março 31, 2004

Churrasco é em Angola

No dia em que cheguei a Luanda, recordo-me perfeitamente, quando me levaram, de camioneta, desde o porto até ao Regimento de Infantaria 20, onde estava instalada a CMR 113 (Companhia Metropolitana de Recompletamento), vi um conterrâneo que certamente estava na cidade de passagem.

Mais tarde vim a encontrar o Arnaldo no Luso, integrado numa daquelas unidades que estavam em volta da cidade.

Este encontro nada teve de especial, pois muitos setubalenses foram, tal como nós, mobilizados para a Guerra de África e uma boa percentagem esteve no Leste de Angola.

Encontrei também alguns civis que ali tinham cumprido a comissão de serviço e optaram por ficar.

O António Mouzinho Rato trabalhava no Caminho de Ferro de Benguela, era, se a memória não me falha, maquinista do “Mala” e vivia no Luso com a esposa e filho, um miúdo que em 1970 tinha sete anos de idade.

Um belo domingo reunimos, eu e o Arnaldo, em casa do António Rato, a ali fizemos o melhor frango de churrasco que comi em toda a minha vida. Não sou grande “garfo” mas recordo com saudade aquele pitéu. Não sei se o frango tinha sido criado com alguma alimentação especial, se as brasas estavam à altura perfeita, se era o tempero, à base de “gindungo”, que estava no ponto, ou fosse lá o que fosse, o certo é que sempre digo: “churrasco é em Angola”. E não há mais conversa.

Estive com o Arnaldo mais algumas vezes no café Universo e no Pic-Nic e por vezes cumprimentamo-nos em Setúbal.

Com o António Rato estive também outras vezes no Luso. Recordo de uma noite em que fomos tomar um copo num bar de aspecto modesto num quimbo lá para os lados do rio Luena, onde havia umas “morenas” que estavam à espera que lhe pagássemos um copo.

Desse encontro ficou-me na lembrança que bebemos um “whisky saloio”, que não passava de um martini com água das pedras. Era a “senha” para que se percebesse que não tínhamos outra intenção a não ser a de mostrar o local a um forasteiro.

Chegou a convidar-me para ir à caça, mas nunca aceitei porque, verdade seja dita, nunca foi coisa de que gostasse.


António Rato, o filho, Arnaldo e Jorge Santos

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março 30, 2004

Os criptos do Bcaç 2878

Temos falado do Batalhão de Caçadores 2878, sediado junto ao aeroporto, comandado pelo tenente-coronel Carvalho Fernandes, que tinha o major Rosa Ferreira como segundo comandante e já aqui nos apareceram comentários do op.cripto Augusto Martins que com o Amaral preenchiam o quadro do Centro Cripto do Bcaç 3831, que os substituiu.

Se os operacionais de uma unidade têm estórias para contar, porque no dia a dia lhes acontecem as mais variadas peripécias, aos operadores de cripto nada digno de uma crónica de guerra pode acontecer.

Mas os criptos do 2878 eram diferentes. A vida deles dava uma estória, não por serem alentejanos, mas pela simplicidade dos seus procedimentos, quer como militares quer como cidadãos de um mundo que nada tinha a ver com os interesses que estavam a defender numa guerra que não era a deles.

O Gerónimo, técnico da EPAC em Vendas Novas, tinha uma compostura que só era afectada depois de uma boa almoçarada à alentejana, como a que tivemos no dia 6 de Setembro de 1970, na Pastelaria Luso.

Exemplar, como tantos outros no desempenho das suas obrigações militares, Gerónimo era aquilo que se pode ter como exemplo de camaradagem.

Fora do Centro Cripto, Gerónimo fazia por amigos todos os que com ele contactavam sem perder a personalidade. Bom contador de estórias e se sentido de humor apurado, fazia boa parelha com o Talaia, seu camarada de incorporação.

O Talaia era completamente diferente mas igualmente acarinhado por todos e sabia ser amigo do seu amigo.

Nas horas difíceis lá estava, sempre com um sorriso por muito complicada que fosse a situação.

Curiosamente, a maior parte dos operadores de cripto do Batalhão tinham que pernoitar na unidade pelo que não lhes era possível alinhar nas grandes noitadas que fazíamos na cidade. Tinham, contudo, a possibilidade de telefonar para o quartel para os virem buscar, sempre que queriam regressar.

Devo-lhes, assim como a maior parte dos criptos do ComZML, o termos sido convidados pelo major Rosa Ferreira, a ir comemorar a passagem do ano de 70/71 no Batalhão, mas disso falaremos noutra altura.


Gerónimo e Carlos Martins. Eu, em baixo, no almoço à alentejana, na Pastelaria Luso, a 6 de Setembro de 1970


Talaia e eu em frente ao Comando Distrital da PSP


Mário Fonseca, Talaia, Francisco Duro e eu, todos op.cripto

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:34 AM | Comentários (0)

março 29, 2004

Um toureiro no Luso

Amadeu Verdasca Reis foi operador de cripto no ComZML e era, tal como outros, uma figura carismática entre os militares.
Muitos são os episódios que poderão ser descritos tal a forma participativa com que vivia o dia a dia no pouco tempo que esteve no Leste de Angola, donde saiu, em finais de 1970, evacuado por doença, que nunca soube qual era.
O Amadeu dizia-se toureiro.

As coisas da tauromaquia nunca me passaram muito distantes mas, confesso, aquele nome nunca me foi familiar. Digamos que, para que se tenha como verdade a versão do nosso camarada de armas, que seria “novilheiro”.

Fosse ou não verdade, o mal não vinha ao mundo por causa disso.

Todos recordamos os momentos que passámos nas margens do Rio Luena.
Em dias de folga a malta ia até ao rio apanhar um “bocado” de sol e dar uns mergulhos, onde a profundidade permitia, e nadar, mesmo tendo em atenção a grande corrente que a água ali tinha.

Gosto de tauromaquia. Sei o que é um afarolado, um passe de cabeça a rabo ou uma boa pega de caras. No toureio a cavalo tenho a noção do que é um ferro a sesgo e o que é levar o touro na garupa. E isto dava-me para, com a toalha de praia, desafiar o Amadeu a, comigo ensaiar uns passes como se estivéssemos perante uma tourina ou um novilho. O Verdasca Reis acompanhava-me. Correspondia ao meu desafio. Enfim, eu conseguia levá-lo para onde queria.

Depois de fazer os primeiros passes passava a “faena” ao Amadeu que, como cabeça de cartaz, se exibia e quando a “aficion” estava no auge, a malta mandava-lhe “flores” que, porque não tínhamos florista à mão, optávamos por fazer umas bolas de lama e ervas e enquanto se gritavam uns “olés” dizíamos-lhe: “Toma lá flores”.

Por incrível que pareça, esta cena repetia-se vezes sem fim. Sempre que o grupo ia a banhos. A malta não se cansava de ver o Amadeu Verdasca Reis a “trourear”. Certamente que nem todos ficaram a gostar de touradas, mas pelos menos ficaram, os que se deslocavam às margens do Luena nos dias de “corrida”, a saber como é que se mandam “flores” a um toureiro.

Fotos: Não tenho fotos onde esteja o Amadeu Verdasca Reis, mas recomendo que vejam o “post” “Rio Luena” que o Luís Cruz aqui colocou ontem. São imagens que nos ajudam a matar saudades dos bons momentos que ali passámos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:52 AM | Comentários (3)

março 28, 2004

Olhar para as osgas

A estada em África teve, para todos os militares, como certamente para aqueles que o não eram, momentos bons e outros que nem tanto. O afastamento da família e dos amigos com quem estávamos habituados a conviver atiravam-nos para momentos de reflexão e davam-nos uma capacidade de observação e de contemplação que não são muito naturais em jovens com pouco mais de vinte anos de idade.

Ao longo dos vinte e um meses que passei em Angola dei por mim, várias vezes, a olhar o movimento das osgas, animais com quem tinha alguma familiaridade porque, enquanto criança tinha na quinta onde fora criado, um grande poço cuja água apenas servia para rega, onde estes repteis eram atracção.

No Luso, deitado na minha cama, em pleno dia, via as osgas no canto oposto, lá bem perto do tecto, na caça dos insectos, que ali seriam poucos, mas que estes predadores sempre evitavam que fossem mais.

Em Portugal, ainda hoje, se vemos um bicho destes apressamo-nos logo a ir buscar uma vassoura, ou outro instrumento do género, para o matar.
No Luso, eram-nos familiares, talvez por terem um aspecto menos repelente, mas certamente por sabermos que nos eram úteis na caça aos mosquitos e moscas que, segundo me recordo, não eram muitos naquela região de Angola. O facto de não haver por ali muito calor deve servir como explicação para que os mosquitos não nos atacassem.

Mas se em minha casa me entretinha a olhar para as osgas também na esplanada do Café Pic-Nic, porque era interior, abrigada de ventos, nos entretínhamos a olhar para as osgas quando estas andavam de volta das lâmpadas florescentes para caçarem os insectos.

Quantas conversas terão ficado sem a atenção devida porque nos distraíamos a olhar para o ar a ver as suas manobra de caçadoras. E que boas conversas tivemos naquela esplanada. Recordo-me de, entre muitos outros, do Fernando Curval, op.cripto do ComZML e do Júlio Murraças, furriel responsável pela alimentação de uma das companhias sediadas a uns bons quilómetros do Luso e que, por isso mesmo, de vez em quando ali passava uns tempos.


