Toda a gente sabe que o material que passava pelo Centro de Cripto (CCP) era classificado e, mensagens e outros documentos vinham sempre “rotuladas” de Confidencial, Secreto e Muito Secreto.
Os telegrafistas, numa azáfama para interpretarem o “traço-ponto-traço” não tinham a mínima oportunidade de saberem o mais pequeno pormenor do conteúdo de qualquer mensagem e depois faziam-na passar pelo Centro de Mensagens, onde os operadores descodificavam os endereços.
Por sua vez os operadores de mensagens faziam-nos chegar as mensagens com mais ou menos pentagramas (grupos de cinco letras desconexas) que decifrávamos tornando aquele “amontoado” de letras em texto legível.
A mensagem antes de chegar ao destinatário era dobrada tomando o formato de um pequeno quadrado e era “fechada” com agrafos.
Se a mensagem tinha um grau de segurança superior ao Confidencial era fechada num envelope contendo este a indicação de que seria apenas para abrir por fulano de tal.
Se o ComZML queria fazer chegar uma mensagem a outras unidades procedíamos de maneira inversa.
Porque no CCP ficávamos sempre com uma cópia da mensagem havia que, em dias previamente determinados, proceder à sua destruição e fazíamo-lo incinerando os documentos num bidão, e aproveitávamos, para isso, um pequeno espaço em frente à Secretaria.
Por vezes acontecia termos que levar documentação ao aeroporto e esta era entregue à guarda do comandante de um avião militar. Numa madrugada coube-me a responsabilidade de levar o embrulho que era devidamente atado, selado, lacrado e protocolado com guias preenchidas em triplicado. Uma dessas guias, depois de assinada por mim e pelo comandante regressava ao CCP onde aguardava por uma das cópias que o comandante fazia chegar ao destinatário em Luanda e depois era devolvida para conferirmos que “a carta chegara a Garcia”.
Foi nessa acção a primeira vez que entrei no avião Noratlas. O comandante, que estava ainda na rua, assinou a documentação e pediu-me para que fosse colocar a encomenda na cabina.
Fiquei deslumbrado com tanto botão.

Num passeio ao Aeroporto Gago Coutinho, no Luso, em Julho de 1970

Noratlas. Foto do site Os Luenas