maio 28, 2004

No Largo 28 de Maio

É costume dar como princípio que os militares não terão muito (ou mesmo nada) a ver com a política, mas na prática tal não corresponde muito à verdade.

E a prova disso passa por muitas das datas que estão gravadas na nossa História se ficarem a dever a acções perpetradas por quem tem, na altura, o poder das armas.

Se nos dias que correm, e estamos a falar de trinta anos pós-25 de Abril de 1974, ficamos admirados quando os jovens, na sua maioria, pouco ou nada saberem do que foi “a acção libertadora do Movimento das Forças Armadas”, que devolveu aos portugueses a liberdade que alguém lhes tinha sonegado quase meio século antes, também não podemos ficar admirados quando encontrávamos muitos dos combatentes da Guerra Colonial que não faziam a mínima ideia do significado do dia 28 de Maio, que deu nome a tantas praças e ruas, quer do Continente, quer de cidades das então chamadas Províncias Ultramarinas.

A bem arrumada e planeada cidade do Luso, no coração do Leste de Angola, tinha, como não podia deixar de ser naquela época, um Largo 28 de Maio, que, para avivar a memória de quem ali viveu ou passou no cumprimento das suas obrigações como militar, tinha como referencial os estúdios do Rádio Clube do Moxico.

Desde os primeiros dias passados em África a nossa estada ficou marcada por ligeiros conflitos motivados pelas opções políticas que nos norteavam e que eram conhecidas por posições assumidas no 1.º de Maio, com almoços comemorativos entre os conterrâneos e diariamente demostrados pela literatura que nos ocupava o tempo e o espírito.

Dizia-nos a experiência da prática de cifra, tal como tínhamos aprendido na militância política, que por vezes eram necessárias manobras de diversão para despistar o adversário e isso foi tornado prática com “romagens” ao Largo 28 de Maio, no dia do calendário, para registar em fotografia a data e o local.

Foi assim que procedemos no dia 28 de Maio de 1970 e um ano volvido o gesto foi repetido, para que as fotografias pudessem “mostrar que o regime contava connosco”...


No Luso, no dia 28 de Maio de 1971.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:31 PM | Comentários (2)

maio 19, 2004

OMS distribui medicamentos

(Cazombo, 19.Maio.2004) - Setenta e oito lotes de medicamentos diversos foram entregues no início desta semana às unidades sanitárias dos municípios do Alto Zambeze e Bundas, na província do Moxico, pelo representante local da Organização Mundial da Saúde (OMS), Albino Lohoka.

Constam dos medicamentos, inseridos no programa de cuidados mínimos de saúde da União Européia, vinte e quatro lotes de fármacos essenciais, quinze para saúde reprodutiva, três de cirurgia e dezassete para o tratamento de infecções de transmissão sexual.

O responsável da OMS explicou que estas localidades foram escolhidas pela sua organização porque são as mais carentes e possuem maior número de pessoas regressadas das repúblicas Democrática do Congo e da Zâmbia.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 04:41 AM | Comentários (2)

maio 10, 2004

'Maça do Puto'

Os militares que estavam “desarranchados” tinham que tomar as refeições em restaurantes, pois não tinham condições para as confeccionar. Havia também a hipótese de contratar com o restaurante o fornecimento da refeição no domicílio e à hora certa o jovem preto lá aparecia em casa com o terno onse transportavam a sopa, o segundo prato e a sobremesa.

Eram muitos os estabelecimentos de restauração que havia na cidade mas para que não corrêssemos o risco de nos fartar de determinado tipo de comida, tínhamos como hábito mudar de restaurante todos os meses.

Nos últimos dias do mês negociávamos as melhores condições para celebrar contrato para o período seguinte embora às vezes tivéssemos que optar por um menos barato para aumentar a hipótese de variedade.

Em quase todos os restaurantes os empregados eram gente simpática que, apesar da humildade, que muitas vezes era “compensada” com humilhação, quer por parte de clientes que pouco deviam às regras de bem estar em sociedade, quer também, nalguns casos, maltratados pelos patrões que sabiam que os estavam a explorar.

Junto ao Cine-Teatro Luena havia um restaurante que tinha uma particularidade que era bastante agradável. A sala de refeições era no jardim que tinha uma decoração simples mas engraçada. As mesas eram separadas por umas grades em betão, que davam a ideia de privados mas permitindo a visibilidade em todas os sentidos.

O empregado, Silva de seu nome, gostava de se intitular o “preto mais bonito do Luso”. Não sabemos se o era ou não, mas o à vontade com que se elogiava fazia dele, se não “o mais bonito” pelo menos o mais engraçado e comunicativo.
Como tínhamos sempre tempo de sobra, aproveitávamos todos os momentos para larachas e não reclamámos quando quisemos saber o que era a sobremesa e nos respondeu:
-“Maça do Puto, minino”.
-Deixa-te de conversas. Diz lá o que é a sobremesa...
-Minino, a sobremesa é “maça do Puto”.
-Não brinques, trás lá a sobremesa...

