Os militares que cumpriram serviço militar obrigatório em África, exceptuando alguns - poucos compreenda-se - que eram do quadro permanente, estavam longe de saber que haveria de acontecer um Movimento das Forças Armadas, que, além de outras reivindicações, haveria de acabar com a Guerra Colonial.
Nos primeiros anos da década de setenta sentia-se que algo teria de mudar.
Este sentimento era o resultado de um descontentamento que se vinha agudizando entre a juventude, que começava a ver que as suas carreiras profissionais estava a ser interrompidas por uma guerra que nada lhe dizia.
Nos batalhões e companhias que, por imposições estratégicas, se tinham que isolar nas zonas onde a guerra assumia um carácter efectivo, com tiros, emboscadas e defesa da zona que lhes estava atribuída, não havia grandes condições para alguém politizar as “bases” a não ser que por ali houvesse um ou outro disposto a transmitir ensinamentos adquiridos.
Na cidade havia muito mais e melhores condições para que as acções políticas ganhassem forma e estas eram levadas à prática por muitos dos que ali passavam dia e noite e que para além das missões militares que lhes estavam atribuídas e que iam cumprido para que sobre eles não se levantassem suspeitas, gastavam os seus períodos de repouso na busca de oportunidades para consciencializar os que passavam pela cidade.
E o descontentamento militar não existia só ao nível dos capitães que acabariam por pôr em marcha o levantamento que se haveria de chamar “25 de Abril”. Nos finais de 1970, quando os quadros permanentes das Forças Armadas beneficiaram de um aumento salarial superior ao valor do que os praças recebiam por mês, levou a que soldados e cabos andassem, fardados e à civil, nos carros militares, a percorrerem as ruas da cidade do Luso, e certamente noutras da Região Militar de Angola, a cantarem, com música de “Um chapéu aos quadradinhos”, uma palavra de ordem que reivindicava “Um aumento para os soldadinhos”.
Como é evidente a esta acção o Poder não respondeu, mas também não a reprimiu.
Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em abril 24, 2004 11:48 PM