abril 02, 2004

Tiros na cidade

Fica mal a qualquer militar, que passou a totalidade da comissão sem sair do Luso, falar de guerra. Os dias eram passados na maior das calmas e, só tínhamos a dimensão exacta do que se passava nas matas do Leste porque estávamos ao corrente do conteúdo das mensagens que eram enviadas para o Comando da Zona.

Para quem cumpria as obrigações de vigilância ou “administrativas” dentro do arame farpado que marcava os limites do Luso, o conhecimento do resultado das operações desenvolvidas a dezenas ou centenas de quilómetros de distância, chegava-lhes por alguns relatos de militares menos contidos de língua, gesto às vezes realçado depois de uns bons finos ingeridos nos muitos cafés da cidade.

Nos vinte meses em que estive no Luso poucas foram as vezes em que fui incomodado com o som de tiros ou deflagrações. Contam-se pelos dedos e duas delas estão datadas.

Ouvi um tiro na passagem do ano, disparado por um militar embriagado, em frente à Casa Universal, na esquina adjacente ao Luso Hotel. Não nos assustámos porque estávamos no Batalhão 2878, junto ao Aeroporto, a festejar o reveillon com o major Rosa Ferreira que nos tinha convidado.

Fomos alertados por uma rajada, que soube mais tarde tratar-se de um assalto ao posto de Polícia, no Lumege, que distava sete quilómetros do Luso e que não teve consequências de maior.

Ouvimos em toda a cidade, o rebentamento, a cerca de dois quilómetros, de uma mina anti-pessoal, que terá decepado o pé a um furriel que transitava na picada da Companhia de Construções 2678.

A 23 de Março de 1971, ouvi muitos tiros na única vez em que os criptos e os operadores de mensagens foram para a carreira de tiro da BTR 522 e em que acabei por devolver as quarenta e oito balas que me foram distribuídas, alegando que preferia disparar com a máquina fotográfica, visto ser este o meu passatempo predilecto.

Ouvimos também, num fim de tarde, um tiro que nos assustou, porque pensámos que tivesse sido o op.cripto Toni, que tinha a mania de meter o cano da G3 na boca enquanto tirava a folga ao gatilho. Mas felizmente aquele tiro foi disparado para o ar.


Duas minas anti-pessoais e uma anti-carro, levantadas pelo Ecav 403, em 1971.


Eu perto do Rio Luena, na picada para a BTR 522, no dia 14 de Novembro de 1970.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em abril 2, 2004 11:27 PM
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