Na esplanada do Pic-Nic, em 30 de Setembro de 1970

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:49 AM | Comentários (3)

março 27, 2004

Uma aventura de 3 kms

O Luís Cruz e o Serra aproveitaram uns dias de férias que a tropa lhes concedeu e foram a Luanda com o José Afonso quando este civil do Luso quis comprar um BMW. A odisseia está bem relatada pelo Luís que nos conseguiu transmitir a dimensão, as emoções e as dificuldades que sentiram no regresso ao Leste, porque o fizeram por sua conta e risco.

Os 1.200 quilómetros que separam a capital de Angola da sede do distrito do Moxico, numa boa parte percorridos em picada, sem quaisquer pontos de apoio logístico, foram uma aventura que as várias centenas de milhares de militares que ali cumpriram a sua missão não arriscariam empreender como estes três aventureiros fizeram.

Nos vinte e um meses em que estive no Luso optei por nunca dali sair, nem mesmo para passar férias. Os amigos estavam ali e o ir de férias para Nova Lisboa, Benguela ou Luanda, era estar a arriscar passar um mês de licença com a preocupação de arranjar novas companhias e a afastar-me duma família que já estava constituída por aqueles que eu tinha escolhido, e falo dos militares e dos muitos civis que connosco conviviam.

Para se ficar com uma ideia do risco que os três aventureiros correram, refiro um episódio que vivi com o furriel Martins, da Polícia Militar, na bela manhã dia 2 de Maio de 1971.

Aprendi a andar de bicicleta aos seis anos de idade e sempre gostei de dar grandes passeios neste que é o “único meio de transporte de tracção animal em que a besta puxa sentada”. Gosto muito da modalidade - sou um dos fundadores da Associação de Ciclismo do Distrito de Setúbal, de que fui secretário da Direcção e presidente da Assembleia Geral – mas nunca fui corredor de bicicleta. Participei, durante oito anos, na Volta a Portugal, na organização do Gabinete de Imprensa, isto já depois de ter deixado África.

Isto para dizer que, no Luso, como noutro lugar qualquer, sempre que tenho uma bicicleta, dou uma volta. Foi o que fiz com o Martins. Cansados de dar voltas pela cidade, fomos andando para os lados do Ferrovia e aventurámo-nos pela estrada de Henrique Carvalho, hoje (tal já como naquele tempo) Saurimo, mas não conseguimos ir muito longe. O nosso objectivo era chegar ao Lumege, a sete quilómetros do Luena, mas não tivemos sorte.

A coluna militar que escoltava os civis vindos de Henrique Carvalho estava a chegar ao Luso e assim que nos avistaram deram-nos ordem para voltarmos para trás e não tivemos outra alternativa que não fosse obedecer.


Furriel Martins e eu, nas traseiras do Ferrovia


Km 3 da estrada para Henrique Carvalho, o ponto máximo da nossa aventura

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 03:27 PM | Comentários (0)

março 26, 2004

Fados no Pica-Pau

Nos quarenta e um meses que cumpri de serviço militar deu-me, tal como à grande maioria dos camaradas, para fazer muitas coisas e Angola foi uma boa escola. Ali aprendi a revelar fotografias, chegando mesmo a comprar um laboratório e a fazer as fotos da malta amiga, mas também acompanhei fado à viola, num “cabaré refilão” que abriu no Luso e que se chamava «Pica-Pau».

As “receitas” como fotografo não eram grande coisa porque os preços estavam muito abaixo dos praticados na casa da especialidade que havia no Luso, mas, mesmo assim conseguia fazer alguns gastos que outros que ganhavam o mesmo que eu não tinham possibilidade de igualar “por insuficiência de tesouraria”.

A vida de boémio naquela cidade era cara e não estava à mão dos “sargentos e praças” mas um grupo de “artistas” passou a ter acesso à “vida” nocturna quando lhe foi reconhecida a capacidade para tocar guitarra e viola e como fadistas.

Como guitarristas tínhamos o Ezequiel Rodrigues, operador de cripto do ComZML, e o Vitor Rego, cabo especialista da FA. À viola actuavam o Nelson, cabo da 24ª de Comandos e eu, que não sabia o que é um instrumento musical, se bem que tenha estudado música nos tempos de Liceu.

Com algumas lições do Ezequiel e do Nelson, aprendi as principais posições na viola e quando à noite estávamos a actuar, o guitarrista dizia-me “dó” ou “ré” e eu, com o esforço natural de quem não percebe nada do assunto, lá ia dedilhando as cordas e os sons saíam.

O “caché” era aceitável para a época e atendendo ao facto de sermos jovens e militares e baseava-se no princípio de que os “artistas” não pagavam nada do que consumiam.

E para que se percebam os valores praticados naquele “bar americano”, como era definido em termos de licenciamento, pois tinha umas jovens do continente a servirem às mesas, deve dizer-se que uma garrafa de whisky novo, na mesa, custava mil escudos, enquanto que a mesma garrafa era comprada na cantina das unidades militares, pelos sargentos ou oficiais a sessenta escudos.


Sempre pensei em aprender viola para tocar fado de Coimbra, mas nunca fui além do «picharrilho»...

Aproveitava os momentos de sossego em casa para "ensaiar"

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 04:58 PM | Comentários (0)

março 25, 2004

Cine-Teatro Luena

O Cine-Teatro Luena era local frequentado por todos os que passavam pelo Luso. Ali representou Paulo Renato, em 1970, quando uma das suas peças andou em digressão por Angola.
Não havia na cidade grande clivagem entre civis e militares e isso era notório nas noites de cinema.

As famílias e os militares, alguns com as esposas, encontravam-se no acanhado átrio da sala de espectáculos e nos dois intervalos aproveitavam para dar um pequeno passeio pela avenida fronteiriça, a Avenida António José de Almeida, enquanto fumavam.

A reentrada na sala era franqueada com uma pequena senha de cartolina de cor diferente conforme o dia da semana, que tinha sido distribuída à saída, mas havia truques para entrar sem pagar.

Era assim. Até ao primeiro intervalo eram projectados o “jornal de actualidades” e um documentário. Nós, nesse período, íamos ver os “quadros” que anunciavam o filme e porque na bilheteira havia a planta da sala onde a funcionária dava baixa dos lugares que iam sendo vendidos, dávamos uma olhadela para ficarmos com uma ideia de quais estavam livres.

Como éramos já conhecidos dos porteiros, por sermos frequentadores assíduos, não nos exigiam a senha de entrada e lá estávamos nós nas filas da frente como se estivéssemos no teatro. Quando o filme era muito bom, tínhamos que nos munir do respectivo bilhete, porque nesse dia não havia lugares vagos.

Numa das noites quando eu entrava na sala, já com o filme “Jogo Perverso” a rodar, Antony Quin, apareceu em grande plano e disse “good afternoon”, ao que respondi: “môio”. A risada foi geral e no intervalo prolonguei a cena dizendo que estava preocupado porque não sabia que o artista me conhecia.

Numa das vezes em que tivemos que comprar bilhete, o nosso amigo Orlando, operador de cripto, natural de Almada, foi comprar os ingressos e disse para a senhora da bilheteira: “dois bilhetes para a segunda noite”. A funcionária emendou: “Primeira noite. É como se chama o filme”. Mas o Orlando não desarmava e ripostou: “Essa já conheço. Sou casado”.


Cine-Teatro Luena, em Maio de 1970


Trinta e três anos volvidos notam-se poucas diferenças. O átrio de entrada tem portas. O restaurante está fechado e a esplanada do café restaurante está emparedada. Foto captada em Junho de 2003, por sarg. Brum, do http://group.msm.com/OsLuenas

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:17 AM | Comentários (1)

março 24, 2004

Ler era “perigoso”

Muitas horas no Luso eram passadas nos cafés, a passear, a praticar desporto e a ler. A grande maioria dos militares que vivia na cidade tinha hábitos de leitura e não se perdia muito tempo a ler o jornal porque o “Província de Angola” só chegava ao Luso três vezes por semana, pois nem todos os dias havia avião para o seu transporte.

Num dos dias em que o ardina andava pela esplanada do Café Universo a oferecer a última edição, perguntei-lhe: -“o jornal é d’hoje?” e a resposta foi a que eu menos esperava. –“Não minino. Son dôs quinhento”.

Uma estória deste estilo ouvi-a mais tarde, contada num daqueles programas de divulgação da língua portuguesa, na de televisão em Portugal.

Na livraria que existia na rua do Universo, na esquina que dava para o Luso Hotel, adquiríamos revistas e livros com algum interesse, que os havia por aquelas bandas.

Uma das nossas predilectas era a “Seara Nova”, que orgulhosamente mantínhamos pendurada à cabeceira da cama, como se de um escaparate de jornais se tratasse.

Mas a leitura da “Seara Nova” não era pacífica. Um dia, o primeiro-sargento Azeitona Costa aconselhou-me a que não levasse a revista para dentro do Centro Cripto para não ter problemas com alguém que não partilhasse das mesmas ideias. Nunca tive como prática ceder a pressões, mas Azeitona Costa era realmente amigo dos criptos e entendi aquilo como um aviso e não mais exibi a capa da revista. E como em minha casa só entrava quem eu convidava, apesar da chave estar na parte de fora da porta, a leitura era feita nos momentos em que ali estava recolhido.

Na livraria do Leitão conseguíamos livros de Vladimir Ilitch Ulianov, que a nem toda a gente identificava como Lenine; de Karl Marx e outros. Algum tempo volvido disseram-nos que na livraria informavam a PIDE/DGS de quem comprava aquela literatura e passámos a adoptar outra forma de conseguir as obras sem que tivéssemos que as comprar.

