abril 11, 2004

A mulher do polícia

As casas onde viviam os militares que não tinham como obrigação pernoitar nos quartéis eram relativamente modestas. Algumas eram garagens adaptadas para que os donos das vivendas aumentassem os seus proventos, outras, um bom quarto independente, com janela, uma bacia e água corrente.

Os operadores de cripto viviam todos perto do Café Universo. Eu, o Francisco Duro e o Fernando Curval vivíamos num pátio em frente aos escritórios da Aerangol, sediados logo a seguir ao Banco Comercial de Angola.

O pátio tinha acesso por um longo corredor, entre os quintais de duas vivendas e ali moravam uma família angolana, no quarto logo a seguir o Ezequiel Rodrigues e o Laranjinha Martinho, no outro, três telegrafistas, entre os quais o Leitão, o tal que dormia “que nem um porco”, a seguir, um polícia e a esposa e o último era o nosso.

A relação entre militares e civis era pacífica e sempre foi pautada pela delicadeza e pela política de boa vizinhança, com a senhora mãe de uma jovem da nossa idade a ser compreensiva quando alguém fazia um pouco mais de barulho, aceitável e compreensível vindo de gente com pouco mais de vinte anos de idade.

A coisa complicava-se quando metia “as forças da ordem”. Ou melhor, quando a esposa do polícia, uma daquelas senhoras de mão na anca, resolvia vingar-se do que considerava ser um sofrimento.

Sabe-se que muitas noites passadas em Angola eram “directas”, mais pelas paródias do que em serviço no Comando e nisto todos éramos pecadores.

O pior de tudo era que, por vezes, na minha ausência, até porque nunca fui dado a jogos, quando eu estava de serviço no ComZML, o meu quarto servia de casino e por muito que as cartas se joguem em silêncio sempre incomodava a vizinha do lado, mais dada a levantar-se com os galos, até porque o esposo também saía cedo para o seu serviço.

A princípio eu não percebia porque é que a vizinha logo que o dia alvorecia acendia o rádio em altos berros, até que acabei por me inteirar as situação e ela explicou-me que era para se vingar do barulho que os meus camaradas faziam à noite.


Em frente à minha casa, onde se vê o negro a lavar a louça


Em frente ao Banco Comercial de Angola (ao lado do Universo)

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em abril 11, 2004 01:24 AM
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