E o Silva, bem sorridente, apareceu com um belo pêro, que ficámos a saber que era do Continente.

E “traduzindo”, a sobremesa era “maçã do Continente”.


Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:50 PM | Comentários (0)

maio 09, 2004

Reabilitação do CFB

Encontro do Luena vai propor aceleração da reabilitação do CFB

(Luena, 8.Maio.2004) - Ngoi Mukena Lusa-Diese, governador da província congolesa de Katanga, disse este sábado, que o encontro do Luena vai propor aos governos centrais de Angola e da República Democática do Congo (RDC), a aceleração da reabilitação e reabertura do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), noticia a agência AngolaPress.

Segundo Ngoi Mukena, o início das actividades mineiras na província de Katanga depende do funcionamento do CFB, de forma a facilitar a evacuação da produção para o oceano Atlântico.

Recordou que antes do início de guerra em Angola, Katanga era abastecida a partir deste país em produtos petrolíferos, alimentares e outros.

Para ele, a reabertura do CFB marcará o arranque do movimento de pessoas e bens, em geral, e ao comércio das províncias do Moxico e Katanga, em particular.

O governante congolês que defendeu a existência da comissão bilateral entre as duas províncias, propôs também a criação de uma outra tripartida que integrará a província do Soluezi (Zâmbia).

Estas comissões, esclareceu, servirão de triângulo para o crescimento económico e cultural, bem como deverão acelerar o bem estar social das populações das três províncias vizinhas (Moxico-Katanga-Soluezi).

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 02:40 PM | Comentários (2)

maio 08, 2004

Dois taxis na cidade

A cidade do Luso tinha, enquanto lá vivi, de Março de 1970 a meados de Novembro de 1971, dois taxis e ainda hoje, volvidos mais de trinta anos me questiono acerca da rentabilidade daquela duas micro empresas de transportes.

A prova de que o negócio não seria muito lucrativo está no facto de um dos proprietários se ter dedicado à restauração tendo passado a gerir, com o irmão, o Restaurante e Casa de Chá Universo, visto que o senhor Dias, saturado das noitadas que a malta ali passava, deve ter considerado que já estava entrado nos anos e que amealhara o suficiente para pensar na reforma e, certamente, rumar até Viseu, sua terra Natal.

O Luso tinha um parque automóvel considerável, com boas marcas para altura e carros relativamente bem conservados pois a quilometragem não lhes causavam grande desgaste porque os percursos eram curtos e raros.

As voltinhas que os carros davam pela cidade eram mais ao domingo do que ao dia de semana, onde apenas se colocava a viatura em marcha para ir ao cinema e pouco mais.

É certo que todas as famílias tinham automóvel mas a cidade era pequena e tudo era central.

As deslocações à cidade de Henrique Carvalho e outras localidades, processavam-se em coluna com apoio militar e aí era mesmo necessário ter viatura própria para não ter de se sujeitar a viajar no machimbombo juntamente com galinhas e outro víveres.

Mas se o automóvel era tido mais como um sinal exterior de riqueza do que uma necessidade para o trabalho ou para o dia a dia, utilizar o taxi seria coisa mesmo muito rara que nunca me lembro de ter visto na minha estada na capital do Moxico.

Numa das voltas pela cidade, acompanhado pelo Amadeu Verdasca Reis, reparei que um dos taxis estava na oficina, certamente para cuidar da manutenção, pois havia que estar sempre operacional.

Vendo o carro no “estaleiro” comentei para o meu companheiro de giro que o outro taxi é que estava a ganhar com o facto de estar sozinho na praça. Mas, com o seu grande espírito de humor, Amadeu Verdasca retorquiu: -“porquê, tem a sombra só para ele?”

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:49 PM | Comentários (1)

maio 07, 2004

Mal fardados

Todos os dias o centro de cripto do Comando Militar da Zona Leste era invadido por dezenas de mensagens que nos mereciam, todas e de igual modo, a maior atenção, quer chegasse classificada de «confidencial», «secreto» ou «muito secreto» e tivesse que ser trabalhada consoante fosse de «rotina», «urgente», «imediato» ou «relâmpago».

Chegavam-nos mensagens, algumas extensas, que eram relatórios sem fim do dia a dia das unidades que estavam dependentes do ComZML e outras que anunciavam a deslocação de um ou vários militares. Havia também missivas que davam a conhecer ataques que os aquartelamentos sofriam e outras que davam a conhecer que se iriam realizar determinadas acções. Estas tinham prioridade sobre as que já estavam para ser cifradas ou decifradas.

Embora houvesse dias, como será evidente, em que o movimento no centro de cripto era mais ou menos de dar sono, o certo é que por vezes não tempo nem para pensar um bocado.

Não eram feitas estatísticas do movimento diário das mensagens recebidas e expedidas, nem de quais os sistemas que eram utilizados para se ficar a conhecer o teor dos textos recebidos.