Como a necessidade aguça o engenho e “a tropa manda desenrascar”, quando íamos à livraria levávamos sempre uma revistas ou uns cadernos que nos serviam para “proteger” os livros que queríamos ler...


No meu quarto, a ler. Na parede, à direita, duas revistas “Seara Nova”, vendo-se que a de cima tem Alves Redol, na capa


Em frente à Livraria, no Luso

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:55 AM | Comentários (0)

março 23, 2004

O álcool e as “luzes”

Não se poderá dizer que a vida dos militares no Luso fosse passada de copo na mão, mas havia alguns que faziam gala de mostrar que bebiam mais do que de facto conseguiam.

Depois do Fernando Curval ter sido levado para casa completamente embriagado, o Francisco Duro deixou a promessa de que o próximo a “encostar às boxes” seria eu e a oportunidade chegou numa bela noite em que fomos com o Fernando Diogo, natural do Lobito, condutor de Panhard dos “Dragões” do Ecav 403, para uma farra na “República do Saltimbancos”, que pertencia aos especialistas da Força Aérea, onde aparecia às vezes o Vitor Rego, um pegador de touros, vindo, de tempos a tempos, de Henrique Carvalho até ao Luena.

O Zorba, o tal que chegava ao restaurante e pedia doze cervejas, fez uma bela sangria, com vinho do Dão e um conjunto de boas garrafas que passavam pelo gin e pelo whisky, num alguidar, o que deu bebida para toda a gente.

Para se avaliar a capacidade do Fernando Diogo, pode dizer-se que chegou a beber, noutra altura, perto de setenta finos numa noite, mas também convém, a bem da verdade, que se diga que não acertou com a casa e foi dormir para o CFB.

O Francisco Duro, fraco de físico, não tinha a resistência que pensava ter e acabou armado em valentão com o PM que estava de serviço na porta do Luso Hotel e foi a custo que convenci aquele nosso amigo a não chamar a ronda para o levar para casa, ou, eventualmente, para o quartel junto ao Cine-Teatro Luena.

Recordo-me de, lá para as quatro da madrugada, ter dito para a Francisco Duro que saísse do meio da rua por causa de um carro que se aproximava, mas a bebedeira era de tal maneira mais forte do que o discernimento que apanhei como resposta: “Vejo muito bem o carro. São aquelas luzes além”.

Deve esclarecer-se que as luzes que o Duro estava a ver eram os dois lampiões que estavam no portão da casa do Governador de Distrito, situada na rua do Luso Hotel, lá bem ao fundo.

Lá arrastámos o meu conterrâneo até casa, o que não terá sido muito difícil, porque o caminho era curto, visto que morávamos perto do Universo.
Mais tarde o Fernando Diogo disse ao Duro: “Não tentes embebedar o Jorge”.


Francisco Duro e eu, frente à Casa Universal, que está atrás de mim. No mesmo passeio ficava o Luso Hotel


Eu, armado em sinaleiro no mesmo cruzamento mas fotografado do outro lado. Vê-se o letreiro da Casa Universal, que era agente da Volvo

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:28 AM | Comentários (0)

março 22, 2004

Intervenção política

A maior parte dos militares teve, na passagem pelo Luso, uma intervenção política, que se fazia sentir no mais pequeno pormenor e passava despercebida, como convinha, nas grandes acções.

Luís Cruz relata algumas das fintas com que tentou ludibriar os “censores” do seu programa «Impacto» no Rádio Clube do Moxico.

Os vigilantes do regime preocupavam-se muitas vezes com a forma porque não tinham capacidade para segurar o conteúdo. Isto para dizer que os autoritários senhores não estavam de acordo com o nome de um programa mas deixavam passar mensagens que eram bem recebidas pelos destinatários, fossem eles civis ou militares.

Quantas vezes o Rádio Clube do Moxico passou «O menino do Bairro Negro» e “Os Vampiros» de Zeca Afonso? E a mensagem estava lá: “Bairro Negro, onde não há pão não há sossego”, ou “Eles comem tudo, Eles comem tudo”.

Em certa altura chegou ao Luso o furriel Albuquerque - natural do Barreiro e que tinha feito o Liceu comigo, em Setúbal, onde já tínhamos, em 1963, ensaiado algumas tentativas de agitação pela poesia e pela representação teatral – que me convidou a participar numas acções culturais a apresentar na BTR, onde tinha sido integrado. Os primeiros textos foram logo reprovados porque resolvemos falar de Ary dos Santos e de Adriano Correia de Oliveira.

Mas se a intervenção escrita não passava havia que encontrar outras formas de chegar aos militares, principalmente aos que chegavam ao Luso ou ali passavam pelo menos uma noite. O “comacove” chegava à estação do CFB ao fim da tarde e só seguia viagem a caminho de Teixeira de Sousa na madrugada do dia seguinte.

Muitas vezes a malta que chegava manifestava alguma “alegria” principalmente depois de ingerir uns finos e era nessa altura que aproveitávamos para intervir fazendo-lhes ver que participar numa guerra que nada lhes dizia não era motivo para se sentirem felizes. E a nossa luta política acabou por ser coroada de sucesso, não durante a nossa passagem por aquelas terras, mas sim com o 25 de Abril.


Eu com o furriel Albuquerque, no jardim Oliveira Salazar

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:29 AM | Comentários (0)

março 21, 2004

Cola-cola como bronzeador

Os primeiros dias no Luso foram, como se compreenderá, ricos em experiências. E os primeiros tempos dos “maçaricos” eram os de despedida dos “velhos” que se preparavam para regressar a Portugal.

Quando em Março de 1970 chegámos ao Centro Cripto do Comando da Zona Militar Leste, o Simões e o Fareleira começaram a fazer contas à vida e a arrumar as suas coisas para rumarem até Viseu e foram eles os nossos grandes cicerones quer nas questões relacionadas com as tarefas militares, quer no dia a dia na cidade.

Estávamos de serviço um dia e folgávamos dois dias seguidos e assim sucessivamente. Para o Simões, mais preocupado com as questões da imagem, não se justificava muito regressar a Portugal, ao fim de mais de dois anos, e aparecer à família e aos amigos com a pele muito branca como se tivesse estado no Pólo Norte. E havia que aproveitar os últimos dias para passar as manhãs no rio para apanhar um pouco de cor.

Como não havia bronzeadores, o Simões pensava resolver a situação com coca-cola, pois estava convencido de que o refrigerante, aplicado na pele e com a acção do Sol teria particularidades pigmentárias.

E lá íamos de toalha debaixo do braço e garrafa de coca-cola na mão a caminho do Luena atravessando os quimbos e cumprimentando os velhos nativos com o tradicional “môio” e recebendo delicadamente como resposta “bundia”.

Na margem do rio, nas poucas zonas de areia que tinha, ou na erva rasteira, estendíamos a toalha e deliciávamo-nos com o Sol, já que a pouca profundidade das águas não dava para grandes banhos.

Chegava a altura de o Simões me pedir para lhe espalhar coca-cola nas costas e aí entrava a malandrice do “maçarico” fazendo a partida ao “velhinho” e em vez de fazer o que ele me pedira, molhava a mão no rio, deixando-o convencido de que lhe aplicava o precioso líquido americano nas costas.

Enquanto isto, ia bebendo pela garrafa valendo-me que os outros camaradas se iam aguentando à bronca sem me denunciar. Ainda hoje o Simões, de quem nunca mais tive notícias, deve estar convicto de que chegou a Portugal bronzeado graças a um produto que estava proibido no nosso “puto”, por decisão de Salazar.


Antigo dique do rio Luena

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:39 AM | Comentários (2)

março 20, 2004

Bêbado com dois “finos”

A malta era jovem - eu era dos mais velhos, pois quando embarquei já tinha feito os 23 anos de idade - e comia bem e bebia melhor.
Não sei se por levarmos a vida nos cafés, porque só íamos ao Comando da Zona de três em três dias, os Op.Cripto, tinham como passatempo comer e beber.

Como em tudo na vida, as pessoas não são todas iguais. É um dos aliciantes que nos dá gosto de andarmos ao cimo da terra.

O Fernando Manuel Vieira Curval distinguia-se pela sua postura intelectual acima da média e também por, nunca virando as costas aos amigos, gostar de estar em grupo. Só que, quando tocava a beber ficava-se pelo caminho e ao segundo fino ficava a fazer versos à Lua.

Como ele próprio dizia, as bebedeiras ficavam-lhe baratas porque ao segundo copo estava alegre.

Na mesma casa vivia eu, o Francisco Duro e o Curval.
Uma noite, estava eu já deitado porque no dia seguinte esperava-me o serviço no CCP do ComZML, trouxeram o Curval perdido de bêbado e só tiveram trabalho de o ajudar a “aterrar” na cama e ali ficou, impávido e sereno, pois certamente teria bebido mais do que dois copos.

Porque nunca me embebedei e porque antes de ir para Angola dava uma ajuda numa taberna que meu pai tinha herdado de meu avô e aí tive oportunidade de lidar com gente que bebia muitos litros de álcool, limitei-me a mostrar desacordo por terem permitido que o meu amigo tivesse chegado àquele estado e apanhei como resposta do nosso “condónimo” Francisco Duro. “O próximo és tu” e retorqui: -“fico a aguardar”.

No dia seguinte o Curval estava com uma ressaca que não se reconhecia. Envergonhado e mal disposto, prometia a ele próprio não voltar a fazer tal figura e cumpriu.

