Os militares, na sua grande maioria, gostavam de andar bem ataviados e, como é compreensível, bem engraxados. Isto era verdade quer andassem fardados ou à paisana.
Quem esteve em África conhece bem a expressão vinda da boca de miúdos que ofereciam os seus serviços: “quer engraxar minino?”
Quantas vezes, se tínhamos tempo, acedíamos a que o moleque nos engraxasse os sapatos ou botas e quantas vezes o consentíamos mesmo que nos dessem só mais um toque de pomada, mesmo que o não necessitássemos. Isto para termos motivo para lhes dar um escudo e para que não ficassem com a ideia de que recebiam uma esmola.
Era um espectáculo ver a forma como manuseavam o pano para dar lustro ao sapato e, curioso, era observar que o tal pano, muitas vezes nem tocava no calçado, pois os estalos que dava eram por ser esticado com o malabarismo.
Quando nos apercebíamos da exibição, tirávamos o pé da caixa de engraxar e quando ele ia assentar o pano o pé não estava lá e era ver o sorriso do cliente contrastando com a falta de à vontade do servidor...
Uma dia, numa esplanada, um dos miúdos abeirou-se do Etelvino Damásio, mecânico da 24.ª da Comandos e convenceu-o a deixar engraxar os sapatos.
Depois do trabalho feito, o militar perguntou: “quanto custa?” E a resposta saíu pronta e correcta: “um escudo, minino”.
- Um escudo? Estás doido. Só pago dez tostões!
- Dez tostões não, minino. Um escudo!
E a discussão continuou, sem que houvesse indícios de que a solução estivesse à vista.
O jovem nativo não desarmava enquanto o militar continuava na sua maneira simpática de o arreliar, sabendo bem que estava em causa apenas o facto de em Angola não se utilizar a expressão “dez tostões” para designar a unidade da nossa moeda.
Fingindo-se farto da discussão Etelvino retorquiu para o negrito: - não queres dez tostões? Então deito fora!. E, enquanto dizia isto, fazia o gesto de arremessar a moeda mas antes, e na sequência do movimento, deixara a moeda na cabeça.
O miúdo era levado pelo gesto da mão, mas ficava estático porque, entretanto, não sentira o som da moeda a cair.

João Carlos Domingues, furriel da PM
A esmagadora maioria dos clientes dos cafés, pastelarias e restaurantes das cidades angolanas, de que o Luso não constituía excepção, eram militares e, como tal, gente que não tinha muito que fazer, pelo menos os que cumpriam missão na urbe.
Para muitos de nós todas as refeições eram tomadas nos restaurantes, para não falar nos copos e petiscos avulsos que eram tomados nas unidades similares de hotelaria.
Desde inícios de 1970 até finais do ano seguinte, período em que estive no Luso, conheci dois empregados no café-restaurante Universo. Chamavam-se Silva e Alberto. O primeiro com a responsabilidade de atender os clientes do café e o segundo aplicando a sua maior experiência e expediente aos frequentadores do restaurante.
Se bem que o estabelecimento fosse único, com ligação interna apenas tendo a dividi-lo uma grande estante, a verdade é que quando íamos para o café entrávamos por um lado e quando pretendíamos tomar refeições acedíamos pela porta ao lado.
Numa tarde, quando estávamos, como de costume, a tomar umas bebidas, um nosso camarada, de quem, propositadamente, esqueci o nome - embora tenha como lembrança que era um fulano de forte compleição física e natural do Barreiro – sempre que o Silva se chegava à mesa para trazer ou levantar qualquer copo, logo lhe dava uma forte palmada nas costas, que o desgraçado quase caía, aguentando em sofrimento e de modo subserviente a agressividade do “minino”.
Quando o empregado não estava junto a nós chamei a atenção do “agressor” mas sem qualquer resultado prático, já que dali para a frente tudo passou a ser mais exagerado.
Como não tinha outra solução, quando a cena se repetiu, restou-me perguntar ao Silva se não tinha mãos e este, olhando para mim numa confirmação de que teria quem lhe desse protecção, visto estar em inegável minoria, resolveu “retribuir” os mimos do ilustre barreirense que se voltou contra mim porque considerou que eu tinha “incitado o preto” contra ele. Apenas lhe respondi que só perguntei ao rapaz se não tinha mãos.

O operador de Cripto Cabrita Lopes com o Silva, no dia 23 de Janeiro de 1971
Toda a gente sabe que o material que passava pelo Centro de Cripto (CCP) era classificado e, mensagens e outros documentos vinham sempre “rotuladas” de Confidencial, Secreto e Muito Secreto.
Os telegrafistas, numa azáfama para interpretarem o “traço-ponto-traço” não tinham a mínima oportunidade de saberem o mais pequeno pormenor do conteúdo de qualquer mensagem e depois faziam-na passar pelo Centro de Mensagens, onde os operadores descodificavam os endereços.
Por sua vez os operadores de mensagens faziam-nos chegar as mensagens com mais ou menos pentagramas (grupos de cinco letras desconexas) que decifrávamos tornando aquele “amontoado” de letras em texto legível.
A mensagem antes de chegar ao destinatário era dobrada tomando o formato de um pequeno quadrado e era “fechada” com agrafos.
Se a mensagem tinha um grau de segurança superior ao Confidencial era fechada num envelope contendo este a indicação de que seria apenas para abrir por fulano de tal.
Se o ComZML queria fazer chegar uma mensagem a outras unidades procedíamos de maneira inversa.
Porque no CCP ficávamos sempre com uma cópia da mensagem havia que, em dias previamente determinados, proceder à sua destruição e fazíamo-lo incinerando os documentos num bidão, e aproveitávamos, para isso, um pequeno espaço em frente à Secretaria.
Por vezes acontecia termos que levar documentação ao aeroporto e esta era entregue à guarda do comandante de um avião militar. Numa madrugada coube-me a responsabilidade de levar o embrulho que era devidamente atado, selado, lacrado e protocolado com guias preenchidas em triplicado. Uma dessas guias, depois de assinada por mim e pelo comandante regressava ao CCP onde aguardava por uma das cópias que o comandante fazia chegar ao destinatário em Luanda e depois era devolvida para conferirmos que “a carta chegara a Garcia”.
Foi nessa acção a primeira vez que entrei no avião Noratlas. O comandante, que estava ainda na rua, assinou a documentação e pediu-me para que fosse colocar a encomenda na cabina.
Fiquei deslumbrado com tanto botão.

Num passeio ao Aeroporto Gago Coutinho, no Luso, em Julho de 1970

Noratlas. Foto do site Os Luenas
A cidade do Luso tinha, como já se referiu, bonitas vivendas, com uma arquitectura moderna, que davam bem a ideia de que quem as mandava construir pensava em perpetuar a sua presença ali onde o Leste era de facto mais Leste.
A Rua Governador Hortêncio de Sousa era uma das artérias bem apetrechada de luxuosas habitações. A casa dos padres era também uma vivenda que servia muitas vezes de cenário para as fotografias que queríamos que ficassem bonitas para que a família tivesse oportunidade de avaliar que estávamos numa zona longe de tiros e outros perigos, porque ninguém acreditava que numa cidade assim se estivesse em guerra.
A grande maioria das vivendas que estavam implantadas no Luso, embora reflectissem modernidade, não eram de construção muito recente - e referimo-nos ao início da década de setenta – e, obviamente, os desenhadores das companhias de construção sediadas no perímetro militar, não terão tido, pelo menos os que ali serviram nos finais dos anos sessenta e início de setenta, deitado traço naquela arquitectura.
Se a grande maioria dos militares nada tinham que fazer quando estavam fora das unidades, com o Fernando Brito, desenhador da Companhia de Construções 2678, tal não acontecia porque ocupava muitas das horas em que estava fora do quartel para trabalhar nos projectos que lhe tinham encomendado.
Porque sempre gostei das questões relacionadas com arquitectura e projectos de construção civil, foi-me fácil fazer amizade com o Fernando Brito, um conversador por excelência - algarvio que sempre exerceu profissão em Faro - e muitas horas passei em sua casa a vê-lo desenhar e, uma vez ou outra, a emitir a modesta opinião que outro objectivo não tinha que não fosse ajudar a encontrar a melhor solução.
Em casa do Fernando Brito fizemos patifarias ao Arnaldo, um outro desenhador da mesma unidade, este mais interessado em ocupar os tempos livres a exprimir na tela os seus dotes de artista plástico, que fez furor quando expôs no Ferrovia e cuja pintura reflectia bem o porquê de se vestir sempre de negro.

