fevereiro 28, 2004

Ainda a bordo do Uíge

Sempre tive dificuldade em adormecer, mas ao longo dos anos tenho aprendido algumas técnicas para vencer esse obstáculo.
A primeira, que me recorde, foi durante a viagem de Lisboa para Luanda, onde estávamos todos a viver uma situação nova e, como tal, a família, pelo menos para mim, não me trazia grandes preocupações.

Recordo-me que, quando me deitava, pensava para com os meus botões: - ainda hoje não pensei na família e, depois de alguns instantes de recordação dos pais, avós, irmãs e namorada, logo mergulhava no sono que me levaria até à manhã seguinte.

Era a nossa primeira experiência de ausência de notícias dos que nos eram mais queridos e, pelo mesmo motivo, também ninguém sabia nada de nós.
Contudo, a situação provocava-nos – mais a uns do que a outros – alguns momentos de tristeza e recordo-me de uma camarada de Guimarães, salvo erro Rodrigues de seu nome, que passava muito tempo encostado à amurada do navio a olhar o mar que passava.

Quando lhe dizíamos qualquer coisa, como que tentando que ele se abrisse connosco, logo retorquia: - lá no fundo és bom rapaz!

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:49 AM | Comentários (0)

fevereiro 27, 2004

Convívio de Dragões

Os ex-militares dos "Dragões de Angola" (GCAV1), vão levar a efeito o 28.º Convívio Anual, no dia 29 de Maio, em Águeda, e começaram já a divulgação do evento, como forma de cativar a atenção dos interessados.
Os contactos para este Convívio poderão ser estabelecidos para o telefone 917240762, de António Costa, ou pelo e-mail: dragoesdeangola@netcabo.pt.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:20 AM | Comentários (1)

fevereiro 26, 2004

Passagem do Equador

A viagem no Uíge não foi má de todo. O grupo já se conhecia porque uns eram do mesmo turno e tinham estado oito meses a aguardar embarque e outros eram conhecidos da vida civil. Acresce a isto que a alimentação era boa e enriquecida com o que cada um levava na bagagem e colocava na mesa a meio da manhã, no “lanche” da tarde ou na ceia para prevenir eventual fome entre o jantar e a tardia hora que os jovens escolhem para dormir.
Bem tratados de estômago seria natural que a boa disposição fosse apanágio do grupo e tal aconteceu.

Foi essa boa disposição que ajudou a passar o Equador. Uma linha difícil de transpor pois para toda aquela gente, com excepção para um ou outro sargento ou oficial que aproveitava os momentos de diálogo para “dar graças a Deus” pela serenidade da viagem, já que em experiências anteriores tinham sofrido as “passas do Algarve”, com temporais.

Não foi o que nos aconteceu, pois navegámos vários dias praticamente com mar-chão, apenas com o inconveniente do estridente som da sirene que ia marcando presença por causa do nevoeiro e nos impedia de ir até ao convés ou ao tombadilho das baleeiras.

Mas por esta altura da viagem houve a “cerimónia” da passagem do Equador, que era aproveitada para parodiar os mais ingénuos que teriam que saltar para transpor tão importante obstáculo.

E porque, como dizia o capitão Almeida, que conheci com os meus dezoito anos de idade, como delegado da Comissão Central de Censura, quando fui para a Redacção do tri-semanário «O Setubalense», “festa sem comeria é gaita que não assobia”. E lá fomos devorar mais umas cervejas enquanto apreciávamos mais um petisquinho.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:43 PM | Comentários (0)

Reparação de pontes

Joaquim Malichi, chefe de departamento de construção do Instituto de Estradas de Angola (INEA), informou esta quarta-feira, na cidade do Luena, que 65 pontes destruídas durante a guerra, na província do Moxico, começarão a ser reabilitadas, a fim de viabilizar a circulação terrestre na região.

Falando à imprensa, Joaquim Malichi adiantou que aguarda-se, em Março ou Abril, a chegada de 720 metros lineares de pontes metálicas para acudir a situação da via Luena/Lukusse.

Aquele responsável acrescentou que uma equipa de operários do INEA, afecta às províncias do Moxico e Lunda Sul, vai montar a partir de Abril a ponte sobre o rio Lumeje Pinto, cujo o material já se encontra no país, e que ainda em Abril terá início a montagem da ponte sobre o rio Alto Zambeze.

Por outro lado, informou que nessa altura já existe um empreiteiro que vai reabilitar a via que liga Dala/Camanongue, cuja a extensão não foi avançada pela fonte.

Segundo o responsável do INEA, aguarda-se, para breve, a adjudicação da reparação do troço que liga Camanongue ao Luena.

