Muitos militares aproveitavam a estada em África para tirar a carta de condução. E se se tinha a especialidade de condutor ou de mecânico, então esse apetite ficava aguçado porque já se estava em poder de conhecimentos que facilitavam a instrução e, obviamente, o exame.
Sabe-se que uma boa percentagem das cartas de condução apreendidas em Portugal tinham sido passadas pela Direcção de Viação do Moxico, onde bastava chegar à escola de condução manifestando a vontade de começar com as aulas para ser proposto a exame e isso acontecia em pouco mais de uma semana.
Porque não era muito caro obter carta de condução no Luso eram muitos os militares que se predispunham a aprender a conduzir para regressarem a casa com mais uma habilitação que lhes pudesse ser útil.
Com frequência víamos os carros da instrução a percorrer as ruas da cidade e o dia do exame era festejado como sempre acontecia quando algo corria bem.
Quando o Etelvino Damásio, cabo mecânico da 24ª Companhia de Comandos, fez exame de condução logo começámos a programar as coisas para festejar o sucesso, mas quando este chegou disse-nos que tinha reprovado mas ninguém acreditou. Só quando, passado, quinze dias, o voltámos a ver no carro de exame é que acreditámos que tinha falado verdade.
Sabíamos que o Etelvino era um condutor experiente e exigimos que contasse em pormenor o que se passara e a estória é digna de constar num manual.
Era costume, não sei se por exigência do código, se prática na cidade, que quando o sinaleiro estava no cruzamento, se fizesse a curva “por dentro” e quando a peanha onde este normalmente se colocava estava vazia, se contornasse a peanha “por fora”.
O Etelvino passou “por dentro” quando o polícia não estava lá e, reprovou.
Na segunda vez que foi a exame, e com experiência adquirida, o cabo mecânico acelerou, perto do cruzamento travou de repente e perguntou ao examinador: -“quer que contorne ou passo por dentro?”.
Depois de refeito da cabeçada que deu no pára-brisas, o examinador explicou como queria e o Etelvino passou no exame.

Eu e o Etelvino Damásio, no Restaurante Universo

Etelvino Machado é o primeiro a contra da esquerda

Em segundo plano vemos o sinaleiro na peanha que estava no cruzamento em frente à Casa Universal, ao pé do Jardim