Jorge Santos junto à casa dos padres, em Julho de 1970

Na Rua Governador Hortêncio de Sousa, em frente ao campo de futebol

Fernando Brito junto ao monumento em frente ao Palácio do Governo do Distrito

Fernando Brito e eu a cearmos no Restaurante Universo, em Janeiro de 71
O Cine-Teatro Luena passava filmes três ou quatro vezes por semana e muitos de nós éramos frequentadores quase assíduos, e mesmo quando estávamos de serviço e havia interesse em ver determinada fita, lá arranjávamos maneira de dar volta aos turnos para que ninguém deixasse de passar uns belos momentos e de cuidar do intelecto da forma que mais gostava.
Quando íamos ver os quadros no átrio do cinema para sabermos que filme ia passar, tínhamos o cuidado de ver uma informação que estava inserta numa folha A4, e que era a cópia do ofício da empresa para a delegação da Inspecção dos Espectáculos, e onde se ficava a saber quantas “partes” tinha o filme.
Se um filme tinha dez partes já se sabia que a projecção durava noventa minutos, pois cada “parte” correspondia a nove minutos. Um pormenor técnico que alguém que estava dentro do assunto identificou e que me serviu para mais uma das paródias que fazíamos uns aos outros.
O nosso amigo Francisco Duro tinha o péssimo hábito de se levantar uns minutos antes do filme acabar, porque “cedo” se apercebia como a cena acabava.
Se isto não fosse suficiente para nos deixar de pé atrás, o nosso amigo esperava por nós à saída e lá seguíamos até ao Pic-Nic, ou até ao Universo, porque sempre havia a ceia depois do cinema, e ele ia explicando o enredo do filme como se nós não tivéssemos lá estado.
Foi numa dessas vezes que propus que fizéssemos uma colecta para pagar o bilhete ao Francisco Duro para ele ir ao cinema sozinho e depois íamos esperá-lo à saída do Luena para nos contar o enredo do filme. A vantagem disto é que não perdíamos tempo e sempre nos saía mais barato.
Um dia ofereci-me para ir comprar os bilhetes para que o Duro não ficasse a saber quantas “partes” tinha o filme e quando fiz a distribuição dos ingressos fiz questão de informar que o filme tinha menos duas “partes” do que tinha na realidade.
E o resultado disto foi o nosso camarada de armas e de paródias ter saído da sala vinte minutos antes do filme acabar.
Dessa vez fomos nós quem teve de explicar o resto do filme.

Mário Gouveia, Talaia, Francisco Duro e Jorge Santos
Havia muitos gente que tocava e cantava. A necessidade de ocupar o tempo levava-nos a tudo. Eu, que nunca soube o que é uma viola, embora tivesse estudado solfejo nos tempos de liceu, acabei a acompanhar fado no bar Pica-Pau, onde havia umas raparigas a servir às mesas. Nesse bar entre outros, cantava fado o Nelson, cabo da 24ª Companhia de Comandos, e o Vitor Rego, marialva que chegou a dizer ao brigadeiro Junqueira dos Reis: “já os peguei mais valentes”, quando este lhe perguntara se já tinha pegado touros.
Mas naquela casa da noite luena não era conveniente cantar certas canções, porque poderíamos estar a ser “aplaudidos” por alguém que não gostasse das letras.
No Ferrovia também tivemos algumas sessões de fado e outras canções e aí, recordo-me de um senhor que servia naquela polícia política que nos abandonou na noite do 25 de Abril, nos ter mandado calar porque “você aí tem bigode subversivo”.
As esplanadas dos vários cafés também nos serviam de palco, porque a malta queria era dar ao dedo na viola e desafinar umas notas com uns fados bem regados, mais com cerveja do que com vinho, porque era mais barato.
Nas nossas casas também se faziam alguns convívios mas isso era também arriscado porque havia a imediata localização, no caso de alguém nos “sintonizar”.
Uma bela noite em que o repertório eram canções de intervenção, nomeadamente “Os Vampiros” e o “Menino do Bairro Negro” do Zeca Afonso, estávamos sentados no chão, junto a uma loja que havia ao lado da Esplanada-bar e em frente aos escritórios da Aerangol, quando vimos aproximar-se um polícia que descia a rua vindo do lado do Jardim no sentido do comando da PSP. Nesse mesmo momento houve alguém que cruzou os braços sobre os joelhos e discretamente escondeu a cara.
O agente abeirou de nós e com delicadeza desse: “estejam à vontade, não façam muito barulho, porque já é tarde” e lá foi andando.
Quando o polícia se afastou todos rimos discretamente porque quem se tinha “escondido” era, nem mais nem menos, o comandante da PSP.
Os militares que cumpriram serviço militar obrigatório em África, exceptuando alguns - poucos compreenda-se - que eram do quadro permanente, estavam longe de saber que haveria de acontecer um Movimento das Forças Armadas, que, além de outras reivindicações, haveria de acabar com a Guerra Colonial.
Nos primeiros anos da década de setenta sentia-se que algo teria de mudar.
Este sentimento era o resultado de um descontentamento que se vinha agudizando entre a juventude, que começava a ver que as suas carreiras profissionais estava a ser interrompidas por uma guerra que nada lhe dizia.
Nos batalhões e companhias que, por imposições estratégicas, se tinham que isolar nas zonas onde a guerra assumia um carácter efectivo, com tiros, emboscadas e defesa da zona que lhes estava atribuída, não havia grandes condições para alguém politizar as “bases” a não ser que por ali houvesse um ou outro disposto a transmitir ensinamentos adquiridos.
Na cidade havia muito mais e melhores condições para que as acções políticas ganhassem forma e estas eram levadas à prática por muitos dos que ali passavam dia e noite e que para além das missões militares que lhes estavam atribuídas e que iam cumprido para que sobre eles não se levantassem suspeitas, gastavam os seus períodos de repouso na busca de oportunidades para consciencializar os que passavam pela cidade.
E o descontentamento militar não existia só ao nível dos capitães que acabariam por pôr em marcha o levantamento que se haveria de chamar “25 de Abril”. Nos finais de 1970, quando os quadros permanentes das Forças Armadas beneficiaram de um aumento salarial superior ao valor do que os praças recebiam por mês, levou a que soldados e cabos andassem, fardados e à civil, nos carros militares, a percorrerem as ruas da cidade do Luso, e certamente noutras da Região Militar de Angola, a cantarem, com música de “Um chapéu aos quadradinhos”, uma palavra de ordem que reivindicava “Um aumento para os soldadinhos”.
Como é evidente a esta acção o Poder não respondeu, mas também não a reprimiu.
Muitos militares aproveitavam a estada em África para tirar a carta de condução. E se se tinha a especialidade de condutor ou de mecânico, então esse apetite ficava aguçado porque já se estava em poder de conhecimentos que facilitavam a instrução e, obviamente, o exame.
Sabe-se que uma boa percentagem das cartas de condução apreendidas em Portugal tinham sido passadas pela Direcção de Viação do Moxico, onde bastava chegar à escola de condução manifestando a vontade de começar com as aulas para ser proposto a exame e isso acontecia em pouco mais de uma semana.
Porque não era muito caro obter carta de condução no Luso eram muitos os militares que se predispunham a aprender a conduzir para regressarem a casa com mais uma habilitação que lhes pudesse ser útil.
Com frequência víamos os carros da instrução a percorrer as ruas da cidade e o dia do exame era festejado como sempre acontecia quando algo corria bem.
Quando o Etelvino Damásio, cabo mecânico da 24ª Companhia de Comandos, fez exame de condução logo começámos a programar as coisas para festejar o sucesso, mas quando este chegou disse-nos que tinha reprovado mas ninguém acreditou. Só quando, passado, quinze dias, o voltámos a ver no carro de exame é que acreditámos que tinha falado verdade.
Sabíamos que o Etelvino era um condutor experiente e exigimos que contasse em pormenor o que se passara e a estória é digna de constar num manual.
Era costume, não sei se por exigência do código, se prática na cidade, que quando o sinaleiro estava no cruzamento, se fizesse a curva “por dentro” e quando a peanha onde este normalmente se colocava estava vazia, se contornasse a peanha “por fora”.
O Etelvino passou “por dentro” quando o polícia não estava lá e, reprovou.
Na segunda vez que foi a exame, e com experiência adquirida, o cabo mecânico acelerou, perto do cruzamento travou de repente e perguntou ao examinador: -“quer que contorne ou passo por dentro?”.
Depois de refeito da cabeçada que deu no pára-brisas, o examinador explicou como queria e o Etelvino passou no exame.