A prioridade do programa de actividades do Ministério das Obras Públicas assenta na reconstrução de estradas e pontes, bem como outras infra-estruturas, permitindo a livre circulação de pessoas e bens.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 03:34 AM | Comentários (0)

fevereiro 25, 2004

Serra Leoa

Como se percebe, este blog é redigido por dois ex-combatentes da Guerra Colonial que estiveram no Leste de Angola na mesma altura, mas cujas viagens se fizeram em épocas diferentes.

Não há nenhuma contradição nos relatos, mas convém "avisar" os leitores para este pequeno pormenor.

Quando o Luís Cruz fez a viagem ainda eu estava "pendurado" no "Puto" porque a nossa papelada encontrava-se "escondida" numa gaveta da REPRAÇASTERRA, na Graça, em Lisboa.

Um dos quatro operadores de cripto do 3.ºT/68 era sobrinho de um primeiro sargento e os outros três, de que eu fazia parte, tínhamos a certeza de que ali havia mão se "sorja" para que a malta entrasse no esquecimento...

Só que o Fernando Curval, desesperado, foi à Graça, não se deu por vencido e encontro a papelada que nos haveria de levar para Angola.

Esta uma parte da história que nunca tinha sido relatada, mas que irá ser desenvolvida em futura oportunidade.

Mas, porque a minha viagem se iniciou a 18 de Fevereiro de 1970 - enquanto o Luís Cruz chegou a Angola em Agosto de 69 - por esta altura, dia 25, o Uíge estaria a navegar ao largo da Serra Leoa, onde a humidade do ar era mais do que insuportável e onde a nossa pele adquiria um aspecto viscoso. Horrível.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:13 AM | Comentários (0)

fevereiro 23, 2004

Divertimentos no Uíge

Os responsáveis pelo transporte dos militares tinha algumas preocupações em entreter aqueles milhares de jovens, para que não houvesse grandes problemas a bordo.

À tarde havia, no convés, alguns passatempos. Recordo-me das corridas de cavalos onde se apostava num de seis cavalos assinalados com números e que iam avançando casas num grande tabuleiro conforme saiam os dados.
Outras vezes faziam-se simulações de salvamento no caso de um eventual acidente.

Mas os operadores de cripto, divididos por dois camarotes, tinham outras hipótese e reuniam-se num deles a jogar às cartas e havia um pormenor engraçado. Jogava-se a dinheiro, mas só se perdia. Ninguém ganhava.
A história é simples de contar.

Os valores em jogo eram pequenos e quem perdia pagava e o acumulado era utilizado para comprar cerveja para acompanhar os petiscos que fazíamos com o que cada um levava na bagagem. Uns presuntos, umas conservas ou uns queijos, serviam de lanche entre as refeições servidas nos refeitórios do navio.
Quem ganhava nada pagava.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 09:39 AM | Comentários (0)

fevereiro 22, 2004

Moxico festeja Carnaval

No tempo da Guerra Colonial os angolanos não tinham oportunidade de fazer festejos de Carnaval. Pelo menos nos quase dois anos que vivi no Luso não assisti a nada que disso desse ideia.


Jorge Santos parodiando o 1.ºcabo Arnaldo, pintor da noite. Pelo menos o quarto ficou do avesso, com a cama virada e o pijama calçado a preceito

Hoje, por muitas carências que tenham - e têm - é-lhes dado o direito de se divertirem e, 33 grupos carnavalescos, 21 dos quais de adultos, inscreveram-se na direcção provincial de Educação e Cultura da província do Moxico para participarem nos festejos carnavalescos.

Os grupos realizaram vários ensaios nas escolas e nos bairros para permitir uma participação organizada e atraente no desfile provincial, prevista para os dias 22, 23 e 24.

Por outro lado, a comissão organizadora empenhou-se na angariação de apoios financeiro e material junto dos agentes económicos e pessoas singulares para apoiar os grupos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 03:22 AM | Comentários (0)

fevereiro 21, 2004

"Carnaval" em Caripande

A 16 de Fevereiro de 1971, comemorava-se o Carnaval.
O Comando da Zona Militar Leste planeara fazer um bombardeamento a populações a Norte do Luso e ordenara que se pedissem dois aviões e dois pilotos a Luanda e que se informassem os aquartelamentos circundantes dos alvos, para complementar a acção.

Mas o bombardeamento não aconteceu. A mensagem saiu para todas as unidades menos para o local onde estavam os pilotos.

Na manhã de 17 de Fevereiro, o primeiro-sargento Azeitona Costa batia-me à porta de casa avisando-me para que me preparasse porque poderia ser preso.
Limitei-me a sorrir e a perguntar se tinha direito a cama e alimentação e a resposta foi afirmativa.

Retorqui dizendo que não havia qualquer problema porque preso já eu estava porque não podia sair da cidade...

