Uma das coisas que entusiasmava a maior parte dos jovens quando entravam no serviço militar eram as armas. Era vê-los com entusiasmo no manuseamento de uma simples mauser modelo 1937, como se do mais moderno armamento se tratasse, armados em soldadinhos de chumbo, mentalizando-se para combater um inimigo que não sabiam quem era nem quais os seus objectivos.
Na recruta tive a sorte de ouvir, na primeira vez que saí das linhas de tiro, que os melhores iriam para atiradores. A partir dali nunca mais acertei num alvo. E os testes psicotécnicos atiraram-me, tal como à dezena de camaradas com que mais me familiarizei em Elvas, para operador de cripto.
Na viagem de Luanda para o Luso lá fui eu, tal como os restantes, com uma mauser a servir de defesa, como convém a um militar que acabava de chegar à guerra.
Um ano volvido pegaria novamente numa arma, desta vez para tirar fotografias na casa do Curto, do Martins e do Domingos, furriéis da Polícia Militar. Para tirar uma dessas fotografias, daquelas que servem para mostrar a valentia aos amigos, tirei o carregador e só depois de ter disparado uma dezena de vezes, para ter a certeza de que não ficara nenhuma bala na câmara, é que encostei a pistola à cabeça mas, mesmo assim, com o dedo fora do gatilho e bem esticado, “não fosse o diabo tecê-las”.
Uma semana mais tarde tive que ir para a carreira de tiro da BTR 522, mas optei, com a conivência do alferes que comandava as operações, de não disparar com a FN, mas sim com máquina fotográfica, já que era mais a meu gosto.
Depois destes dois episódios com armas, o primeiro a 17 de Março de 1971 e o segundo a 23 do mesmo mês, não voltaria mais a pegar em armas. Nem mesmo para fazer, no final de Novembro desse mesmo ano, a viagem de regresso a Luanda. Aqui valeu a persuasão perante quem tinha que decidir para que “fechasse os olhos” a dezoito militares que viajavam sob a minha responsabilidade sem uma única arma. O objectivo foi conseguido, embora com alguns problemas aquando da entrega da guia de marcha à chegada aos Adidos.

No quarto dos furriéis da PM, a 17 de Março de 1971

Foto para marcar a passagem pela “Guerra”, a 23 de Março de 1971
Li recentemente o livro Os cus de Judas de Antonio Lobo Antunes e fiquei impresionada com os acontecimentos, principalmente, o medo e o terror da morte, além da tenebrosa solidão; e essa primera foto me fez lembrar disso: solidão, frieza e perigo. Quero saber mais sobre a guerra, por isso acessei o site.
Afixado por: Isabel em novembro 2, 2004 03:16 PM