Eu e o Etelvino Damásio, no Restaurante Universo

Etelvino Machado é o primeiro a contra da esquerda

Em segundo plano vemos o sinaleiro na peanha que estava no cruzamento em frente à Casa Universal, ao pé do Jardim
A cidade do Luso, em pleno coração do Leste de Angola, tinha um jardim que perpetuava o nome do antigo presidente do Conselho de Ministros, António Oliveira Salazar.
O espaço com árvores frondosas e bem arranjado, ocupava todo o quarteirão em frente ao Palácio do Comércio e tinha um monumento aos Combatentes da Grande Guerra, com quatro canhões a fazer-lhe “guarda de honra”, mas não era um daqueles sítios onde se ia passear. Era mais um local bonito e bem arranjado que utilizávamos como cenário para as fotografias que enviávamos para a família.
O nome do jardim era indiferente à esmagadora maioria dos militares e civis que o designavam apenas por “jardim”, se bem que houvesse outros na cidade, como o que era fronteiriço à sede do Governo do Distrito. E a prova de que as pessoas não ligavam para o nome do jardim é que poucas pessoas existirão que se lembram do seu nome, embora ainda o consigam localizar no espaço.
Curiosamente este jardim era o mais frequentado e isso ficava a dever-se à existência de um recinto polidesportivo, onde se praticava futebol de salão, modalidade muito apreciada em toda a Angola, e o basquetebol, que teve bons praticantes naquela província.
Se o basquetebol era muito praticado pelas jovens residentes na cidade, o futebol de salão era o desporto de preferência dos homens, onde apareciam muitas equipas das várias unidades militares que circundavam a urbe.
Quando as moças estavam a treinar ou jogar basquetebol a assistência era totalmente formada pelos muitos militares que não perdiam oportunidade de ver a graciosidade das adolescentes.
Mas, em contrapartida, as moças não perdiam um jogo de futebol. Juntavam-se em grupinhos e rumavam até ao jardim como que se organizando em claques torcendo por esta ou por aquela equipa.
Perto do jardim havia vários bares e cafés, como a cervejaria do Lourenço, perto da Casa Universal, a Esplanada-Bar, e ali bem perto também o Café-Restaurante Universo. O Luso Hotel e a gelataria Apólo 12, que ficava em frente, estavam também na proximidade do jardim.

Em fundo a cervejaria Chave d'Ouro, do Lourenço
Foto do site «Os Luenas», em 1987

Em fundo o Palácio do Comércio. Foto de Maio de 1971
Os militares nunca têm muito que fazer e quando vivem numa cidade com a obrigatoriedade de apenas ir ao serviço de três em três dias, ainda mais essa situação se torna notória.
A maior parte das horas de todo o santo dia eram passadas nos cafés, restaurantes e pastelarias da cidade e, quando se formava um grupo engraçado dava-se uma volta por sítios onde normalmente não íamos e aproveitava-se para tirar umas fotografias.
Havia, no entanto, um ligeiro problema. É que os passeios não davam para ocupar mais do que um bom bocado da tarde, já que as distâncias a percorrer não eram grandes. Um giro até ao Ferrovia. Uma passeata até à ponte que atravessava o Rio Luena, lá para os lados da BTR 522 e Companhia de Engenharia 2678 e pouco mais.
Então, cá estávamos nós nos restaurantes e cafés.
Alguns de nós fazíamos contratos mensais com os restaurantes e aí estávamos a grande parte do tempo, embora, para descongestionar, déssemos uma saltada a outros cafés, para que não se caísse numa rotina que poderia atingir a classificação de enfadonha.
É claro que éramos todos fregueses sem grandes pressas. Mas, a irreverência da juventude - porque a grande maioria tinha pouco mais de vinte anos, sendo eu, com vinte e quatro anos de idade, dos mais velhos – levávamo-nos a cometer exageros que apenas eram toleráveis por quem estava habituado a lidar com a tropa.
A meio da tarde, de um belo, dia eu e mais um ou dois camaradas fomos até ao Pic-Nic, local onde passávamos grande parte do tempo na esplanada interior ou na bela sala que ficava à direita, quando se passava sob o arco imitando tijolo, mas naquele vez, sem qualquer justificação da nossa parte, resolvemos ficar ao balcão, onde não estava nenhum empregado.
Chamámos o empregado, uma ou duas vezes e, como ninguém aparecia, resolvi pegar num copo que estava sobre o balcão e atirá-lo ao chão. Como é evidente veio logo um empregado e o Silvares Mendes, o proprietário, que, com a sua personalidade resolveu o conflito sem ficar zangado connosco.

Sala de entrada do Pic-Nic.
Foto do site “Os Luenas”
A cidade do Luso crescia e modernizava-se. Mas, poder-se-á dizer que era muito raro verem-se abrir novos estabelecimentos comerciais. Industrias nem vê-las mas, apesar de tudo, a cidade ia, aos poucos, melhorando as infra-estruturas.
Tudo era lento numa cidade que estava longe de Luanda.
A logística, independentemente da militar, era fraca e tinha como base o caminho-de-ferro, com o “mala” e o “camacove”, que faziam duas passagens cada no sentido ascendente e outras tantas no descendente.
Em finais de 1970 abriu no Luso um “bar americano”, que foi considerado um sucesso no meio masculino e, como é natural era forte numa urbe circundada por quartéis.
As empregadas do Pica-Pau eram umas jovens, quase todas vindas do Continente, para servirem às mesas e “pouco mais”. A troco de uma bebida, que era cara - basta recordar que uma garrafa de whisky custava na cantina militar sessenta escudos e na mesa a “módica” quantia de mil escudos – havia quem ganhasse um beijinho...
O ambiente era selecto com uns sofás, que rodeavam mesas baixas, como as que temos nas nossas salas de estar, e, ao contrário de um vulgar café, da rua não se tinha qualquer imagem do que se passava lá dentro.
A eventual “má” fama do novo bar começou a espalhar-se e alguns senhores da terra, para mostrarem à família que ali não se fazia nada de mal, chegaram mesmo a ir acompanhados das esposas que terão ficado descansadas quanto à integridade dos maridos.
Passou pelo Luso um chefe da Polícia que era meu conhecido e uma noite convidou-me a ir até ao Pica Pau, onde eu cheguei a acompanhar fado à viola, portanto, pertencia à casa.
O chefe Albino também já tinha estado no Pica-Pau e o seu à vontade - pensava ele - dar-lhe-ia alguns privilégios, como o aproximar-se das empregadas como se com elas tivesse uma intimidade que só ele conhecia.
Nessa noite, ao entrarmos, encontrámos logo à entrada uma jovem que, por estar de costas para nós recebeu do Albino um valente apalpão de nádegas.
Como resposta o Albino apanhou de imediato uma grande bofetada e tudo ficou no segredo da noite.
Pode dizer-se que todos os que viviam no Luso estavam longe dos familiares. Havia também na cidade muitas famílias, a sua grande maioria nada tinham a ver com os tropas, que reuniam ali o seu núcleo central mas, mesmo estes tinham familiares mais afastados no Continente com quem queriam comunicar.
Todos os militares desejavam o dia do correio para saberem notícias dos mais chegados e logo se apressavam a responder pois sabiam que os pais, namoradas, esposas e, em muitos casos, os filhos aguardavam com ansiedade novas de quem estava na guerra.
É verdade que para muitos dos militares que estavam no Luso a guerra era mais de papel e esferográfica do que de tiros, mas para quem estava a milhares de quilómetros, tudo era África.
O edifício dos Correios, que albergava também as telecomunicações, era amplo e concebido para uma cidade em crescimento, mas pouco ou nada utilizado pelos militares. Estes tinham um serviço especial que era denominado SPM (Serviço Postal Militar) que, no caso do Luso, tinha o número de código 9816.
Por este serviço passava toda a correspondência dos militares, com distribuição duas ou três vezes por semana.
Editado pelo MNF (Movimento Nacional Feminino) havia os aerogramas, que eram uma folha de papel amarelo de 63 g/cm2, que tinha já impresso o esquema em que era dobrado, bastando uma lambidela na zona da cola para ficar fechado.
O Estado transportava estes aerogramas sem que o militar tivesse que pagar qualquer porte. As famílias, no Continente, tinham também acesso a este meio de comunicação.
Porque nos aerogramas era proibido incluir fotografias ou outro qualquer papel o aerograma não era muito utilizado pelos militares que viviam na cidade, até para dar às famílias a ideia de que, pelo menos para os selos, ainda tínhamos dinheiro.
O SPM funcionava no rés-do-chão do edifício do Comando e era desempenhado pelos cabos escriturários que, na sua especialidade, tirada em Leiria, tinham aprendido toda a técnica de carimbar selos e de pesar cartas, autênticos catedráticos da “Universidade da Estampilha”.