Daí a algum tempo arranjou um quarto só para ele e embora o isolamento lhe custasse, como me chegou a confessar, não mais se viu metido naquelas confusões.

Chegámos a fazer alguns serões no restaurante Universo em que se ficava pelo segundo fino, não porque tivesse a preocupação de não gastar dinheiro mas porque ficava naquele limite entre a poesia e a boa disposição. Aquele ponto onde o intelectual tem humor. Onde o verso combina com o poema. Onde o Homem se desinibe sem perder a lucidez.


Fernando Curval servindo Gerónimo, do Bcaç 2878, eu, em primeiro plano e o Francisco Duro, à direita, todos op.cripto, num almoço à alentejana, na pastelaria Luso, no dia 6 de Setembro de 1970

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:00 AM | Comentários (0)

março 19, 2004

Furriel Rama Ferreira

Mandam as regras da boa educação que não se deve revelar a idade de uma senhora. Está convencionado e aceite. Mas a “senhora” que está sorridente no carrinho de bébé tem a bonita idade de Cristo. Completou 33 anos de idade no ano passado e vai perdoar-me por esta devassa do seu registo de nascimento, se bem que incompleto, como é evidente.

O nome da senhora não me recordo, porque a foto foi captada em Dezembro de 1970 em casa de um dos furriéis que, tal como nós ofereceram dois preciosos anos da sua juventude a uma guerra que nada lhes dizia.

Isto para dizer que o baboso pai que perde a pose para a posteridade em troca das atenções com a sua linda menina, é o furriel miliciano Rama Ferreira, que trabalhava sob o comando do alferes Serra, no Centro de Mensagens, do ComZML.

Acerca do Rama Ferreira não haverá muitas estórias e isso deve-se a uma verdade que ninguém contestará.

Ele era para todos os seus subordinados do Centro de Mensagens, e por arrastamento, porque trabalhávamos também sob o comando do alferes Serra, um verdadeiro camarada para quem o posto que ocupava não era impeditivo de conviver com os amigos, se bem que as normas impostas pelo regime (militar) o impedissem.

Das muitas petiscadas que os operadores de cripto e os operadores de mensagens tinham, o Rama Ferreira participou nalgumas e era um compincha que alegrava um serão com o seu bom humor. A vida de casado travava, também nas circunstâncias em que vivíamos, que o militar andasse na borga com os seus amigos. Ninguém contestava pois como ensinou Karl Marx “a igualdade não é justiça”. Isto para explicar que ninguém ficava contra o facto de os militares casados não alinharem nas patuscadas... porque, independentemente de outras opiniões mais válidas, havia naquelas circunstâncias, duas formas de ser feliz. Ou se comia e bebia convivendo com os amigos, ou se estava no recato do lar.

E estas “regras” estavam aceites por todos. Pelos casados que tinham as esposas na sua companhia. Pelos casados cujas esposas tinham ficado em Portugal. E pelos solteiros.

A foto ajuda-nos a trazer à memória estes episódios, suportados com mais ou menos sacrifícios por uns e por outros.

Rama Ferreira, que reside em Coimbra, tinha a esposa no Luso. José Luís Silva tinha deixado a esposa e a filha em Coimbra e eu era solteiro.


Furriel Rama Ferreira e os Op.Cripto José Luís e Jorge Santos

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:07 AM | Comentários (1)

março 18, 2004

Homenagem ao Manuel Campos

Uma bela noite estávamos no Universo, e já se terá percebido que aquele café-restaurante funcionava quase como nossa segunda casa, tantas as horas que ali passávamos, e um civil, que eu tinha a ideia de conhecer de vista, ficou a conviver connosco, tratando-nos pelo nosso nome, porque conhecia toada a gente.

Em determinada altura começou a arremedar algumas figuras castiças de Setúbal, entre elas um ou outro homossexual, a que o Francisco Duro não achou a mínima graça, pois estava a pensar que o «panasca» se estava a fazer com ele.

Quanto mais o Duro se inquietava, maior era a encenação do setubalense Manuel Campos, que vivia no Cachipoque e que de vez em quando ia ao Luso, quer para conviver com a malta quer para tratar de assuntos que só ele conhecia e que nunca se abriu com pormenores.

Uma dessas noites bem vividas e bebidas, o Manuel Campos, que já não está entre nós, porque as muitas bebedeiras lhe arruinaram o fígado, foi dormir a nossa casa porque não tinha onde pernoitar no Luso.

Não tínhamos camas que dessem para mais um e a opção foi ceder-lhe a minha e dar uma volta pelos bares que estavam abertos. Quando ao alvorecer cheguei a casa já o Manuel Campos, no seu estilo de nunca se saber ao que andava e o que fazia, tinha batido em retirada.

Ao fim de todos estes anos, quando como alheira, me lembro do meu conterrâneo Manuel Campos. Tínhamos combinado almoçar no Universo e chegámos a fazer o pedido ao Alberto. Duas alheiras e, antes do empregado nos trazer a comida para a mesa, o meu companheiro de refeição, que viu algo que nunca cheguei a saber do que se tratava, me disse: “já venho”.

Semanas volvidas apareceu sem dar explicação. Como a curiosidade matou o gato, e a discrição sempre me caracterizou, nunca perguntei o porquê de tal acto. O Manuel Campos tinha estatuto para tudo.

Tinha cumprido a comissão em Angola e, porque a sua vida em Setúbal estava ligada à Lota do peixe, actividade que tinha poucas perspectivas de sucesso, regressou para ser padeiro em Moçamedes, onde as coisas não terão corrido como esperava e optou por ser segurança do CFB.

Quando nos deixou, há cerca de dez anos, era telefonista na Câmara Municipal de Setúbal.


A foto foi captada a 15 de Maio de 1971, no dia dos anos do Manuel Campos (de camisola às riscas), no restaurante Universo. Da esquerda para a direita: Etelvino Damásio, mecânico da 24ª de Comandos; Zéca Curto, furriel da PM; Jorge Santos; Manuel Campos e António Ribeiro, furriel enfermeiro, de Henrique Carvalho, que se deslocava com regularidade ao Luso. Todos de Setúbal.

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março 17, 2004

Futebol de Salão

O futebol de salão era uma modalidade muito acarinhada em Angola. O Luso não fugia à regra e eram vulgares os torneios, quer no polidesportivo do Jardim Oliveira Salazar, onde as garotas, de que me recordo da filha do sapateiro, que morava ali em frente, à tarde jogavam basquetebol. Outro campo onde se jogava futebol de salão era o Ferrovia, um pouco mais distante, mas com outras condições para os adeptos.

Confesso que não gostava de futebol de salão, se bem que a modalidade fosse muito divulgada na cidade que me viu nascer. Recordo que o famoso Vítor Baptista, «o maior» de quem eu era amigo e a quem tive oportunidade de fazer, para a Revista «Mundial», uma das últimas entrevistas que concedeu antes de falecer.

Entretanto, porque tínhamos jogado andebol em Setúbal, eu e o Francisco Duro, no Vitória de Setúbal, e o Marques, que era condutor da PM, no Clube Naval Setubalense, pensámos em fazer um torneio desta modalidade, mas as coisas não resultaram e depois, porque precisavam de um guarda-redes para o futebol de salão insistiram comigo e acabei por ceder, na condição de fazer um único jogo.

As coisas terão saído bem e não mais consegui arranjar argumentos para convencer os meus camaradas Op.Cripto de que não gostava daquilo.

As exibições foram-se sucedendo e acabei por ser o guarda-redes menos batido na primeira fase do torneio, antes de se entrar nas eliminatórias.

Mas nesse torneio houve algumas complicações, que passaram pela cor dos equipamentos e pelo nome da equipa a que queríamos chamar de “clube”.
Pretendemos colocar nas camisolas as iniciais de Clube do Centro Cripto, só que Centro Cripto, só por si se designava por CCP e ainda havia a palavra Centro. Claro que não tivemos sorte, porque se percebia que estávamos a querer fazer alusão à URSS, que em cirílico se escreve CCCP.

A cor dos equipamentos também não recebeu o consentimento do alferes Serra, nem do 1.º sarg. Azeitona Costa, que, embora partilhassem dos nossos ideais políticos nos travaram na acção e acabámos por envergar calção e camisola preto e meias vermelhas.


Esta foto foi captada a 26 de Março de 1971, no campo do Ferrovia e da história do jogo ficou o resultado: Criptos da ZML,1-C.Const. 2678, 2.
DE PÉ: Alferes Serra, Carvalho, Laranginha Martinho, Jorge Santos, J. Moreira de Sá, 1º sarg. Azeitona Costa. EM BAIXO: Mário Fonseca, Francisco Duro, Zé Luís e Cabrita Lopes.

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março 16, 2004

As “compras”

Dissemos que várias coisas que tínhamos em casa eram “adquiridas” nos restaurantes e o método era simples. Entrávamos no restaurante, normalmente o Universo, porque o caminho para levar as coisas para casa era o mais curto. Tudo se passava-se assim: Sentávamo-nos e, num ápice, antes que o Alberto, era assim que se chamava o empregado, chegasse para receber o pedido, a toalha era enrolada e entrava para baixo da camisola de um de nós. De imediato havia a cena, que deixava o funcionário sem resposta: - “Então esta mesa não merece toalha?”

O empregado deveria pensar lá para com os seus botões; “estes gajos devem ser parvos, ocupam a única mesa que não tinha toalha”.

