maio 10, 2004

'Maça do Puto'

Os militares que estavam “desarranchados” tinham que tomar as refeições em restaurantes, pois não tinham condições para as confeccionar. Havia também a hipótese de contratar com o restaurante o fornecimento da refeição no domicílio e à hora certa o jovem preto lá aparecia em casa com o terno onse transportavam a sopa, o segundo prato e a sobremesa.

Eram muitos os estabelecimentos de restauração que havia na cidade mas para que não corrêssemos o risco de nos fartar de determinado tipo de comida, tínhamos como hábito mudar de restaurante todos os meses.

Nos últimos dias do mês negociávamos as melhores condições para celebrar contrato para o período seguinte embora às vezes tivéssemos que optar por um menos barato para aumentar a hipótese de variedade.

Em quase todos os restaurantes os empregados eram gente simpática que, apesar da humildade, que muitas vezes era “compensada” com humilhação, quer por parte de clientes que pouco deviam às regras de bem estar em sociedade, quer também, nalguns casos, maltratados pelos patrões que sabiam que os estavam a explorar.

Junto ao Cine-Teatro Luena havia um restaurante que tinha uma particularidade que era bastante agradável. A sala de refeições era no jardim que tinha uma decoração simples mas engraçada. As mesas eram separadas por umas grades em betão, que davam a ideia de privados mas permitindo a visibilidade em todas os sentidos.

O empregado, Silva de seu nome, gostava de se intitular o “preto mais bonito do Luso”. Não sabemos se o era ou não, mas o à vontade com que se elogiava fazia dele, se não “o mais bonito” pelo menos o mais engraçado e comunicativo.
Como tínhamos sempre tempo de sobra, aproveitávamos todos os momentos para larachas e não reclamámos quando quisemos saber o que era a sobremesa e nos respondeu:
-“Maça do Puto, minino”.
-Deixa-te de conversas. Diz lá o que é a sobremesa...
-Minino, a sobremesa é “maça do Puto”.
-Não brinques, trás lá a sobremesa...

E o Silva, bem sorridente, apareceu com um belo pêro, que ficámos a saber que era do Continente.

E “traduzindo”, a sobremesa era “maçã do Continente”.


Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em maio 10, 2004 11:50 PM
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