Edifício dos CTT no Luso. Foto do site Os Luenas

Junto aos Correios em 17 de Março de 1971
O meu recorde a tirar fotografias, conseguido num dos muitos passeios que fizemos pelo Luso, cifrou-se nos três rolos em duas horas. Isto quer dizer que foi disparada uma fotografia por minuto.
Isto quer dizer que muita gente que esteve comigo no Luena terá fotografias tiradas por mim, com a vantagem de, em relação às que normalmente aqui publico, eu não apareço.
Como era eu que revelava as fotografias, pois tinha um laboratório em casa, tive oportunidade de incluir, em todas as cartas que enviei para a família lá ia uma recordação e, embora só houvesse correio apenas duas ou três vezes por semana, todos os dias escrevia uma carta para a namorada e pelo menos uma ou duas por semana para os pais, em todas seguiam uma ou duas fotografias.
Pensei fazer - mas nunca concretizei - o levantamento fotográfico das vivendas, e algumas eram bem engraçadas, para mais tarde mostrar como era aquela cidade.
Muitas das minhas fotos têm como fundo casas bonitas do Luso e também edifícios públicos, que não eram muitos mas mostravam o estilo de arquitectura do Estado Novo.
Porque sempre me interessei um pouco por arquitectura, cheguei a conceber, à “mão levantada” uma vivenda que o Fernando Brito, desenhador da Companhia de Construções 2678, desenhou com todos os pormenores técnicos como um verdadeiro profissional sabe fazer e vendeu o projecto a uma senhora natural do Barreiro que, se a memória não me falha, se chama Luísa e morava em frente ao escritório da Aerangol.
Mas se os edifícios eram o espelho da arquitectura dos anos cinquenta e sessenta, os monumentos, não muitos, começavam a ter alguma modernidade.
A estátua a António José de Almeida, implantada na avenida do mesmo nome, em frente à estação do CFB, era de tipo clássico, assim como o monumento aos combatentes, no Jardim Oliveira Salazar, fronteiro ao Palácio do Comércio.
Mas havia um outro formado por dois arcos que cruzavam sobre um cone invertido de círculos, que estava no jardim em frente ao edifício do Governo do Distrito e que nunca percebi o significado.

Jorge Santos com o Leitão, telegrafista no ComZML
O clã dos operadores de cripto era notado na cidade pela unidade e solidariedade entre todos os seus elementos que poucas vezes ultrapassavam uma dúzia mas nunca eram menos de nove.
Do quadro do Comando da Zona Leste éramos seis. Eu, Cabrita Lopes, Fernando Curval e Carlos Alberto Martins, todos do 3.º turno de 68 e o Francisco Duro e o José Luís Silva, do 4.º turno do mesmo ano. Completavam o “plantel” os criptos dos Comandos, da Companhia de Construções, dos Dragões, da BTR 522 e da Companhia que pertencia ao Batalhão que estava junto ao Aeroporto.
Foram muito poucos os dias em que estivemos com o número reduzido de militares e só uma ou duas vezes é que trabalhámos 24 horas seguidas. Fora isso reinava a calma, embora sempre com muito trabalho mas que cada um dos coordenadores das equipas geria da melhor maneira e de modo que as mensagens não se acumulassem nem que estivéssemos ali a atrapalhar-nos uns aos outros.
Quando as equipas tinham pouco mais do que o mínimo, o operador que ficava de serviço à noite estava dispensado de entrar logo às oito da manhã, e começava a trabalhar depois de almoço. Os restantes começavam a sair por volta da meia-noite, dependendo isso das mensagens que estavam por cifrar ou decifrar.
Quando havia muita gente, era a balda, umas horas a uns e a outros e às vezes até dava para ir ao cinema no dia de serviço.
O tempo livre, e havia sempre dois dias entre cada serviço, era aproveitado para passear, fazer desporto, ir para o rio Luena ou para a piscina do Ferrovia e, às vezes ficar em casa a ler ou a descansar porque as noitadas eram rijas.
Convém dizer que o clima era por nós considerado como a eterna Primavera e por isso nem sempre o calor exigia que se fosse sempre ao banho nas frescas e cristalinas águas do Luena. Tão cristalinas que era dali que era bombada a água para o abastecimento público da cidade.
A chuva também não era muita e no período do cacimbo, porque não tínhamos esquentador, o banho era tomado à pressa e lá perto do meio-dia, porque o precioso líquido corria um bocado para o frescote.

Francisco Duro, Toni, Jorge Santos, Cabrita Lopes e Hélder. Em primeiro plano Mário Gouveia. No largo 28 de Maio, em frente ao Rádio Clube do Moxico
A cidade do Luso não era incomodada pela presença de cães vadios e, embora houvesse por ali alguns exemplares do “fiel amigo do homem”, estes estavam nos quintais das vivendas, devidamente tratados.
Em determinada altura fiz amizade com um cão de raça pastor alemão que sempre que dava pela minha presença saltava o muro e acompanhava-me para todo o lado.
Este cão pertencia a uma das vivendas que ficavam perto da sede da Diamang-Companhia de Diamantes de Angola, creio que a artéria se chamava Rua Sociedade de Geografia de Lisboa. Como perto desta vivenda moravam os desenhadores da Companhia de Engenharia - o Fernando Brito e o Arnaldo, ambos de bigode, mas este sempre de preto vestido e com um “moustache” de artista plástico – eu passava com alguma frequência por lá e logo o belo do cão, que nunca soube o nome, se apressava a saltar o muro e me vinha fazer festas.
A amizade ficou de tal maneira cimentada que não sei quantas vezes aquele animal me seguiu até ao Pic-Nic e por ali ficava até que o mandasse para casa.
Quando passeava na cidade lá andava o cachorro comigo e chegámos a fazer autênticas “exibições” de destreza, como quem treina para um tatu militar, ou para um festival de circo.
Porque sempre me diverti a fazer judiarias servi-me várias vezes deste amigo de quatro patas para, beneficiando do facto dos operadores de cripto passarem as manhãs na cama, fazer uma ronda pelos quartos, abrir as portas e logo o bichano entrava a cheirar e a lamber o ilustre militar que dormia a sono solto e, incomodados com a presença do visitante o ensonado residente instintivamente dava uma volta na cama. Perante este gesto o “canito” assustado, batia em retirada mas, ao voltar-se, dava com a cauda na cara de quem já estava meio acordado e logo todas as pragas e um chorrilho de asneiras era disparado sobre mim, que, satisfeito por ter conseguido o objectivo, rumava a outra habitação para incomodar mais uma vítima.
O balanço destas manhãs era feito à tarde, quando todos nos encontrávamos num dos vários cafés.

Um belo exemplar junto ao recinto onde se realizou a Feira Comercial do Luso

Eu com o meu amigo no jardim em frente ao Governo do Distrito
A malta nova sempre gostou muito de música. É de sempre esta constatação e embora os militares não saíssem para as operações de vigilância e defesa a ouvir telefonia, é certo que passavam muitas horas a ouvir as canções da época.
No Luso captávamos, como seria evidente, o Rádio Clube do Moxico, que emitia desde o alvorecer até à meia noite. E convém recordar que as emissões terminavam, todas as noites com a “clássica” «Angola é nossa».
Naquela estação passava a canção da Jane Birkin “Je t’aime moi non plus”, proibida no continente e que fez furor não só entre os militares mas também nas muitas jovens que residiam na cidade.
Recordo o Mário Albuquerque, um civil que ali fazia locução e que sabendo das nossas preferências musicais, passava todas as noites as canções proibidas do José Afonso. Foi a ouvir o Rádio Clube do Moxico que aprendi a letra do “Menino do Bairro Negro” e de “Os Vampiros”.
Porque no continente não havia possibilidade de conseguir estas canções, cheguei a pedir ao Mário Albuquerque para nos gravar estas canções do Zeca e depois enviámo-las para casa. Felizmente que nunca fomos interceptados nesta forma subversiva de fazer política.
A rádio fazia-nos também companhia quando estávamos de serviço nas unidades. Os criptos tinham sempre o “cantante” ligado e o mesmo acontecia nas secções, pois, na sua grande maioria, os oficiais responsáveis não se opunham a esta forma de “alegria no trabalho”.
Também tínhamos que ouvir o Paco Bandeira e o Fernando Farinha, que sendo pessoas de esquerda, nos brindavam, principalmente este, com um fado acerca do militar que quase fazia chorar as pedras, mas que, alheio a patriotismos baratos, quase ninguém sabe um único verso, se bem que toda a gente se lembre da sua existência.
O RCM dinamizava, aos domingos à tarde, um programa de discos pedidos pelos automobilistas que andavam às voltas pela cidade e dedicavam canções uns aos outros.
Na altura considerávamos aquilo tudo muito parolo, mas o certo é que todos se divertiam e era a prova de que a estação fazia intervenção.