Ultrapassada a “compra” da toalha, tudo se passava como se nada tivesse acontecido.
A malta gostava do bife com todos. Custava vinte e cinco escudos. Era um espectáculo. Um bom bife, batatas fritas, ovo, e muitos picles.

Enquanto a refeição não chegava, eu, falo por mim, porque o Zorba, bebia o dobro, marchavam duas cervejas e durante a refeição seguiam mais quatro. Era assim ao almoço, igual dose ao jantar e, à ceia, por volta da meia noite, a coisa não era diferente.
Se a cena da toalha de mesa dava trabalho e necessitava alguma destreza, a “compra” de pratos não era fácil.

A mais espectacular aconteceu com o Fernando Curval a transportar dois pratos rasos nas calças. Um ligeiro desapertar do cinto para que os objectos tivessem acesso à região do traseiro e eis que vão caminho de casa.

Do mesmo autor é o feito de tomar posse de uma cafeteira de levar a água quente, que estava sobre o balcão, com o pequeno pormenor de a mesma ter acabado de servir, o que quer dizer que o rapaz se começou a sentir húmido ao nível da barriga, com o blusão de tecido fino a denunciar o crime.

Muitos copos de imperial carreguei eu para casa porque o João, era o nativo que arrumava a casa, metia um copo no outro e o material, como é natural, não resistia.
Cheguei a sair do café com três copos na mão, como fazem os empregados quando levantam a mesa.

As “compras” eram de tal maneira úteis que quando chegou ao Luso a esposa do Orlando ofereci-lhe três exemplares de pratos rasos, de sopa, talheres, copos e uma travessa. Eles eram dois mas eu não queria correr o risco de me convidarem e não terem prato para mim. Mas aconteceu pior ainda. Nunca me convidaram...


Almoço às quarto da tarde, no Esplanada-Bar, no dia 1 de Janeiro de 1971. Toninho, condutor da 25ª de Comandos, eu e o Duro, todos de Setúbal e o Orlando, de Almada

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março 15, 2004

Como se “adquiriam” as cadeiras

As casas onde viviam os militares eram, por todas as razões e mais uma, forçosamente modestas. Os vencimentos não dariam para grandes luxos e sabíamos que ali iríamos estar apenas dois anos. Apostávamos numa cama cómoda, mas sem luxo e numa pequena mesa de cabeceira onde se colocava a fotografia da namorada.

As camas, na maior parte dos casos faziam de sofá quando se aproveitava para uns momentos de leitura, ou de isolamento quando se escrevia uma carta à namorada ou um aerograma para a restante família e amigos.

Nalguns casos tínhamos cadeiras, normalmente “adquiridas” nas esplanadas que aos poucos iam ficando com menos capacidade para receber os clientes.

Foi o que aconteceu quando o Toni e o Joaquim Sá, operadores de cripto da 25ª Companhia de Comandos, rebocaram pelas ruas da cidade duas cadeiras e uma mesa de ferro, que estavam em frente ao Hotel Continental, ao lado do Café Universo.

O piso dos passeios era de mosaicos com uns sulcos que, ao arrastarmos por ali as peças de mobiliário metálico “adquiridas” faziam um barulho capaz de despertar o mais pesado dos sonos.

Havia ainda como agravante o facto de se ter de passar pela frente da esquadra da PSP, que ficava dois ou três quarteirões abaixo da Aerangol, mas isso não era obstáculo para o nosso amigo Toni, que já tinha umas boas cervejas bebidas e isso fazia com que nem sequer ouvisse qualquer ruído.
E lá fomos, impávidos e calmos, rua abaixo e o certo é que ninguém nos incomodou.

Também em minha casa algumas cadeiras foram “adquiridas” pelo mesmo sistema e até as toalhas de mesa, os pratos, copos, travessas e talheres “saltavam” do restaurante Universo, porque ficava ali perto, para nossa propriedade.


Eu, o Sá e o Toni, numa pausa no treino de futebol de salão, em Janeiro de 1971


Na esplanada do Hotel Hotel Continental. Ao fundo o Café Universo e o Banco

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 09:11 PM | Comentários (4)

março 14, 2004

À procura de casa

Depois de instalados numa caserna no ComZML, começámos a preocupar-nos em tratar para que nos fosse concedido o desarranchamento e a autorização para dormir fora das instalações militares.

Eu e o Francisco Duro, porque nos unia uma amizade adquirida por uma vivência desportiva na cidade de Setúbal e por termos estudado perto um do outro, ele na Escola Comercial e eu no Liceu, havia que arranjar condições para habitarmos a mesma casa. Convidámos o Fernando Manuel Vieira Curval, do meu curso em Leiria e Trafaria, para integrar aquela “comuna” e o objectivo foi conseguido.

Com a ajuda do nosso camarada Ezequiel Rodrigues, que compartilhava uma casa com um militar dos Dragões, que tocava bateria nos Conjunto Musical «Os Mikes», conseguimos saber que havia uma casa disponível num pátio em frente aos escritórios da Aerangol.

O sitio era central. A casa era ali bem perto do café/restaurante Universo e o senhorio era um senhor Dias, se a memória não me falha, que tinha um estabelecimento de mercearia, na esquina a seguir ao Banco Comercial Português, o tal que ficava ao lado do Universo.

Chegámos a acordo com o senhorio e quando nos deu a chave fomos ver a casa e, curiosamente esta ali ficou, na parte de fora da fechadura, pelo menos até ter deixado o Luso, vinte meses volvidos.

A vizinhança neste pátio, como em toda a cidade, era pacata. Na primeira casa uma família natural do Luso, de que tenho particular recordação da filha, uma jovem, tal como nós na altura, muito bonita e simpática e um deficiente e muito doente, que acabou por falecer pouco antes de eu regressar a Portugal. Logo a seguir viviam o Ezequiel Rodrigues e o seu bateria dos Mike. A casa do meio era ocupada por um pequeno grupo de telegrafistas do ComZML, de que apenas me lembro do nome do Leitão, a quem colocámos por cima da cama um letreiro que dizia “dorme que nem um porco”. Entre esta e a minha casa residia um polícia, bom homem, que apenas tinha como defeito ser casado com uma mulher que era mais má do que as pessoas más e de que falarei num destes dias.

Tratámos de mobilar o «apartamento» e fomos a uma casa ali para os lados do Pic Nic comprar três divãs, os respectivos colchões, mantas e lençóis e a indispensável almofada.

Mais tarde, com alguma habilidade engendrei uma mesa, mais de apoio à leitura e escrita do que para refeições, porque muitas vezes comíamos nos restaurantes. Um vidro sobre um velho motor de Berliet e duas cadeiras “adquiridas” numa esplanada, definiam a zona da sala.



Eu e o Francisco Duro no meu canto, em casa


Outro canto da casa

A sala de estar

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 08:32 PM | Comentários (5)

março 13, 2004

A noite no ComZML

O primeiro contacto com a cidade do Luso, aquela que iria ser a minha terra durante quase dois anos, foi agradável. A recepção foi simpática e os camaradas davam mostras de ser solidários e dispostos a ajudar-nos.

Depois do lanche na Cristália, havia que tratar do acomodamento que passaria a ser nos anexos do Comando, lá ao fundo, ao lado da cantina e da caserna dos motoristas. Ali estivemos aquartelados pouco mais de uma semana, até que saiu à Ordem o nosso desaranchamento e a autorização para pernoitar fora das instalações militares.


Lá ao canto, atrás do jeep, era onde ficámos a dormir. A segunda porta que se vê na foto era o Centro Cripto. Na foto estou eu, o Toni, o Cabrita Lopes e o Sá, todos Op.Cripto

As refeições eram tomadas, enquanto o nosso pedido não fosse deferido, no PAD (Pelotão de Apoio Directo), que ficava na Avenida António José de Almeida, quase ao pé do cinema Luena e da esquina com a PM.

Para se ficar com uma ideia do nível deste refeitório basta dizer que era conhecido entre os militares como “o Biafra”. A variedade da ementa era coisa que o sargento responsável pelo rancho não deveria conhecer o verdadeiro significado porque, durante uma semana, se comeu sempre a mesma uma sopa ao almoço e ao jantar. E quando alguém optou por fazer uma sopa diferente foi pior ainda, porque quase ninguém conseguiu comeu, por intragável. Simpaticamente pode dizer-se que tal aconteceu por não se estar habituado à nova sopa.

Quando eu, o Cabrita Lopes, o Francisco Duro, o Carlos Alberto Martins, que viajámos no Uíge, chegámos ao Luso, já lá estava o Zé Luís, que sendo mais novo em idade e tempo de tropa teve a sorte de embarcar no Pátria e chegar mais cedo. A mesma sorte não teve o Fernando Vieira Curval, que embarcou num navio da Armada, mas porque fez escala na Madeira e Açores, acabou por chegar depois de nós.

Ao entrar-se no Comando, pelos anexos, tínhamos logo a porta do gabinete do padre capelão, que Lobo Antunes refere no livro Cus de Judas. A porta ao lado era a entrada do Centro Cripto, uma pequena sala que tinha um armário, onde o primeiro-sargento Azeitona Costa guardava o economato, que fazia de guarda vento e protegia que o interior da sala fosse devassada de olhares. Ao longo de uma das paredes tinha uma bancada incrustada na parede, onde trabalhávamos. Numa das extremidades dessa mesma bancada o sargento mecânico de material cripto resolvia os problemas técnicos que algumas máquinas de cifrar e decifrar mensagens iam criando, de tanto que trabalhavam. Completavam o mobiliário, um armário onde guardávamos os processos e a secretária do Azeitona Costa.

