O Cine-Teatro Luena passava filmes três ou quatro vezes por semana e muitos de nós éramos frequentadores quase assíduos, e mesmo quando estávamos de serviço e havia interesse em ver determinada fita, lá arranjávamos maneira de dar volta aos turnos para que ninguém deixasse de passar uns belos momentos e de cuidar do intelecto da forma que mais gostava.
Quando íamos ver os quadros no átrio do cinema para sabermos que filme ia passar, tínhamos o cuidado de ver uma informação que estava inserta numa folha A4, e que era a cópia do ofício da empresa para a delegação da Inspecção dos Espectáculos, e onde se ficava a saber quantas “partes” tinha o filme.
Se um filme tinha dez partes já se sabia que a projecção durava noventa minutos, pois cada “parte” correspondia a nove minutos. Um pormenor técnico que alguém que estava dentro do assunto identificou e que me serviu para mais uma das paródias que fazíamos uns aos outros.
O nosso amigo Francisco Duro tinha o péssimo hábito de se levantar uns minutos antes do filme acabar, porque “cedo” se apercebia como a cena acabava.
Se isto não fosse suficiente para nos deixar de pé atrás, o nosso amigo esperava por nós à saída e lá seguíamos até ao Pic-Nic, ou até ao Universo, porque sempre havia a ceia depois do cinema, e ele ia explicando o enredo do filme como se nós não tivéssemos lá estado.
Foi numa dessas vezes que propus que fizéssemos uma colecta para pagar o bilhete ao Francisco Duro para ele ir ao cinema sozinho e depois íamos esperá-lo à saída do Luena para nos contar o enredo do filme. A vantagem disto é que não perdíamos tempo e sempre nos saía mais barato.
Um dia ofereci-me para ir comprar os bilhetes para que o Duro não ficasse a saber quantas “partes” tinha o filme e quando fiz a distribuição dos ingressos fiz questão de informar que o filme tinha menos duas “partes” do que tinha na realidade.
E o resultado disto foi o nosso camarada de armas e de paródias ter saído da sala vinte minutos antes do filme acabar.
Dessa vez fomos nós quem teve de explicar o resto do filme.

Mário Gouveia, Talaia, Francisco Duro e Jorge Santos