Em frente ao ComZML, Mário Albuquerque e eu. Sentado na máquina está Fernando Curval

O Rádio Clube do Moxico está em fundo, nesta foto captada em 30 de Setembro de 1970
A cidade do Luso não era muito grande. Hoje será maior certamente, até porque não precisa da vedação de arame farpado que, pelo menos em teoria, a delimitava.
Havia o “centro histórico”, que dito numa forma mais realista poderemos afirmar que notava-se onde estavam as primeiras casas a serem construídas e que deram origem à Vila Luso, mas também se viam, já naquela altura, modernas vivendas, um hotel e um robusto prédio onde funcionava o Banco Comercial de Angola e onde estava o Café Universo.
Edifícios de construção estilo “Estado Novo” como os Correios, o Palácio do Comércio e o Governo do Distrito davam-lhe um ar de “cidade”, assim como espaçosos jardins.
A estação do CFB e o Cine-Teatro Luena, relativamente perto um do outro, davam-lhe um ar cosmopolita.
As avenidas eram largas, numa perspectiva pombalina na concessão de cidade.
As ruas perpendiculares ao rio Luena todas tinham placa central, à excepção das duas dos extremos, enquanto que no sentido perpendicular nenhuma artéria tinha aquela configuração salvo a que acompanhava o caminho-de-ferro e onde estava a estação do CFB, enfrente à qual a imponente estátua de António José de Almeida.
Neste ambiente, à grande maioria dos militares, não acontecia o chamamento para que se fossem divertir nos quimbos.
Alguns dos nossos camaradas preferiam passar os tempos livres junto das populações negras em vez de estarem nos muitos cafés da cidade, mas estes não faziam a regra.
Exceptuando as vezes em que íamos passar a manhã ao banho no Luena, raramente nos infiltrávamos nos bairros “típicos” das populações desfavorecidas, onde não havia as mais elementares condições de salubridade para que ali vivessem seres humanos.
Poucos eram os negros que residiam nas casas da cidade e, à excepção dos que trabalhavam nos cafés e restaurantes, raramente os víamos a tomar uma cerveja no Pic-Nic, no Universo, na Esplanada-Bar, na gelataria Apolo 12, ou na pastelaria Cristália.
Para nós as idas ao quimbo não tinham outro fim que não o arranjar cenário para perpetuar a estada em África.


Visita ao quimbo perto da estação do CFB, no dia 11 de Maio de 1970

Estátua a António José de Almeida, frente à estação do CFB
Foto do site Os Luenas.

Vista aérea do Luso
Foto do site Os Luenas.
Uma das coisas que entusiasmava a maior parte dos jovens quando entravam no serviço militar eram as armas. Era vê-los com entusiasmo no manuseamento de uma simples mauser modelo 1937, como se do mais moderno armamento se tratasse, armados em soldadinhos de chumbo, mentalizando-se para combater um inimigo que não sabiam quem era nem quais os seus objectivos.
Na recruta tive a sorte de ouvir, na primeira vez que saí das linhas de tiro, que os melhores iriam para atiradores. A partir dali nunca mais acertei num alvo. E os testes psicotécnicos atiraram-me, tal como à dezena de camaradas com que mais me familiarizei em Elvas, para operador de cripto.
Na viagem de Luanda para o Luso lá fui eu, tal como os restantes, com uma mauser a servir de defesa, como convém a um militar que acabava de chegar à guerra.
Um ano volvido pegaria novamente numa arma, desta vez para tirar fotografias na casa do Curto, do Martins e do Domingos, furriéis da Polícia Militar. Para tirar uma dessas fotografias, daquelas que servem para mostrar a valentia aos amigos, tirei o carregador e só depois de ter disparado uma dezena de vezes, para ter a certeza de que não ficara nenhuma bala na câmara, é que encostei a pistola à cabeça mas, mesmo assim, com o dedo fora do gatilho e bem esticado, “não fosse o diabo tecê-las”.
Uma semana mais tarde tive que ir para a carreira de tiro da BTR 522, mas optei, com a conivência do alferes que comandava as operações, de não disparar com a FN, mas sim com máquina fotográfica, já que era mais a meu gosto.
Depois destes dois episódios com armas, o primeiro a 17 de Março de 1971 e o segundo a 23 do mesmo mês, não voltaria mais a pegar em armas. Nem mesmo para fazer, no final de Novembro desse mesmo ano, a viagem de regresso a Luanda. Aqui valeu a persuasão perante quem tinha que decidir para que “fechasse os olhos” a dezoito militares que viajavam sob a minha responsabilidade sem uma única arma. O objectivo foi conseguido, embora com alguns problemas aquando da entrega da guia de marcha à chegada aos Adidos.

No quarto dos furriéis da PM, a 17 de Março de 1971

Foto para marcar a passagem pela “Guerra”, a 23 de Março de 1971
É verdade, e por isso muitas vezes repetido, que os militares que estavam autorizados a pernoitar fora dos quartéis tinham muita dificuldade em levantar-se cedo. A grande maioria das noites eram passadas na borga e, de vez em quando, de serviço no Comando, e isso obrigava-nos a passar as manhãs na cama, o que nos levava a dizer que a claridade nos fazia mal à cabeça, o que não deixava de ser verdade pois todos tínhamos grande dificuldade em enfrentar a luz solar, quais albinos.
Mas, às vezes havia alguém que aparecia com vontade de quebrar a rotina e propunha que no dia seguinte se fosse passar a manhã na piscina do CFB, local agradável e onde se podiam dar uns saltos da torre que tinha quatro pranchas.
Poderia, à primeira vista, considerar-se que preferíamos ir para a piscina para estarmos perto das moças, e havia muitas, que frequentavam aquele aprazível local, mas escolhíamos as manhãs dos dias de semana para podermos estar mais à vontade, pois, para a quase totalidade dos pobres militares as aptidões para saltar para a água não receberia muitos pontos se entrássemos a concurso.
Não me recordo quanto pagávamos ou se pagávamos para frequentar a piscina do CFB, mas creio que não foi o eventual pagamento que nos levou a que frequentássemos a piscina poucas vezes, algumas delas na companhia do também Ezequiel Rodrigues, que tinha a conjunto musical “Mikes” e que abrilhantava os bailes daquela colectividade. Pode mesmo ter acontecido ser o Ezequiel Rodrigues a “abrir-nos” a porta daquele polo de convívio e desporto, mas, todos nós, fomos muito mais vezes para o rio Luena do que para o CFB e aqui terá tido grande influência o preferirmos o contacto com a natureza.
Para os operadores de cripto, porque trabalhavam um dia e descansavam dois, os fins-de-semana eram pouco notados a não ser por, ao domingo estarem as lojas fechadas e haver muito mais civis nas ruas, e, logicamente, mais frequentadores da piscina, o que nos afastava daquele local, não por sermos “bichos do mato” mas por preferirmos a descrição.


Foto do site “Os Luenas”


Fotos captadas a 22 de Maio de 1970
As casas onde viviam os militares que não tinham como obrigação pernoitar nos quartéis eram relativamente modestas. Algumas eram garagens adaptadas para que os donos das vivendas aumentassem os seus proventos, outras, um bom quarto independente, com janela, uma bacia e água corrente.
Os operadores de cripto viviam todos perto do Café Universo. Eu, o Francisco Duro e o Fernando Curval vivíamos num pátio em frente aos escritórios da Aerangol, sediados logo a seguir ao Banco Comercial de Angola.
O pátio tinha acesso por um longo corredor, entre os quintais de duas vivendas e ali moravam uma família angolana, no quarto logo a seguir o Ezequiel Rodrigues e o Laranjinha Martinho, no outro, três telegrafistas, entre os quais o Leitão, o tal que dormia “que nem um porco”, a seguir, um polícia e a esposa e o último era o nosso.
A relação entre militares e civis era pacífica e sempre foi pautada pela delicadeza e pela política de boa vizinhança, com a senhora mãe de uma jovem da nossa idade a ser compreensiva quando alguém fazia um pouco mais de barulho, aceitável e compreensível vindo de gente com pouco mais de vinte anos de idade.
A coisa complicava-se quando metia “as forças da ordem”. Ou melhor, quando a esposa do polícia, uma daquelas senhoras de mão na anca, resolvia vingar-se do que considerava ser um sofrimento.
Sabe-se que muitas noites passadas em Angola eram “directas”, mais pelas paródias do que em serviço no Comando e nisto todos éramos pecadores.
O pior de tudo era que, por vezes, na minha ausência, até porque nunca fui dado a jogos, quando eu estava de serviço no ComZML, o meu quarto servia de casino e por muito que as cartas se joguem em silêncio sempre incomodava a vizinha do lado, mais dada a levantar-se com os galos, até porque o esposo também saía cedo para o seu serviço.
A princípio eu não percebia porque é que a vizinha logo que o dia alvorecia acendia o rádio em altos berros, até que acabei por me inteirar as situação e ela explicou-me que era para se vingar do barulho que os meus camaradas faziam à noite.