O alferes Serra tinha local de trabalho na sala ao lado, o Centro de Mensagens, onde tinha lugar para uma secretária e onde havia uma extensão de telefone, o 14, que utilizávamos quando queríamos comunicar com as outras unidades aquarteladas em volta da cidade.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:08 AM | Comentários (2)

março 12, 2004

Primeiro dia no Luso

Depois de ter conhecido os camaradas que estavam de serviço no Centro Cripto do Comando Militar Leste (COMZML) e o alferes Serra, visto que o primeiro-sargento José Azeitona Costa tinha-nos esperado na estação do CFB, fomos fazer a entrega da mauser, já com a respectiva culatra no lugar e as quarenta e oito balas que tal como esta tinham feito toda a viagem no fundo do saco.

Com a entrega da mauser quando cheguei ao Luso não sabia eu que nunca mais haveria de pegar numa arma, mesmo estando numa das zonas mais operacionais de Angola, mas disso falaremos noutra altura.

Tudo isto aconteceu entre as dez da manhã e o meio dia, altura em que fomos almoçar a um restaurante, que nunca tive muito presente como se chamava, mas que ficava situado entre o Comando e a Avenida António José de Almeida - para os que não se lembram, aquela onde está a estação do CFB.

Desde o dia que cheguei ao Luso, o que aconteceu a 11 de Março de 1970, sempre tive a imagem, que ainda mantenho, de que tinha entrado no restaurante que ficaria num lado da rua, quando na realidade essa entrada estava, no outro. Ao longo dos vinte meses fui várias vezes a esse restaurante, não muitas, mas, curiosamente, trinta e quatro anos passados mantenho a mesma ilusão. Se a memória não me atraiçoa, subiam-se alguns degraus e a entrada para a sala era mais no interior do edifício. Creio que havia uma pensão no andar superior, que pertencia ao mesmo dono.

Imagem que guardo, correcta e perfeita, é a do lanche na pastelaria Cristália, na companhia de dois dos Operadores de Cripto que tinham acabado a comissão. Falo do Fareleira e do Simões, naturais de Viseu e de que nunca mais tive notícias.

Desta incursão pela sociedade luena tenho como recordação o facto de ter comido um bolo e bebido uma cerveja, hábito que ainda hoje conservo pois fiquei a gostar do contraste do doce com o amargo da bebida, e dos “velhinhos” militares me terem dito que nada tinha a pagar.

“Maçarico”, fiquei atento a todos os pormenores para não cometer qualquer erro que me trouxesse complicações, reparei que nenhum deles pagou o que eu havia consumido e disso lhes dei conta, ao que me disseram que ali era assim. E era...

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:05 AM | Comentários (1)

março 11, 2004

Polícia considera situação calma

(Luena, 11.Março.2004) - A quarta reunião dos delegados provinciais do Ministério do Interior e comandantes da Polícia Nacional de Angola na região Nordeste, encerrou esta quarta-feira, com um balanço positivo das actividades desenvolvidas de Maio do ano passado a Fevereiro último.

O comunicado final do evento, que teve a duração de dois dias, considera de "calma" a situação operativa nas quatro províncias (Malanje, Moxico, Lundas Norte e Sul), fruto do engajamento das forças da ordem pública e cooperação da população na prevenção e combate à criminalidade.

O aumento da fiscalização e controlo migratório na fronteira comum com as repúblicas da Zâmbia e Democrática do Congo, bem como nas estradas que ligam a região com outros pontos do país também contribuíram para esta calmia.

O delegado do Interior e comandante da Polícia Nacional da Lunda-Sul, sub-comissário Evaristo de Sousa Neves, disse à Angop que o Nordeste de Angola é potencial em recursos minerais, constituindo assim em chamariz de cidadãos nacionais e estrangeiros, para a obtenção de "lucro fácil".

Mas, segundo ele, no período em referência, houve uma diminuição significativa na circulação de estrangeiros ilegais, comercialização de viaturas roubadas noutros pontos de Angola e de gado bovino e caprino provenientes dos citados países vizinhos.

No capítulo migratório, os Serviços de Migração e Estrangeiros "SME", repatriaram 22.931 estrangeiros, dos quais, 22.658 do Congo Democrático e os restantes das Guiné Conacry e Bissau, assim como do Malí, Serra Leoa, Costa do Marfim, Senegal, Burkina Fasso e Tanzânia, que praticam comércio ilícito.

Por outro lado, os SME das quatros províncias do Nordeste de Angola, controlam cinco mil e 783 estrangeiros de diversas nacionalidades, sendo 5.124 refugiados e 566 residentes.

A reunião de balanço operativo decorreu sob o lema "à luz do programa de modernização e desenvolvimento da Polícia Nacional, aperfeiçoemos a táctica e técnicas de actuação para a cobertura policial em todos os domínios na região nordeste".

O território nordeste de Angola, possui uma superfície de 503.063 quilómetros quadrados e tem uma populaça estimada em dois milhões, 492 mil e 600 habitantes.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 08:13 PM | Comentários (0)

Chegada ao Luso

A noite no Munhango, terra onde nasceu Jonas Malheiro Savimbi, mas que nos ficou na memória por todos os motivos menos por ser a terra natal do líder da Unita, é recordada pelo que teve de mau. Mau, mas um mau relativo, porque muitos milhares de camaradas militares tiveram, ao longo da comissão, muitas noites muito piores.
A noite no Munhango fica-me na memória porque foi a que antecedeu o dia em que cheguei ao Luso, faz hoje, 11 de Março, precisamente 34 anos.


Marcos, condutor da PM, que vive em Setúbal onde nasceu, eu e o Ezequiel Rodrigues, Op.Cripto, que tocava viola nos Mike, em frente ao café/restaurante Universo

Se o Dondo e General Machado, locais de pernoita na odisseia de Luanda ao Luena, eram pequenas povoações, o Munhango era menos do que tudo. Não me lembro de ver casas, mas certamente haveria a estação do CFB e mais uma ou outra casa. Quanto a estabelecimentos comerciais onde se conseguisse tomar um café ou uma cerveja, também poderia haver, mas não tenho qualquer ideia de os ter visto.

Recordo-me, isso sim, de andar ali perto do comboio a fazer tempo para depois ir procurar qualquer lugar na carruagem onde dormir. Mas nestas, como em tantas outras situações da vida, quando tomamos uma decisão já outros se anteciparam e tomaram um lugar que poderia ser nosso.

Foi o que aconteceu quando entrei na carruagem. Os bancos estavam ocupados com outros militares que tinham decidido colocar o corpo em toda a sua extensão. Lugares onde dormir de pernas esticadas só debaixo do banco.

Foi o que fiz. Deitei-me debaixo de um banco com os braços a cumprirem a missão de travesseiro e a ignorar o pó que ali estava acumulado e que sempre tive a ideia de ter uma cor acastanhada. Esta sensação era transmitida mais pelo olfacto do que pelo que vira porque o breu da noite mantinha-me na ignorância.

Poderia, ao despertar, manhã bem cedo, ter tido a preocupação de verificar se tal correspondia ao que imaginara, mas nestas coisas mais vale manter-nos na ignorância...

O Mala iniciou a marcha. Quatro horas volvidas estaria a chegar ao Luso, onde muita gente esperava na estação. Claro que não nos esperavam a nós. O militar não tinha família. Era só militar e isso é tudo e suficiente. Mas recordo-me de ver o primeiro-sargento José Azeitona Costa, que faria o favor de ser nosso amigo enquanto teve por missão coadjuvar o Serra, que era alferes de Transmissões, tendo à sua responsabilidade o Centro Cripto e o Centro de Mensagens.

No CCP (Centro Cripto) recordo-me de ter na recepção o Ezequiel Rodrigues, o Simões e o Falagueira, estes dois de Viseu e o primeiro de Lisboa.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:22 AM | Comentários (3)

março 10, 2004

Dormir na terra de Savimbi

O terceiro dia de viagem a caminho do Luso tinha como aliciante o facto de termos deixado o machimbombo, em General Machado, e apanharmos o Mala que nos levaria, nesse dia, até ao Monhango, terra de Savimbi.


O «Mala» retratado por Sofia, do site dos Luenas

O Mala, como se chamava o comboio de estilo inglês, com muitas carruagens, ligava o Lobito, no litoral a Teixeira de Sousa, lá na fronteira com a Zâmbia, no Leste.

A população menos abastada - normalmente os nativos - e os militares viajavam na classe mais modesta, onde as pessoas se misturavam com as bagagens e algumas galinhas.

Os de mais posses e os militares com posto mais elevado acomodavam-se nas carruagens de primeira classe com bancos que se transformavam em cama e onde se pernoitava com o mínimo de comodidade.

A viagem de comboio é bonita, mas a grande maioria dos militares não se deliciava com o espectáculo que lhe era oferecido pela natureza, porque o medo que lhes tinham incutido impedia-os de se municiarem da tranquilidade suficiente para fazer apelo a toda a sensibilidade que lhes permitisse fruir a beleza da paisagem.

Umas vezes rápido, outras nem tanto, o Mala lá ia puxado por duas máquinas a vapor. Por vezes o percurso era recto. Noutros locais curva e contra curva permitiam que se ficasse com a espectacularidade do grande comprimento da composição ferroviária, constantemente “guiada” a uma centena de metros de distância, por uma pequena máquina a diesel, que mais parecia um cubo de chapa blindada, pintada de verde, com pequenas ranhuras donde espreitavam os seguranças do CFB (Caminho de Ferro de Benguela).

