militares e baseava-se no princípio de que os “artistas” não pagavam nada do que consumiam.
E para que se percebam os valores praticados naquele “bar americano”, como era definido em termos de licenciamento, pois tinha umas jovens do continente a servirem às mesas, deve dizer-se que uma garrafa de whisky novo, na mesa, custava mil escudos, enquanto que a mesma garrafa era comprada na cantina das unidades militares, pelos sargentos ou oficiais a sessenta escudos.

Sempre pensei em aprender viola para tocar fado de Coimbra, mas nunca fui além do «picharrilho»...

Aproveitava os momentos de sossego em casa para "ensaiar"