Em frente à minha casa, onde se vê o negro a lavar a louça

Em frente ao Banco Comercial de Angola (ao lado do Universo)
O senhor Dias era o dono do Café-Restaurante Universo e a malta sentia-se ali bem. A comida era bem confeccionada, as doses não muito caras e os empregados, o Alberto e o Silva, primavam por ser moços simpáticos e eficientes.
Em certa altura o senhor Dias, homem natural de Viseu, deve ter pensado em descansar um pouco e alugou ou trespassou o estabelecimento a dois irmãos, um deles dono de um dos dois taxis da cidade, mas de que não me recordo os nomes.
As coisas mudaram no verdadeiro sentido da palavra.
Os novos donos não tinham a simpatia nem a paciência do senhor Dias para aturar as nossas maluquices e, para além das doses passarem a ser mal servidas, passaram, como é natural que aconteça porque há alguém que pensa que enriquece de um dia para o outro, a ser mais caras.
Com tão radicais alterações, os habituais fregueses do Universo passaram a estar mais tempo noutros cafés e restaurantes, mas sem virar completamente as costas àquele local central, se bem que outros estabelecimentos do género houvessem ali perto.
Havia outro pormenor que nos levava a não abandonar completamente o Universo e essa atitude ficou a dever-se ao facto de por ali estarmos até altas horas da madrugada e só saíamos quando havia outro qualquer café aberto. Por vezes a “directa” só era interrompida pelo simples atravessar de uma rua.
Mas a vida não era só farra e, de três em três dias lá tínhamos que ir ao Comando cifrar e decifrar umas dezenas de mensagens, e por vezes todos tínhamos que trabalhar até altas horas da madrugada.
Nesses dias, porque jantávamos cerca das oito da noite, por volta da uma da madrugada havia que comer qualquer coisa e o Universo servia uns bons pregos no prato, o que dava para beber uma ou duas cervejas.
Certa noite, com o Mário Gouveia, natural da Guarda e operador de cripto da Companhia de Construções 2678, destacado no ComZML, pedimos um prego no prato para cada um mas o dito era tão pequeno que o meu camarada Mário não resistiu em chamar o novo proprietário do Universo para lhe dizer: “pedi um prego ou um pionese?”

Mário Gouveia e eu, junto ao Jardim Oliveira Salazar. Nota-se que há um jogo no polidesportivo que ali existia e vê-se também a cripta da torre da Catedral do Luso.
A moda nos anos setenta não primou pelo bom gosto e para aferirmos isto basta darmos uma olhadela pelas fotografias que nos mostram as roupas que se usavam por alturas do 25 de Abril. Mas as pessoas que viviam no Luso, militares e civis, tinham oportunidade de comprar vestuário que vinha em grandes fardos, da América, e por isso foram por nós baptizadas de “Pierre Fardin”.
Os que optavam por vestir um estilo mais clássico, que eram a maioria, escolhia modelos de camisas com os botões no colarinho, que começavam a aparecer na altura, e cores que não fossem muito espampanantes. Havia também modelos muito espectaculares, com grandes estampados, quer florais, quer de marcas de empresas americanas. Estes não caíam no goto dos militares continentais.
Sempre que tínhamos notícia da chegada de fardos às lojas, lá estavam os operadores de cripto, que era quem tinha mais disponibilidade de tempo para andar às compras e encima daqueles acontecimentos. Isto dava-nos possibilidade de sermos os primeiros a escolher e, “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é parvo ou não sabe da arte”. Claro que não se tratava de repartir mas sim de escolher e nós éramos os primeiros.
Quem nos fazia concorrência, nesta azáfama, eram as esposas dos militares que estavam aquartelados no Luso. O bom gosto feminino às vezes era suficiente para nos levarem à palma uma ou outra peça de roupa onde já tivéssemos colocado o olho. Foi com elas que aprendi a escolher as camisas inspeccionando primeiro se os colarinhos e os punhos começavam a estar puídos ou não.
Adquiri trinta e seis camisas de fardo, que não eram muitas, visto que muitos amigos, principalmente das Companhias de Comandos, que quando regressavam das operações na mata, vinham a minha casa vestir-se à civil para dar uma volta ou ir a uma farra, muitas vezes um baile no Ferrovia.
Compravam-se também casacos e calças, sendo os primeiros necessários para os bailes.
As camisas eram adquiridas a trinta escudos e, mais tarde a trinta e cinco. Um casaco custava noventa escudos.


As fotos tiradas perto do Café-Restaurante Pic-Nic e no Ferrovia, mostra roupa comprada em fardo.
Nos vinte e um meses em que estive em Angola só tive arma quando fiz a viagem de Luanda para o Luso, o que aconteceu de 8 a 11 de Março de 1970 e no dia 23 de Março de 1971, quando os operadores de cripto e os operadores de mensagens tiveram de ir para a carreira de tiro da BTR 522.
Foi divertidíssimo porque tivemos oportunidade de fazer algo que saísse da rotina que nos levava a passar a vida entre cafés e restaurantes e, de três em três dias de serviço no Comando da Zona.
E lá fomos. Não me recordo como, mas deve ter sido de jeep porque havia muitas viaturas desse tipo no pátio.
Como adoro fazer fotografia não dispensei fazer-me acompanhar da minha Canon 1.2 e lá fui ocupando o tempo protagonizando uma autêntica “reportagem de guerra”, e quase cometendo o “crime” de estar a fazer concorrência ao foto-cine do ComZML, o furriel miliciano Luís Cruz, que tinha outras obrigações mais importantes do que fotografar os militares que nunca vestiram um camuflado mas assim tiveram oportunidade de enviar fotos naquela figura para as famílias.
Como todos os meninos gostam de brincar com espingardas, nem que seja para parodiar polícias e ladrões, os jovens militares, com os seus vinte e poucos anos de idade, divertiam-se sempre que eram chamados às linhas para fazer fogo e ficavam radiantes quando acertavam no alvo, como quem enche o ego, já que não lhes era dada hipótese de atingir qualquer inimigo, porque estavam numa guerra em que o seu papel era de retaguarda.
A certa altura dirigi-me ao alferes responsável pelo grupo de “atiradores” e devolvi-lhe o pacote com as quarenta e oito balas, dizendo-lhe que preferia disparar com a máquina fotográfica, porque fazia menos barulho.
Porque também era jovem, embora mais velho do que muitos dos meus camaradas porque já tinha feito os vinte e quatro anos, entretinha-me a pontapear os invólucros, ainda no ar, quando saíam a rodar das FN.
E para que não se dissesse que tinha estado na carreira de tiro e não tinha disparado, gastei três rolos de película o que quer dizer que disparei mais de cem vezes.