O alibi estava traçado.
Nessa noite de Carnaval o aquartelamento do PC/AV de Caripande, lá bem no Leste, tinha sofrido um ataque de grande envergadura por parte do MPLA e segundo as muitas mensagens recebidas foram alvejados com 113 morteiros e lança-granadas-foguete e armas automáticas.

As mensagens classificadas de “Relâmpago” e “Imediato” eram muitas e grandes. Em suma, os quatro operadores trabalharam toda a noite e essa circunstância foi aproveitada por mim para me “esquecer “ de requisitar os pilotos.

Havia um obstáculo.
As mensagens tinham, obrigatoriamente de ser conferidas por outro cripto, o que na prática não acontecia, pois era-lhe colocada na frente para assinar de cruz. Reinava a confiança mútua.

Havia que escolher quem merecia a confiança para alinhar num acto tão importante que iria poupar muitas - mesmo muitas - vidas.

E levei o resto da noite a preparar o Zé Luís para a situação. De vez em quando dizia-lhe: “acho que há qualquer coisa que não está certo. Não sei o que é, mas tenho a sensação de que falta qualquer coisa...”.

No dia seguinte, primeiro-sarg. Azeitona Costa e alf. Serra ouviram as minhas explicações e pouco mais confusão houve porque tudo estava bem montado e “correcto”.

As mensagens recebidas do PC/AV de Caripande davam conta de que não tinha havido feridos e que os nossos militares ainda tinham recuperado muito armamento ao “inimigo”.

Mais tarde as mensagens assinalavam novas coordenadas para o aquartelamento, o que queria dizer que tinham recuado cerca de cinco quilómetros para o interior de Angola.

Ao ler António Lobo Antunes em “Os Cús de Judas” e “Memória de Elefante” ficamos a saber que ele, como médico, teve bastante trabalho com os feridos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:50 PM | Comentários (1)

fevereiro 20, 2004

Coincidências

A vida oferece-nos momentos curiosos.
À sexta-feira costumo almoçar com um grupo de amigos, quase tudo gente da minha idade e na sua esmagadora maioria mulheres. Até aqui nada de novo.
Hoje, porque este blog é editado há apenas dois dias, quis dar a novidade a uma delas, pois conheço-lhe o interesse por África, onde viveu muitos e bons anos e acrescentei que fez no dia 18 deste mês, 34 anos que embarquei no Uíge, para Angola e obtive como resposta, depois de uma agradável exclamação:
- “O meu marido também embarcou nesse dia, curiosamente na véspera de fazer anos”.
Como o Mundo é pequeno...

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 05:07 PM | Comentários (0)

Terceiro dia de viagem

Mais de trinta anos volvidos não será fácil explicar o que era uma viagem de quase duas semanas de Lisboa para Luanda, num navio de passageiros que triplicava a às vezes quadruplicava a sua lotação.

Eu, o Cabrita Lopes, o Carlos Alberto Martins e Francisco Duro, todos operadores de cripto, ocupávamos um camarote do Uíge. Umas instalações aceitáveis, mas recordo-me de ver as condições em que viajavam cerca de dois milhares de jovens, amontoados nos porões da carga do navio. O cheiro era horrível e piorava à medida que os dias iam passando, pois as os cuidados com a higiene pessoal eram quase proibitivos. A saturação da viagem provocava enjoos e muitos já nem tinham força física e anímica para subir ao convés para vomitarem da amurada para o mar.

Estou convencido que pouca gente que não passou por isto tenha capacidade para avaliar o que era o tormento de uma viagem deste género no Niassa, um navio de carga “adaptado” com camas nos porões. Seria assim uma espécie de campo de concentração flutuante.

Ao terceiro dia de viagem estaríamos a passar ao largo das Canárias, mais milha menos milha, e ainda ia tudo muito bem composto.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:04 AM | Comentários (0)

fevereiro 19, 2004

Início da Viagem

Foi em 18 de Fevereiro de 1970 que entrei no Uíge para a viagem que me levaria para Angola, depois de duas tentativas falhadas de embarque, uma no Niassa e outra no Pátria, com pormenores que irão um dia conhecer a luz.

Assinalo a data como início deste blog que eu e o Luís Cruz, foto-cine, que fui encontrar no Luso, pois ali serviu de Agosto de 69 a Novembro de 71.

Estes dois ex-combatentes procurarão trazer aqui as recordações de dois anos da sua juventude vividos onde “o Leste é mais Leste”, falando de episódios que outros recordarão e alguns ficarão a tomar conhecimento pela primeira vez.

Neste espaço faremos questão de abordar temas de interesse a todos os que, tal como nós, ali serviram, quer o tenham feito em simultâneo quer antes ou depois.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 03:37 AM | Comentários (0)