O termo “cacimbado” era, para os militares, a forma simpática de dizer que o indivíduo estava mesmo “marado da tola” ou de forma mais clara e entendível, que estava a ficar doido pela pressão do dia a dia.
O muito tempo que já tinha de tropa quando fui para Angola - onde cheguei a 1 de Março de 1970, depois de ter sido incorporado a 31 de Julho de 1968 – já me valia ser rotulado de cacimbado e a prova disso esteve no facto de, na chegada ao porto de Luanda, ao sair do Uíge, o alferes da PM, depois de ter implicado com a forma como eu estava fardado, resolveu virar-me as costas dizendo para o seu subalterno que “este já vem cacimbado”.
O trabalho no Centro Cripto do Comando dava-nos algum “stress” e nem os dois dias de folga entre cada serviço nos permitia a serenidade suficiente para que não fossemos conhecidos pelas maluquices que protagonizávamos.
As noitadas no Luso, quer nos petiscos, quer nas cantigas, ajudavam a que o “cacimbo” nos subisse à cabeça e isso era notório nas passeatas que dávamos e marcado para a posteridade nas fotografias que tirávamos.
Mas o “cacimbo” não apoquentava só os operadores de cripto. O mal era generalizado. E nem os mais sossegados escapavam. Quantas vezes levámos o primeiro-sargento José Azeitona Costa, um pacato cidadão que tinha filhos quase da nossa idade, a pôr-se de pé sobre a cadeira para nos explicar como é que deveríamos receber a taça quando fossemos campeões de futebol de salão.
E quem não conhece a estória do saudoso furriel Pelejão Marques, com os seus 27 meses de comissão e sem saber quando chegava o substituto, a pegar num pequeno avião e a atirá-lo para a secretária do seu chefe de secção, dizendo: “quero ir para o puto”. E a apanhar como resposta: “está a brincar com a tropa?”
- “Não. A tropa é que está a brincar comigo”.
Até eu, um tímido assumido, me sentava em frente ao Centro Cripto, com uma vara a que tinha atado uma corda que por sua vez tinha uma pedra na ponta, como se estivesse à pesca. E quando me perguntavam o que estava a pescar, lhes respondia: “alguma coisa de interesse nesta vida”.

Eu, armado em sinaleiro junto à Casa Universal, perto do Luso Hotel.

Quem não se lembra dos vendedores de gelados.

Falando às massas, mas como de costume, ninguém me ouvia. Perto do Liceu Marcello Caetano.

A viragem à esquerda era a única solução.
Estávamos em 30 de Setembro de 1970.