Eu com os operadores de mensagens Júlio e o Pinto

Qualquer militar tem direito a uma boa cerveja, mesmo que não esteja fresca
No início dos anos setenta, falar em automóveis para a maioria do nosso povo, era assunto que muito pouca gente entenderia o que se queria dizer com o assunto. Isto para dizer que, apesar de tudo, no Luso, no Leste de Angola, lá no centro de África, onde o Diabo perdeu as botas, havia muitos automóveis se atendermos à população que ali vivia.
O Luís Cruz chegou a deslocar-se a Luanda, com amigos para irem buscar um BMW, um último modelo, pois o automóvel era uma forma de marcar a diferença social entre os civis.
O presidente da Câmara Municipal tinha um bonito Audi 100, como se impunha para um detentor de cargo oficial. O mesmo acontecia com os Mercedes dos militares.
Mas recordo-me de um mecânico ter dito a um cabo da Polícia Militar que ali ocupava os tempos livres a fazer uns biscates para ganhar mais uns tostões que deveria comprar um automóvel porque a sua posição social já o exigia.
O nosso amigo militar fez ouvidos de mercador porque as suas grandes deslocações eram feitas nos jeeps da PM e para andar na cidade todos os locais eram “já ali”.
Ainda tenho presente o pormenor de uma senhora que morava num pátio ao lado do Luso Hotel, mais precisamente em frente à casa de gelados “Apolo 12”, que para se deslocar à loja da esquina logo a seguir ao Hotel, se meteu no carro e fez a viagem.
E quem não se lembra das grandes passeatas que toda a gente que tinha automóvel dava ao domingo à tarde pelas ruas do Luso.
Até o alferes Martins, que em finais de 70, início de 71, foi para o Luso comandar o pelotão da PM, se apressou a comprar um Fiat 850. Uma máquina que não lhe dava para mais nada a não ser para quando queria ir ao café ou ao cinema.
Aliás, no dia em que chegou à cidade o Martins protagonizou uma cena caricata. Foi transportado ao café Universo, no jeep com o alferes que ia ser rendido e quando me viu quatro civis na viatura, perguntou: “o que é isto?” e apanhou como resposta: - uma viatura militar com três militares fardados e quatro à civil.
E lá fomos para os Comandos, onde teria lugar a “festa” de recepção aos ilustres “maçaricos”.

Uma velha viatura ligeira de transporte de mercadorias, em Agosto de 1970

Em Janeiro de 1971 este porche ficou neste estado em resultado de um desastre com um Hunimog da CConst 2678. Morreu um furriel
Fernando Diogo era um desenhador publicitário, natural do Lobito, que cumpriu a tropa, entre outras unidades, no ECav 403, também identificado por Dragões. Incorporado no curso de sargentos milicianos em Nova Lisboa, não teve aproveitamento e foi mandado para atirador de Panhard nos Dragões como soldado.
Neste posto, como é evidente, o vencimento não era nada que se visse e as dificuldades financeiras iam sendo cada vez maiores assim como também aumentava o número de credores.
Em determinada altura surgiu a possibilidade do Fernando Diogo ganhar uns tostões. A Feira Comercial do Luso, que teve lugar num recinto um pouco abaixo do Comando Militar, era um bom local para se afixarem uns painéis publicitários que dessem a conhecer alguns estabelecimentos que não tinham outra forma de participar no certame.
Sabendo-me também ligado à publicidade porque desde os dezoito anos de idade tinha ingressado num jornal de província, onde era obrigatório ter vocação para todos os sectores e entre eles a promoção, o Fernando convidou-me para trabalhar com ele no projecto e o atelier foi o seu quarto na residencial onde vivia com uma sua conterrânea.
Como não havia muito tempo para angariação de clientes, passámos a adoptar o sistema do facto “quase” consumado. Fazíamos uma pequena maqueta e deslocávamo-nos ao estabelecimento ou escritório do cliente que acabava sempre por gostar da proposta e aceitava que avançássemos com o anúncio em tamanho real, que tinha mais ou menos 1,20m por 0,80m. O preço era negociado conforme o entusiasmo do cliente perante a maqueta.
Nos três dias que antecederam a inauguração da Feira trabalhámos de dia e de noite e só descansávamos um pouco para ir ao restaurante almoçar e jantar. E aqui o Fernando Diogo tinha um problema. Não tinha dinheiro nem para beber um como de água, o que me levou a não aceitar qualquer dinheiro pelo trabalho que desenvolvi.
Contudo o Fernando Diogo insistiu que eu fosse o recebedor do anúncio da Aerangol e que era 2.100$00, mas ainda hoje o meu grande amigo Diogo não sabe que aquele foi o único cliente que não pagou.

Foto publicada no site dos Luenas, por Manuel Malafaia

Eu no exterior da Feira
O termo “cacimbado” era, para os militares, a forma simpática de dizer que o indivíduo estava mesmo “marado da tola” ou de forma mais clara e entendível, que estava a ficar doido pela pressão do dia a dia.
O muito tempo que já tinha de tropa quando fui para Angola - onde cheguei a 1 de Março de 1970, depois de ter sido incorporado a 31 de Julho de 1968 – já me valia ser rotulado de cacimbado e a prova disso esteve no facto de, na chegada ao porto de Luanda, ao sair do Uíge, o alferes da PM, depois de ter implicado com a forma como eu estava fardado, resolveu virar-me as costas dizendo para o seu subalterno que “este já vem cacimbado”.
O trabalho no Centro Cripto do Comando dava-nos algum “stress” e nem os dois dias de folga entre cada serviço nos permitia a serenidade suficiente para que não fossemos conhecidos pelas maluquices que protagonizávamos.
As noitadas no Luso, quer nos petiscos, quer nas cantigas, ajudavam a que o “cacimbo” nos subisse à cabeça e isso era notório nas passeatas que dávamos e marcado para a posteridade nas fotografias que tirávamos.
Mas o “cacimbo” não apoquentava só os operadores de cripto. O mal era generalizado. E nem os mais sossegados escapavam. Quantas vezes levámos o primeiro-sargento José Azeitona Costa, um pacato cidadão que tinha filhos quase da nossa idade, a pôr-se de pé sobre a cadeira para nos explicar como é que deveríamos receber a taça quando fossemos campeões de futebol de salão.
E quem não conhece a estória do saudoso furriel Pelejão Marques, com os seus 27 meses de comissão e sem saber quando chegava o substituto, a pegar num pequeno avião e a atirá-lo para a secretária do seu chefe de secção, dizendo: “quero ir para o puto”. E a apanhar como resposta: “está a brincar com a tropa?”
- “Não. A tropa é que está a brincar comigo”.
Até eu, um tímido assumido, me sentava em frente ao Centro Cripto, com uma vara a que tinha atado uma corda que por sua vez tinha uma pedra na ponta, como se estivesse à pesca. E quando me perguntavam o que estava a pescar, lhes respondia: “alguma coisa de interesse nesta vida”.

Eu, armado em sinaleiro junto à Casa Universal, perto do Luso Hotel.

Quem não se lembra dos vendedores de gelados.

Falando às massas, mas como de costume, ninguém me ouvia. Perto do Liceu Marcello Caetano.

A viragem à esquerda era a única solução.
Estávamos em 30 de Setembro de 1970.
Os militares que viviam no Luso, e falo por mim, não davam muita importância aos comboios. O “Mala” passava por volta das dez horas da manhã, o que para muitos, quando não estávamos de serviço, era quase de “madrugada”.
Dizíamos que o Sol nos fazia mal à cabeça e não era completamente uma invenção já que as noitadas terminavam, na maioria das vezes, com a claridade do dia e depois de uma “directa” não havia quem suportasse a claridade.
Ao domingo e quarta-feira o “Mala” vinha de Nova Lisboa e ia para Teixeira de Sousa. Era uma passagem às vezes aguardada com algum interesse, porque nos podia trazia gente nova para a cidade, mas nem isso nos impressionava muito, porque nunca tínhamos informação de quem ia chegar. Era uma questão de segurança. As normas obrigavam a sempre que houvesse deslocação de pessoas a mensagem devia ser transmitida em cifra. E como todos tínhamos o hábito de “esquecer” o conteúdo das mensagens quando estávamos fora do Centro Cripto, era claro que não sabíamos quem estava para chegar.
À segunda e quinta-feira a viagem era feita no sentido descendente e quando nos levava alguns camaradas que terminavam a comissão, então sim, lá nos deslocávamos à estação do CFB para as despedidas.
Antes da entrada da composição na estação, em qualquer dos sentidos, a chegada era “anunciada” pelo ATL, uma pequena máquina a diesel, blindada, com umas pequenas vigias, e que seguia umas centenas de metros na frente do comboio para fazer de rebenta-minas e para manter uma certa segurança ao material circulante e aos passageiros.
Para os militares, e certamente para a grande maioria dos civis que viviam no Luso, o caminho-de-ferro ficava num extremo da cidade. Só atravessávamos a passagem de nível, ali ao pé do cinema Luena, quando íamos até ao Ferrovia, para ir à piscina, ou para ir ao baile ou para uma sessão de fados na sala de convívio daquele clube.
No polidesportivo do Ferrovia disputavam-se, à noite, muitos torneios de futebol de salão e foram muitas as manhãs que ali treinámos porque os muitos dias de folga nos davam essa possibilidade.