Esta máquina, designada por ATL, tinha a missão de intimidar qualquer pretensão de ataque desferido de bem perto do comboio e também de rebenta-minas na eventualidade de qualquer explosivo ter sido colocado nos carris.

Numa fase do percurso o Mala passava por entre morros bem altos e se até ali toda a gente viajava à janela ou nos patamares nas extremidades das carruagens, naquela zona eram raras as cabeças que se afoitavam a espreitar a paisagem que, diga-se, pouco ou nada tinha para ser apreciada.

Recordo-me de ver camaradas agarrados à espingarda, em posição para ripostar a qualquer ataque. Admito que tenha sido por inconsciência mas a minha mauser nunca saiu do local onde estavam as malas e a culatra permanecia no fundo do saco fazendo companhia às balas.

Ao fim da tarde, pouco antes do pôr-do-sol, o Mala parou no Munhango, onde pernoitámos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:20 AM | Comentários (3)

março 09, 2004

Polícia analisa situação operativa

(Luena, 9.Março.2004) - Delegações do Ministério do Interior e dos Comandos provinciais da Polícia da região nordeste de Angola estão reunidas desde esta terça-feira, no Luena, para analisar a situação operativa local.

Durante dois dias, os membros dos conselhos provinciais de Malange, Moxico e Lundas Norte e Sul vão igualmente reflectir sobre a imigração e emigração de estrangeiros na região nordeste do país.

Na sessão de abertura, o governador interino do Moxico, Domingos Máquina, defendeu a necessidade do combate a delinquência e a prevenção de acidentes de viação na região Conforme disse, estes assuntos constituem matéria de actuação da Polícia Nacional de Angola devem merecer maior atenção na reunião, para a definição de melhores métodos e soluções da corporação.

O evento, que está a ser orientado pelo delegado do Interior no Moxico, sub-comissário António de Jesus Guedes, decorre sob o lema "a luz do programa de modernização e desenvolvimento da Polícia Nacional, aperfeiçoemos as técnicas para cobertura policial".

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 05:09 PM | Comentários (2)

Uma noite em General Machado

A noite no Dondo não foi coisa fácil. Dormir sentado no banco do machimbombo, sem espaço para nos voltarmos nem para estender as pernas, deixa qualquer mortal sem vontade de querer seguir mais umas boas horas naquele transporte.

O despertar não terá sido difícil e havia que aproveitar os minutos que antecederam a partida para se dar umas passadas para estender as pernas e para fazer o xixizinho atrás da árvore.

Quilómetros e mais quilómetros, alguns dos quais a tentar dormir, por insuficiência de comodidade na noite anterior e porque a que se aproximava também não tinha melhores perspectivas, e lá chegámos, a meio da tarde, a General Machado, uma terra pequena, donde tenho a imagem perfeita do quartel que nos deu abrigo de tecto porque a cama, pelo menos a minha, foi um banco do refeitório, perto de um buraco que daria acesso à cozinha e donde vinha uma aragem incomodativa.

As malas e sacos de viagem foram guardados no tal quartel, no centro da povoação, mas tínhamos de andar de mauser às costas, porque arma e militar são unos.

E aqui aconteceu-me ter de dar um valente murraço num camarada - que na sua ingenuidade ou infantilidade só admissível porque não passávamos de uns rapazolas, no meu caso de 23 anos de idade, a que chamavam de combatentes – porque, ao armar-se em guerrilheiro, me apontou a espingarda à barriga e quando deu por ele estava virado para o outro lado, certamente a jurar a ele próprio não voltar a repetir a brincadeira com mais ninguém.

O resto do dia foi, como se deve calcular, “divertidíssimo” com algumas dezenas de tropas a deambularem pelas ruas, sem nada que fazer nem para onde ir, a aguardar que o sol se pusesse para, embrulhados na noite tentar dormir mais umas horas, a aguardar que chegasse a hora de, no dia seguinte, apanhar o Mala que nos levaria ao Luso.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:41 AM | Comentários (4)

março 08, 2004

Mulheres com o baixo nível de vida

(Lumbanguimbo, 8.Março.2004) - Fernando Mendes, responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados, no município dos Bundas, mostrou-se esta segunda-feira, preocupado com o baixo e difícil nível de vida da mulher naquela localidade.

Aquele oficial da ONU que falava à Angop, no acto de entrega de prémios às mulheres que se destacaram nos projectos assistidos pelo Acnhur, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, disse que o acesso à alimentação e assistência sanitária são as principais dificuldades das mulheres no município dos Bundas.
A cerimónia consistiu na inauguração de um centro de formação profissional das mulheres do município dos Bundas, e foi integrada nas comemorações do Dia Internacional da Mulher.

O centro, construído pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnhur) e equipado com trinta máquinas de costura, orçou em dezoito mil dólares norte-americanos, segundo o coordenador do projecto, Mateus Beraki.

Segundo ele, o centro, o primeiro do género na província do Moxico, albergará mais de 100 mulheres, numa primeira fase, que beneficiarão de formação nas áreas de corte e costura, culinária, artesanato e alfabetização.

A nível da província do Moxico, a sede municipal dos Bundas, Lumbalanguimbo, acolheu o acto provincial do Dia Internacional da Mulher orientado pela directora provincial da Família e Promoção da Mulher, Quintas Camiji Pinto.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:19 PM | Comentários (1)

De Luanda ao Dondo

No dia 8 de Março de 1970 era domingo. Chovia muito em Luanda.
Manhã bem cedo, ainda noite, saí da CMR 113 num jeep até ao local onde haveria de apanhar o machimbombo (seria a Mutamba?) que nos haveria de levar até à povoação de General Machado, na província do Huambo.

Do percurso pela cidade de Luanda retenho a imagem que sempre me faz lembrar uma viagem de barco, tal o rasto que a viatura deixava na água que cobria as ruas.

Luanda iria ficar para trás e a angústia pelo desconhecido apoderava-se de nós, pelo menos de mim, embora não se pudesse falar de medo, pois pensava que outros tinham passado por aquela experiência e nada de mal lhes tinha acontecido.

Do percurso nada há de extraordinário pois não passou de mais uma viagem de autocarro.

O almoço, à base de ração de combate, terá sido ingerido numa localidade de que não recordo o nome, mas que deveria ter restaurante porque o motorista não estava sujeito à escassez alimentar a que os militares se submetiam, quer por falta de dinheiro, quer por não saber por onde andava.

E porque em Angola não viajávamos depois do pôr-do-sol, o jantar e a pernoita aconteceram no Dondo. O resto da ração de combate, certamente reforçado com algo que vinha na bagagem, uma volta, curta, porque a povoação, uma estrada a que chamávamos de principal, com umas casas de um lado e do outro, não daria para grandes passeios e o ambiente era desconhecido.

A mauser estava no porta bagagens, aqueles por cima dos bancos, e as munições atavam dentro do saco de viagem, onde tinham sido colocadas na véspera.

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março 07, 2004

Preparativos da viagem para o Luso

Como nos diziam, “a cidade é Luanda e tudo o resto é mato”.
A semana que passámos na capital de Angola poderia ter servido de ambientação para os dois anos que tínhamos pela frente no Leste, mas tal não aconteceu, nem no que toca ao clima nem às vivências. Luanda era, de facto, diferente de tudo. Qual o militar que não se recorda dos cafés-cervejarias Versalhes, Portugália, da avenida marginal, da ilha, da Mutamba, da zona de Alvalade, onde estavam os quartéis CMR, Adidos e PM.

O clima em Luanda é, na época das chuvas ou do cacimbo, muito diferente do que iríamos apanhar no Luso. Enquanto em Luanda tínhamos que ingerir muitos líquidos, no Luso, tal não era tão necessário, porque não havia tanto calor, mas não quer dizer que não o hábito de beber não fosse exercido.

Para se ficar com uma ideia das temperaturas que caracterizam o Leste dizemos, como exemplo, que nestes dias a cidade do Luena regista 26º de temperatura máxima e 17º de mínima.

Recordo-me de que, na véspera de iniciar a viagem para o Leste, em conversa com um outro militar que também estava na CMR 113 a aguardar transporte para uma outra localidade, que não me disse qual era, mas constatei que o indivíduo viria a ser meu companheiro de viagem, o que me deixou muito surpreendido.

O meu interlocutor disse-me, quando soube que íamos para o Luso: - “Para o Luso? É uma zona muito perigosa, até põem minas à porta-de-armas dos quartéis”.
A estória foi contada com tanta convicção que, apesar de nunca ter tido a mania de chegar a herói, me deixou tranquilo, pois pensei para com os meus botões: - “Então os sentinelas estão a dormir nos postos? Não poderia ser verdade. Os nossos militares não poderiam ser tão distraídos ao ponto de se deixarem surpreender à porta de «casa».

Faz hoje 34 anos que era véspera de iniciar a viagem para o Luso e distribuíram-nos três rações de combate (caixa com duas pequenas latas de conserva, um pacotinho de sal, doce, bolachas que substituem o pão, leite condensado e pouco mais), a arma (a famosa mauser que mais parecia um cajado), e um pacote com cinquenta munições(talvez, seriam tantas?), que me apressei a meter no fundo do saco, juntamente com a culatra, para que não me a roubassem.

