abril 30, 2004

Um escudo, minino

Os militares, na sua grande maioria, gostavam de andar bem ataviados e, como é compreensível, bem engraxados. Isto era verdade quer andassem fardados ou à paisana.

Quem esteve em África conhece bem a expressão vinda da boca de miúdos que ofereciam os seus serviços: “quer engraxar minino?”

Quantas vezes, se tínhamos tempo, acedíamos a que o moleque nos engraxasse os sapatos ou botas e quantas vezes o consentíamos mesmo que nos dessem só mais um toque de pomada, mesmo que o não necessitássemos. Isto para termos motivo para lhes dar um escudo e para que não ficassem com a ideia de que recebiam uma esmola.

Era um espectáculo ver a forma como manuseavam o pano para dar lustro ao sapato e, curioso, era observar que o tal pano, muitas vezes nem tocava no calçado, pois os estalos que dava eram por ser esticado com o malabarismo.

Quando nos apercebíamos da exibição, tirávamos o pé da caixa de engraxar e quando ele ia assentar o pano o pé não estava lá e era ver o sorriso do cliente contrastando com a falta de à vontade do servidor...

Uma dia, numa esplanada, um dos miúdos abeirou-se do Etelvino Damásio, mecânico da 24.ª da Comandos e convenceu-o a deixar engraxar os sapatos.

Depois do trabalho feito, o militar perguntou: “quanto custa?” E a resposta saíu pronta e correcta: “um escudo, minino”.

- Um escudo? Estás doido. Só pago dez tostões!
- Dez tostões não, minino. Um escudo!

E a discussão continuou, sem que houvesse indícios de que a solução estivesse à vista.

O jovem nativo não desarmava enquanto o militar continuava na sua maneira simpática de o arreliar, sabendo bem que estava em causa apenas o facto de em Angola não se utilizar a expressão “dez tostões” para designar a unidade da nossa moeda.

Fingindo-se farto da discussão Etelvino retorquiu para o negrito: - não queres dez tostões? Então deito fora!. E, enquanto dizia isto, fazia o gesto de arremessar a moeda mas antes, e na sequência do movimento, deixara a moeda na cabeça.

O miúdo era levado pelo gesto da mão, mas ficava estático porque, entretanto, não sentira o som da moeda a cair.


João Carlos Domingues, furriel da PM

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em abril 30, 2004 05:35 PM
Comentários