Perto da estação do CFB, Maio de 1970

No alto da torre de saltos da piscine do Ferrovia.
Vê-se, entre o gradeamento de segurança da plataforma, o aspecto robusto da máquina ATL.
A minha carreira de estudante foi marcada pelo facto de, aos treze anos de idade, ser acusado de comunista e de ter, momentos antes da prova oral do primeiro ciclo, ter sido abordado pelo presidente de júri que me disse que eu iria passar se prometesse não voltar mais ao Liceu.
O não acatar este “conselho” valeu-me o ter visto a assinatura do meu encarregado de educação não ser reconhecida pelo notário, pelo que tive que recorrer a um funcionário da secretaria do estabelecimento de ensino que frequentava para que assinasse o boletim de matrícula, o que lhe valeu ser, meses volvidos, a ser preso e acusado de ser militante do PCP.
Em 1965 ingressei num jornal e em 1970, quando cheguei ao Luso, achei que tinha possibilidades de aproveitar algum tempo para estudar e completar o que até ali não tinha tido “vontade” para fazer.
Na altura andava pelo Luso o furriel Júlio Murraças que comigo passava as manhãs no Pic Nic a estudar. E o entusiasmo era de tal ordem que até aos domingos estudávamos, coisa que nunca tinha feito até ali, pelo que não admitíamos que ninguém nos interrompesse naquela importante tarefa.
Um dia fomos ao Liceu Marcello Caetano para sabermos em que condições poderíamos fazer exames, mas a resposta não deve ter sido muito positiva, porque nunca chegámos a prestar provas.
A curiosidade deste pormenor está no facto de o João, o nativo que me arrumava a casa, me ter pedido para eu lhe dar explicações para fazer o primeiro ciclo dos liceus.
Gostei da ideia e aconselhei o João a seguir em frente com a ideia e depois de ingressar no exército que se dirigisse ao Movimento Nacional Feminino para pedir que lhe dessem livros para fazer o quinto ano a fim de se candidatar a um lugar na Fazenda. Em tom de esclarecimento deve dizer-se que a Repartição de Finanças era conhecida em Angola por Fazenda.
Mas, o que eu não esperava ouvir de um nativo foi o que me disse o João, depois de me ter escutado com atenção e que marca bem como eles viam e sentiam a forma como eram tratados: “isso não é para agente, menino”.


No Liceu Marcello Caetano e tendo este estabelecimento de ensino como fundo
Luena, 3Abril.2004 - O bispo da diocese do Luena, Gabriel Mbilingui, disse hoje, nesta cidade, que o balanço dos dois anos de paz no país é positivo do ponto de vista militar, por corresponder as expectativa dos angolanos.
Para o prelado católico, que falava por ocasião do 4 de Abril, a paz comporta outros domínios, por isso "queremos uma Angola com mais saúde, menos fome e dentro do civismo normal à convivência humana".
No mesmo acto, o delegado da Unita no Moxico, Domingos Oliveira considerou a paz um mérito merecido ao povo angolano e que deve ser acompanhada da estabilidade social.
Por outro lado, considerou que a realização do ultimo congresso do partido que representa constituiu um passo para a reunificação e superação das divergências internas.
O comandante das tropas da terceira região militar no Moxico, general Matias Lima coelho "In Zumbi", destacou, no mesmo acto, que depois da independência, a paz foi a melhor coisa que aconteceu ao povo angolano.
Esclareceu que ela possibilitou o enquadramento nas FAA de elementos que pertenciam as ex-forças militares da "Unita", bem como permitiu uma maior circulação de pessoas e bens em todo o território nacional.
Realçou que esta situação contribuiu no aumento da produção agrícola, incremento das trocas comerciais entre a cidade e o campo e para a redução dos preços dos produtos alimentares básicos.
O comandante apelou ao empenho das FAA na preparação combativa/operativa e a manterem-se apartidárias como forma de consolidar a unidade no seio das forças armadas.
Garantiu que os efectivos que dirige continuarão a apoiar a população, através da desminagem e reparação das vias de acesso as povoações e pontes a fim de agilizar a livre circulação de pessoas e bens.


Fotos do site Os Luenas
Fica mal a qualquer militar, que passou a totalidade da comissão sem sair do Luso, falar de guerra. Os dias eram passados na maior das calmas e, só tínhamos a dimensão exacta do que se passava nas matas do Leste porque estávamos ao corrente do conteúdo das mensagens que eram enviadas para o Comando da Zona.
Para quem cumpria as obrigações de vigilância ou “administrativas” dentro do arame farpado que marcava os limites do Luso, o conhecimento do resultado das operações desenvolvidas a dezenas ou centenas de quilómetros de distância, chegava-lhes por alguns relatos de militares menos contidos de língua, gesto às vezes realçado depois de uns bons finos ingeridos nos muitos cafés da cidade.
Nos vinte meses em que estive no Luso poucas foram as vezes em que fui incomodado com o som de tiros ou deflagrações. Contam-se pelos dedos e duas delas estão datadas.
Ouvi um tiro na passagem do ano, disparado por um militar embriagado, em frente à Casa Universal, na esquina adjacente ao Luso Hotel. Não nos assustámos porque estávamos no Batalhão 2878, junto ao Aeroporto, a festejar o reveillon com o major Rosa Ferreira que nos tinha convidado.
Fomos alertados por uma rajada, que soube mais tarde tratar-se de um assalto ao posto de Polícia, no Lumege, que distava sete quilómetros do Luso e que não teve consequências de maior.
Ouvimos em toda a cidade, o rebentamento, a cerca de dois quilómetros, de uma mina anti-pessoal, que terá decepado o pé a um furriel que transitava na picada da Companhia de Construções 2678.
A 23 de Março de 1971, ouvi muitos tiros na única vez em que os criptos e os operadores de mensagens foram para a carreira de tiro da BTR 522 e em que acabei por devolver as quarenta e oito balas que me foram distribuídas, alegando que preferia disparar com a máquina fotográfica, visto ser este o meu passatempo predilecto.
Ouvimos também, num fim de tarde, um tiro que nos assustou, porque pensámos que tivesse sido o op.cripto Toni, que tinha a mania de meter o cano da G3 na boca enquanto tirava a folga ao gatilho. Mas felizmente aquele tiro foi disparado para o ar.

Duas minas anti-pessoais e uma anti-carro, levantadas pelo Ecav 403, em 1971.

Eu perto do Rio Luena, na picada para a BTR 522, no dia 14 de Novembro de 1970.
A equipa de futebol de salão do Comando tinha bons jogadores, onde se destacavam pela particular habilidade o Francisco Duro, o Mário Gouveia e o Laranjinha Martinho, estes dois “emprestados” ao ComZML porque pertenciam à CConst 2678 e à BTR 522, respectivamente.
O Martinho nasceu em S. Marcos da Atabueira, ao Sul de Beja, donde saiu com cinco anos de idade, para a cidade de Lagos, onde o pai era farmacêutico, profissão que ele também seguiu, e mais tarde viajou para Lisboa, onde se radicou.
Alentejano por nascimento, guardava a calma de um povo habituado a poucos luxos e à sobriedade dos acontecimentos, ao passo que a infância e adolescência numa cidade do Algarve lhe deram a boa disposição que saltava no momento exacto, numa inteligente forma de conjugar o humor com a oportunidade e que o tornava num bom companheiro de todos os momentos.
Laranjinha Martinho chegou ao Luso para render o também operador de cripto Ezequiel Rodrigues e passou a residir na casa deixada vaga pelo “velhinho” líder do conjunto musical “Mikes”.
Os criptos residiam todos perto uns dos outros e isso facilitava para nos reunirmos, quer quando passávamos as manhãs a treinar futebol de salão no campo do Ferrovia, quer para estar à conversa na pastelaria Cristália, na gelataria Apolo 12, nos cafés Universo ou Pic Nic, ou dando um passeio pela urbe.
E o Martinho estava sempre em todas e por isso era estimado pelo colectivo e para isso também contava a sua dedicação ao trabalho quando estava de serviço no CCP da ComZML.
Uma das coisas que caracterizava o Laranjinha Martinho era (e ainda é) o sotaque algarvio. O orgulho nas origens obrigavam-no a ter constantemente que dizer que era natural do Alentejo, o que deixava muita gente na dúvida por causa da pronúncia característica da região de “légus, d’ébo”.
Completava a dupla de criptos da BTR 522 o portista Iglésias, uma figura simpática mas diametralmente diferente do algarvio. E foi essa diferença que fez deles sempre grandes e inseparáveis amigos.

Eu e Laranjinha Martinho, na esplanada da casa de gelados “Apolo 12”, que ficava frente ao Luso Hotel, no dia 2 de Agosto de 1970