O Luís Cruz e o Serra aproveitaram uns dias de férias que a tropa lhes concedeu e foram a Luanda com o José Afonso quando este civil do Luso quis comprar um BMW. A odisseia está bem relatada pelo Luís que nos conseguiu transmitir a dimensão, as emoções e as dificuldades que sentiram no regresso ao Leste, porque o fizeram por sua conta e risco.
Os 1.200 quilómetros que separam a capital de Angola da sede do distrito do Moxico, numa boa parte percorridos em picada, sem quaisquer pontos de apoio logístico, foram uma aventura que as várias centenas de milhares de militares que ali cumpriram a sua missão não arriscariam empreender como estes três aventureiros fizeram.
Nos vinte e um meses em que estive no Luso optei por nunca dali sair, nem mesmo para passar férias. Os amigos estavam ali e o ir de férias para Nova Lisboa, Benguela ou Luanda, era estar a arriscar passar um mês de licença com a preocupação de arranjar novas companhias e a afastar-me duma família que já estava constituída por aqueles que eu tinha escolhido, e falo dos militares e dos muitos civis que connosco conviviam.
Para se ficar com uma ideia do risco que os três aventureiros correram, refiro um episódio que vivi com o furriel Martins, da Polícia Militar, na bela manhã dia 2 de Maio de 1971.
Aprendi a andar de bicicleta aos seis anos de idade e sempre gostei de dar grandes passeios neste que é o “único meio de transporte de tracção animal em que a besta puxa sentada”. Gosto muito da modalidade - sou um dos fundadores da Associação de Ciclismo do Distrito de Setúbal, de que fui secretário da Direcção e presidente da Assembleia Geral – mas nunca fui corredor de bicicleta. Participei, durante oito anos, na Volta a Portugal, na organização do Gabinete de Imprensa, isto já depois de ter deixado África.
Isto para dizer que, no Luso, como noutro lugar qualquer, sempre que tenho uma bicicleta, dou uma volta. Foi o que fiz com o Martins. Cansados de dar voltas pela cidade, fomos andando para os lados do Ferrovia e aventurámo-nos pela estrada de Henrique Carvalho, hoje (tal já como naquele tempo) Saurimo, mas não conseguimos ir muito longe. O nosso objectivo era chegar ao Lumege, a sete quilómetros do Luena, mas não tivemos sorte.
A coluna militar que escoltava os civis vindos de Henrique Carvalho estava a chegar ao Luso e assim que nos avistaram deram-nos ordem para voltarmos para trás e não tivemos outra alternativa que não fosse obedecer.

Furriel Martins e eu, nas traseiras do Ferrovia

Km 3 da estrada para Henrique Carvalho, o ponto máximo da nossa aventura