Nos vinte e um meses em que estive em Angola só tive arma quando fiz a viagem de Luanda para o Luso, o que aconteceu de 8 a 11 de Março de 1970 e no dia 23 de Março de 1971, quando os operadores de cripto e os operadores de mensagens tiveram de ir para a carreira de tiro da BTR 522.
Foi divertidíssimo porque tivemos oportunidade de fazer algo que saísse da rotina que nos levava a passar a vida entre cafés e restaurantes e, de três em três dias de serviço no Comando da Zona.
E lá fomos. Não me recordo como, mas deve ter sido de jeep porque havia muitas viaturas desse tipo no pátio.
Como adoro fazer fotografia não dispensei fazer-me acompanhar da minha Canon 1.2 e lá fui ocupando o tempo protagonizando uma autêntica “reportagem de guerra”, e quase cometendo o “crime” de estar a fazer concorrência ao foto-cine do ComZML, o furriel miliciano Luís Cruz, que tinha outras obrigações mais importantes do que fotografar os militares que nunca vestiram um camuflado mas assim tiveram oportunidade de enviar fotos naquela figura para as famílias.
Como todos os meninos gostam de brincar com espingardas, nem que seja para parodiar polícias e ladrões, os jovens militares, com os seus vinte e poucos anos de idade, divertiam-se sempre que eram chamados às linhas para fazer fogo e ficavam radiantes quando acertavam no alvo, como quem enche o ego, já que não lhes era dada hipótese de atingir qualquer inimigo, porque estavam numa guerra em que o seu papel era de retaguarda.
A certa altura dirigi-me ao alferes responsável pelo grupo de “atiradores” e devolvi-lhe o pacote com as quarenta e oito balas, dizendo-lhe que preferia disparar com a máquina fotográfica, porque fazia menos barulho.
Porque também era jovem, embora mais velho do que muitos dos meus camaradas porque já tinha feito os vinte e quatro anos, entretinha-me a pontapear os invólucros, ainda no ar, quando saíam a rodar das FN.
E para que não se dissesse que tinha estado na carreira de tiro e não tinha disparado, gastei três rolos de película o que quer dizer que disparei mais de cem vezes.

Eu com os operadores de mensagens Júlio e o Pinto

Qualquer militar tem direito a uma boa cerveja, mesmo que não esteja fresca