A estada em África teve, para todos os militares, como certamente para aqueles que o não eram, momentos bons e outros que nem tanto. O afastamento da família e dos amigos com quem estávamos habituados a conviver atiravam-nos para momentos de reflexão e davam-nos uma capacidade de observação e de contemplação que não são muito naturais em jovens com pouco mais de vinte anos de idade.
Ao longo dos vinte e um meses que passei em Angola dei por mim, várias vezes, a olhar o movimento das osgas, animais com quem tinha alguma familiaridade porque, enquanto criança tinha na quinta onde fora criado, um grande poço cuja água apenas servia para rega, onde estes repteis eram atracção.
No Luso, deitado na minha cama, em pleno dia, via as osgas no canto oposto, lá bem perto do tecto, na caça dos insectos, que ali seriam poucos, mas que estes predadores sempre evitavam que fossem mais.
Em Portugal, ainda hoje, se vemos um bicho destes apressamo-nos logo a ir buscar uma vassoura, ou outro instrumento do género, para o matar.
No Luso, eram-nos familiares, talvez por terem um aspecto menos repelente, mas certamente por sabermos que nos eram úteis na caça aos mosquitos e moscas que, segundo me recordo, não eram muitos naquela região de Angola. O facto de não haver por ali muito calor deve servir como explicação para que os mosquitos não nos atacassem.
Mas se em minha casa me entretinha a olhar para as osgas também na esplanada do Café Pic-Nic, porque era interior, abrigada de ventos, nos entretínhamos a olhar para as osgas quando estas andavam de volta das lâmpadas florescentes para caçarem os insectos.
Quantas conversas terão ficado sem a atenção devida porque nos distraíamos a olhar para o ar a ver as suas manobra de caçadoras. E que boas conversas tivemos naquela esplanada. Recordo-me de, entre muitos outros, do Fernando Curval, op.cripto do ComZML e do Júlio Murraças, furriel responsável pela alimentação de uma das companhias sediadas a uns bons quilómetros do Luso e que, por isso mesmo, de vez em quando ali passava uns tempos.

Na esplanada do Pic-Nic, em 30 de Setembro de 1970
Recordo bem as osgas, nas paredes, as baratas correndo pelo chão em muitos sítios, algumas de tamanho considerável, e tenho bem presente a imagem dos bonitos lagartos azuis que abundavam nas árvores espalhadas pela cidade. Eram de um tom azul-eléctrico, muito lindo e perfeitamente pacíficos.
Vinte e um meses? Sortudo! Eu estive por lá 28! Acharam que gostei tanto do Luso que me fizeram estar mais quatro meses à espera de ser substituído, apesar de não ser legal exceder o tempo. Mas, como sempre, teoria é uma coisa, prática é outra, por vezes bem diferente.
Vinte e um meses de Luso porque, ainda no Continente, escrevi ao ministro a dizer que estávamos há muitos meses mobilizados e por isso descontaram-nos cinco meses na comissão. Mesmo assim ainda estive um mês à espera de rendição.
Tudo Somado fiz 41 meses de tropa. Quando embarquei já tinha vinte.
Um mês depois de ter regressado fiz 25 anos de idade.
Era o op.cripto mais velho em tempo de tropa e em idade, em Angola.
Lembro-me do pôr-do-sol, das árvores carregadas de frutos (mamões, peras abacates, mangas, bananas)no norte de Angola... Da chuva diluviana (aparecia uma espécie de fumo de cigarro no céu à tardinha que se transformava em núvem e depois o céu escurecia e a chuva caía torrencialmente), das picadas, dos rios...
João Paes