Os preparativos estavam feitos e restava-me aguardar a última noite, numa caserna sem as mínimas condições para albergar gente, para que me levassem, manhã cedo, para o machimbombo que me transportaria até à povoação de General Machado, no Huambo, onde apanharia o comboio, conhecido por “Mala”.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 09:46 PM | Comentários (1)

março 05, 2004

Desactivadas 892 minas anti-pessoais

(Luena, 5.Março.2004) - Seiscentas e oitenta e sete minas anti-pessoais e duzentas e cinco anti-tanques foram desactivadas e destruídas durante o ano de 2003, na província do Moxico, por organizações não-governamentais estrangeiras que operam na área de desminagem.

A informação foi prestada à Angop pelo director local do Instituto Nacional de Desminagem (INAD), António Tchitumba.

No mesmo período foram igualmente destruídos mais de seis mil engenhos explosivos, entre projectéis e granadas de mão.

O responsável fez saber que no ano passado se registaram dez acidentes com minas anti-pessoais, que resultaram em igual número de vítimas, entre feridos e amputados.

António Tchitumba acrescentou que as organizações não-governamentais "Ajuda Popular", da Noruega, "Grupo Consultor de Minas", da Grã-Bretanha, e a "DSA", da Suécia, limparam mais de 798 metros quadrados de estrada e áreas de cultivo.

Este ano, as acções das ONG estão essencialmente viradas para a desminagem de estradas, bem como os campos de minas identificados nas sedes municipais e comunais, nomeadamente Lumbala-Nguinbo, Cangamba, Cazombo, Lucusse, Muangai e Sandando, para facilitar a livre circulação de pessoas e bens.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:34 AM | Comentários (0)

março 04, 2004

O ambiente na CMR 113

A vida militar em Luanda era uma coisa que, nos quase dois anos que eu já tinha de tropa, não imaginava que pudesse existir.
Enquanto no Continente tudo era feito a horas certas, desde as formaturas às refeições, ali cada um, quase com toda a força da expressão, fazia o que queria.

Vejamos. Uma bela tarde, logo a seguir ao almoço, os praças estavam numa coisa que tinha algumas semelhanças com uma formatura e aguardava-se que o furriel miliciano, a cumprir a missão de sargento-de-dia entregasse as dispensas, quando um soldado gritou: Então nunca mais nos despachamos?
E o sargento de dia retorquiu: - Ainda não entreguei as dispensas!
- Então venha entregando, respondeu-lhe o soldado.

E enquanto disse isto aquela espécie de pelotão começou a deslocar-se para a «porta-de-armas» e o belo do furriel lá foi cumprindo a sua tarefa administrativa sem cuidar da disciplina e rigor militar de que estava investido pelo posto e pela missão.

À chegada à «porta-de-armas» tudo se complicou porque o sargento-da-guarda tentou interceptar os “insurrectos” mas debalde. Foi depois coadjuvado pelo sentinela que, apesar de não ter tido o sucesso que esperava, teve a pouca sorte de ainda ser agredido com uma ou outra coronhada.

A malta lá saiu, cada um mais rápido do que o outro para que não houvesse consequência de maior, porque, embora tudo fosse provocado por um ou dois, o certo é que a situação foi aproveitada por todos.

Esta situação, só por si, justifica o facto da CMR 113, sediada nas instalações do RIL-Regimento de Infantaria de Luanda, ser alcunhada de Companhia de Malandros e Reguílas.

Por aqui passavam muitos dos que acabavam de chegar do Continente e também todos aqueles que, depois de cumprirem pena de prisão ou coisa parecida, eram colocados noutras zonas.

Em 1970 encontrámos soldados que estavam em Angola desde os primeiros anos da Guerra Colonial. Gente que nada tinha já a perder.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:05 AM | Comentários (1)

março 03, 2004

Aeroporto do Luena vai ter nova pista

(Luena,3.Março.2004) - A notícia é das boas e dá conta de que a pista do aeroporto do Luena, na província do Moxico, vai beneficiar de obras de reparação ainda este ano e que o anteprojecto foi apresentado recentemmente ao governo provincial, em cerimónia a que assistiu Higino Carneiro, ministro das Obras Públicas de Angola.

As obras consistirão na ampliação da pista de 2.400 para 3.000 metros, no reforço da capacidade de carga, em função do estado em que se encontra a actual pista com fissuras, devido às variações de temperatura, o que tem permitido a infiltração de água no tapete da pista.

Quem por ali andou sabe que a alternativa, quando os trabalhos obrigarem uma intervenção profunda, será o aeroporto de Saurimo, na Lunda Sul.

Do Saurimo ao Luena a estrada será o único meio de acesso ao Moxico. São mais de 200 quilómetros de estrada que será reabilitada. O troço rodoviário Dala, Lunda-Sul, a Kamanongue já tem um empreiteiro, faltando apenas um outro para as outras estradas, difícil de encontrar em função da região que apresenta escassez de inertes e materiais de construção.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:32 AM | Comentários (0)

março 02, 2004

Abacaxi para o almoço

As dificuldades que sentíramos aquando do jantar no dia em que chegámos a Luanda, voltariam a repetir-se no primeiro almoço, na segunda-feira, 2 de Março de 1970.

O rancho não estava a contar connosco e a solução, pela minha parte e de mais alguns camaradas de armas, passou por comprarmos um abacaxi, por dôs quinhento (2$50 para quem não conheça a forma de falar de preços em Angola). Como éramos portadores de uma boa faca sevilhana que compráramos numa das duas passagens pelo BC 8, de Elvas, e a matámos a fome.

Sabíamos que tínhamos pela frente uma semana difícil e as primeiras horas não davam grandes perspectivas de boa estada.

Foi então que decidimos fazer uma incursão pela desconhecida cidade de Luanda à procura de algo que nos permitisse viver da melhor maneira os dias que faltavam para apanhar o maxibombo que nos haveria de levar até uma estação do CFB lá para os lados do Huambo.

O almoço era tomado no quartel e logo que nos era permitido, por volta das duas da tarde, saíamos e só regressávamos à noite, depois de bem jantados, na Versalhes ou na Portugália.

Eu e o Francisco Duro conhecíamos um furriel, de seu nome Franklin, que residira em Setúbal e ali estudara, deslocando-se depois para Luanda, onde vivia com a família e onde fora incorporado no Exército. Foi este nosso amigo que nos apoiou na estada na sua cidade e nos deu várias peças da farda, o que nos fez um jeitaço, pois embora só tivéssemos que ir ao quartel, no Luso, de três em três dias, nunca tivemos a preocupação de fazer troca de fardamentos.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 07:11 PM | Comentários (0)

março 01, 2004

O primeiro jantar em Angola

Tínhamos acabado de chegar a Luanda e, apesar de considerarmos que o Exército sempre foi uma estrutura bem organizada, o certo é que ninguém estava à nossa espera no quartel da CMR 113.
A hora de jantar já tinha passado mas, com a boa vontade dos cozinheiros, serviram-nos uma carne à jardineira que tinha sobrado do rancho.

Ainda me recordo que estava bem cozinhada. Mas não tínhamos talher, nem uma simples colher, mas como praça velha não se enrasca, fizemos das côdeas do pão pequenas conchas para os bocadinhos mais pequenos e, com as mãos comíamos os bocados maiores. Enfim, não passámos fome.

Porque naquele quartel havia de tudo, estávamos preparados para tudo.

Não tínhamos armário para as nossas coisas e abandoná-las era corrermos o risco de ficarmos espoliados dos poucos bens que transportávamos.

Dormir vestido foi a solução. Não havia lençóis e as camas estavam pejadas de uns pequenos seres a que chamamos percevejos. A solução era dormir no banco do jardim do quartel, mas há sempre alguém que defende que a disciplina é para cumprir. Pois é, o senhor comandante, pessoa tão importante que nunca lhe soube o nome, ameaçava o pessoal com dez dias de prisão disciplinar agravada se fossem encontrados a dormir na rua.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 06:12 PM | Comentários (0)

Chegada a Luanda

A viagem a bordo do Uíge chegara ao fim. Passámos onze dias de um agradável convívio pois o grupo já se conhecia há algum tempo e preparava-se para conviver mais dois anos.
Para trás ficavam a família, os amigos, a namorada e, em muitos casos os filhos.

A meio da tarde começámos a avistar terra. O sol fazia brilhar alguns vidros, o que nos estimulava porque “cheirava” a civilização. Os receios de encarar de chofre com a imagem que se fazia de África, onde a sanzala predominaria, ficaram dissipados.

Os que viajavam pertencendo a companhias saíram integrados nesse sistema organizativo. Nós, que tínhamos sido mobilizados em rendição individual, fomos dos últimos a abandonar o paquete.

Com as malas já numa camioneta que nos haveria de conduzir à Companhia de Mobilização e Recompletamento - conhecida pela sigla CMR 113, a que, simpaticamente, chamávamos de Companhia de Malandros e Reguílas, tal o ambiente de indisciplina que ali se vivia – preparava-me para dirigir à camioneta que me haveria de levar ao meu novo «hotel» quando fui abordado pela patrulha da PM que achava que o meu cabelo estava muito grande, como se fossemos perder a Guerra por causa de um militar estar ou não mal ataviado.

Como nada tinha a perder respondi de forma incorrecta ao alferes da PM, dizendo-lhe que se achava que eu estava mal que me castigasse enviando-me de regresso pois podia até aproveitar o navio que ainda ali se encontrava.

O oficial da PM mostrou ter alguma capacidade de missão e disse para o furriel que o acompanhava: - “Este mesmo agora chegou e já vem cacimbado”. Dizendo isto afastaram-se e lá fui ao meu destino imediato, lá para os lados de Alvalade e da Igreja de S. Paulo da Anunciação de Luanda.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 12:14 PM | Comentários (0)