Os militares que viviam no Luso, e falo por mim, não davam muita importância aos comboios. O “Mala” passava por volta das dez horas da manhã, o que para muitos, quando não estávamos de serviço, era quase de “madrugada”.
Dizíamos que o Sol nos fazia mal à cabeça e não era completamente uma invenção já que as noitadas terminavam, na maioria das vezes, com a claridade do dia e depois de uma “directa” não havia quem suportasse a claridade.
Ao domingo e quarta-feira o “Mala” vinha de Nova Lisboa e ia para Teixeira de Sousa. Era uma passagem às vezes aguardada com algum interesse, porque nos podia trazia gente nova para a cidade, mas nem isso nos impressionava muito, porque nunca tínhamos informação de quem ia chegar. Era uma questão de segurança. As normas obrigavam a sempre que houvesse deslocação de pessoas a mensagem devia ser transmitida em cifra. E como todos tínhamos o hábito de “esquecer” o conteúdo das mensagens quando estávamos fora do Centro Cripto, era claro que não sabíamos quem estava para chegar.
À segunda e quinta-feira a viagem era feita no sentido descendente e quando nos levava alguns camaradas que terminavam a comissão, então sim, lá nos deslocávamos à estação do CFB para as despedidas.
Antes da entrada da composição na estação, em qualquer dos sentidos, a chegada era “anunciada” pelo ATL, uma pequena máquina a diesel, blindada, com umas pequenas vigias, e que seguia umas centenas de metros na frente do comboio para fazer de rebenta-minas e para manter uma certa segurança ao material circulante e aos passageiros.
Para os militares, e certamente para a grande maioria dos civis que viviam no Luso, o caminho-de-ferro ficava num extremo da cidade. Só atravessávamos a passagem de nível, ali ao pé do cinema Luena, quando íamos até ao Ferrovia, para ir à piscina, ou para ir ao baile ou para uma sessão de fados na sala de convívio daquele clube.
No polidesportivo do Ferrovia disputavam-se, à noite, muitos torneios de futebol de salão e foram muitas as manhãs que ali treinámos porque os muitos dias de folga nos davam essa possibilidade.

Perto da estação do CFB, Maio de 1970

No alto da torre de saltos da piscine do Ferrovia.
Vê-se, entre o gradeamento de segurança da plataforma, o aspecto robusto da máquina ATL.
Foi agradável recordar a estória relacionada com os dias do "mala", um autêntico acontecimento na cidade.
Confesso que recordo bem que um dos dias de chegada era o domingo, porque foi num domingo que cheguei ao Luso; o outro sabia que era a meio da semana, mas esqueci qual!
Estou esclarecido.
Entrei algumas vezes nos ATL, não em serviço, mas por ser amigo de um dos maquinistas.
Meu pai foi maquinista no CFB, no Luso entre 1961/68. Recordo bem a estação, e também a piscina do Ferrovia (o meu clube),onde assisti à sua inauguração, aprendi a nadar e dei alguns saltos da prancha olímpica, na qual por norma se tinha de começar da mais baixa até à mais alta, onde o amigo está ana fotografia.Era só coragem!?
Afixado por: victor roque em abril 18, 2004 12:00 AMSe o amigo Vitor Roque me pergunta se da minha parte "era só coragem!?" saltar, dir-lhe-ei que era mesmo só para a fotografia, porque saltar, só da beira da piscina. Saltei uma vez da prancha mais alta de uma das piscinas de Tróia, mas não voltei a repetir o feito.
Estive a ver as suas fotos no site dos Luenas e aproveitei para matar saudades de ulguns locais.
Um abraço.
Grato por me transportar até este tempo. O meu pai foi motorista de ATL nº75, no Luso, durante muitos anos, ainda não eram blindados, aqueles carros eram só janelas.
Numa das suas viagens de ATL chocou com um hipópotamo que passeava na linha junto à ponte do rio Cuiva.
Quanto à piscina lembro-me muito bem da sua construção, porque quando ela foi iniciada o meu pai fazia parte da Direcção do Ferrovia do qual era o sócio nº8.
Estou a preparar fotos para pubicar.
P.S. - Morava numa das casas gémeas, ao lado do ComZIL.
Um grande abraço a todos que beberam a àgua do Luena.