O clã dos operadores de cripto era notado na cidade pela unidade e solidariedade entre todos os seus elementos que poucas vezes ultrapassavam uma dúzia mas nunca eram menos de nove.
Do quadro do Comando da Zona Leste éramos seis. Eu, Cabrita Lopes, Fernando Curval e Carlos Alberto Martins, todos do 3.º turno de 68 e o Francisco Duro e o José Luís Silva, do 4.º turno do mesmo ano. Completavam o “plantel” os criptos dos Comandos, da Companhia de Construções, dos Dragões, da BTR 522 e da Companhia que pertencia ao Batalhão que estava junto ao Aeroporto.
Foram muito poucos os dias em que estivemos com o número reduzido de militares e só uma ou duas vezes é que trabalhámos 24 horas seguidas. Fora isso reinava a calma, embora sempre com muito trabalho mas que cada um dos coordenadores das equipas geria da melhor maneira e de modo que as mensagens não se acumulassem nem que estivéssemos ali a atrapalhar-nos uns aos outros.
Quando as equipas tinham pouco mais do que o mínimo, o operador que ficava de serviço à noite estava dispensado de entrar logo às oito da manhã, e começava a trabalhar depois de almoço. Os restantes começavam a sair por volta da meia-noite, dependendo isso das mensagens que estavam por cifrar ou decifrar.
Quando havia muita gente, era a balda, umas horas a uns e a outros e às vezes até dava para ir ao cinema no dia de serviço.
O tempo livre, e havia sempre dois dias entre cada serviço, era aproveitado para passear, fazer desporto, ir para o rio Luena ou para a piscina do Ferrovia e, às vezes ficar em casa a ler ou a descansar porque as noitadas eram rijas.
Convém dizer que o clima era por nós considerado como a eterna Primavera e por isso nem sempre o calor exigia que se fosse sempre ao banho nas frescas e cristalinas águas do Luena. Tão cristalinas que era dali que era bombada a água para o abastecimento público da cidade.
A chuva também não era muita e no período do cacimbo, porque não tínhamos esquentador, o banho era tomado à pressa e lá perto do meio-dia, porque o precioso líquido corria um bocado para o frescote.

Francisco Duro, Toni, Jorge Santos, Cabrita Lopes e Hélder. Em primeiro plano Mário Gouveia. No largo 28 de Maio, em frente ao Rádio Clube do Moxico