O senhor Dias era o dono do Café-Restaurante Universo e a malta sentia-se ali bem. A comida era bem confeccionada, as doses não muito caras e os empregados, o Alberto e o Silva, primavam por ser moços simpáticos e eficientes.
Em certa altura o senhor Dias, homem natural de Viseu, deve ter pensado em descansar um pouco e alugou ou trespassou o estabelecimento a dois irmãos, um deles dono de um dos dois taxis da cidade, mas de que não me recordo os nomes.
As coisas mudaram no verdadeiro sentido da palavra.
Os novos donos não tinham a simpatia nem a paciência do senhor Dias para aturar as nossas maluquices e, para além das doses passarem a ser mal servidas, passaram, como é natural que aconteça porque há alguém que pensa que enriquece de um dia para o outro, a ser mais caras.
Com tão radicais alterações, os habituais fregueses do Universo passaram a estar mais tempo noutros cafés e restaurantes, mas sem virar completamente as costas àquele local central, se bem que outros estabelecimentos do género houvessem ali perto.
Havia outro pormenor que nos levava a não abandonar completamente o Universo e essa atitude ficou a dever-se ao facto de por ali estarmos até altas horas da madrugada e só saíamos quando havia outro qualquer café aberto. Por vezes a “directa” só era interrompida pelo simples atravessar de uma rua.
Mas a vida não era só farra e, de três em três dias lá tínhamos que ir ao Comando cifrar e decifrar umas dezenas de mensagens, e por vezes todos tínhamos que trabalhar até altas horas da madrugada.
Nesses dias, porque jantávamos cerca das oito da noite, por volta da uma da madrugada havia que comer qualquer coisa e o Universo servia uns bons pregos no prato, o que dava para beber uma ou duas cervejas.
Certa noite, com o Mário Gouveia, natural da Guarda e operador de cripto da Companhia de Construções 2678, destacado no ComZML, pedimos um prego no prato para cada um mas o dito era tão pequeno que o meu camarada Mário não resistiu em chamar o novo proprietário do Universo para lhe dizer: “pedi um prego ou um pionese?”

Mário Gouveia e eu, junto ao Jardim Oliveira Salazar. Nota-se que há um jogo no polidesportivo que ali existia e vê-se também a cripta da torre da Catedral do Luso.