Um dia recebemos uma mensagem que anunciava a visita ao Luso de um grupo de oficiais superiores da África do Sul e o Quartel General, em Luanda, recomendava que não se permitisse que os «fiéis» e os «flechas» andassem nas ruas da cidade pois andavam sempre muito mal ataviados e isso poderia ser desprestigiante para a nossas tropas.

Como na mensagem estava mencionado o dia da visita dos oficiais da África do Sul, o que coincidia com um serviço da minha equipa, eu e o Fernando Curval combinámos ir de calções, meia alra (como se impunha), camisa, gravata e blusão.

Como não bastasse o estarmos de calções e blusão, o que era um contra-senso, resolvemos colocarmo-nos à esquina do gabinete do capitão-capelão, que ficava mesmo perto da entrada da parada e junto à entrada do edifício do ComZML, local donde era bem visível que estávamos com os blusões bem curtos, deixando mostrar quase um palmo da camisa, já que os calções ficavam bem descaídos na cintura.


O Fernando Curval e eu, na noite de Natal de 1970, no Centro de Mensagens do Comando. Eu estava de serviço e todos os camaradas foram passar aquela noite comigo.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:52 PM | Comentários (2)

maio 06, 2004

A festa do futebol

As noites no Luso eram sempre aproveitadas da melhor maneira. As noitadas nos cafés muitas vezes eram substituídas por torneios de futebol de salão, disputados no campo de jogos no jardim Salazar, em frente ao café Chave d’Ouro, ou no campo do Ferrovia.

Quase todas as unidades tinham uma equipa e a estas juntavam-se as várias equipas de civis, algumas delas representando empresas.

Claro que as grandes claques eram constituídas pelos militares dos quartéis em competição, assim como os amigos ligados aos clubes e empresas da terra.

Para animar tudo isto as muitas jovens que havia no burgo não regateavam apoios a esta ou àquela formação e, para que se fique com uma ideia do número de espectadores, basta dizer que quem não arranjasse lugar uma hora antes dos jogos começarem dificilmente arranjariam lugar.

Como havia que entreter as pessoas antes do jogo começar aparecia sempre alguém que pegava numa viola e se predispunha a entoar umas cantigas.

Um dos animadores, embora tivesse ido poucas vezes ao Luso, pois era enfermeiro no Batalhão de Henrique Carvalho, era o furriel António Ribeiro, que tinha mais vontade do que aptidão, mas que era escutado com bastante atenção, mesmo sabendo-se que as condições acústicas não eram as melhores, quer pela ausência de amplificação sonora, quer por se estar num recinto aberto.

Sem grandes preocupações de organização as claques acabavam por se formar e formavam-se autênticos ambientes de festa a que poucas vezes o resultado tinha influência na boa disposição.

Os operadores de cripto, os operadores de mensagens, bem como os telegrafistas e os escriturários do Comando da Zona Leste eram, pelo tempo de que dispunham e por estarem a viver na cidade, que o fizessem no quartel ou em residências próprias, os grandes frequentadores dos dois campos onde os jogos se disputavam.

Mas o melhor que estes encontros tinham é que acabavam sempre numa cervejaria ou num restaurante e, depois de se terem juntados os atletas a festa acabava lá para as tantas, mas sempre em condições de na manhã seguinte se recomeçar o trabalho.


O furriel António Ribeiro, em plena actuação, no recinto do Ferrovia



Militares do ComZML, no Ferrovia

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 04:24 PM | Comentários (2)

maio 05, 2004

Pijama camuflado

Contam-se sempre muitas histórias dos tempos de tropa. Os mais novos não apreciam que os avós relatem os bons e os maus momentos que viveram desde a recruta até ao dia em que passaram à disponibilidade.

É verdade que os primeiros dias vividos num quartel marcaram para sempre a vida do militar. A recruta era, por definição, o período de adaptação a uma nova forma de estar na vida e de preparação para a defesa da Pátria, quer se estivesse em Portugal, quer se fosse mobilizado para ir defender as colónias.

Há muitos relatos - nem tantos quanto seriam necessários – do que os nossos militares fizeram de desagradável a populações indefesas, mas também ao que sofreram na Guerra Colonial desde 1961 até 1974, mas não estão descritas muitas das situações caricatas que se viveram nas regiões, que apesar de definidas como perigosas, eram de uma pacatez de provocar sono face à falta de actividade.

Era tradicional, nos primeiros dias de tropa convencer-se o recruta a ir à arrecadação buscar a pedra de afiar as estrias. Era uma forma de humilhar quem entrava num quartel pela primeira vez, como se isso contribuísse para a amadurecimento da personalidade de alguém.

Em África também se faziam partidas aos maçaricos. Algumas vezes se deparava com gente que acabara de chegar à cidade, com uma escada às costas para ir apanhar abacaxis, como se tal fruto não fosse rasteiro, mas tudo acabava em volta da mesa de um bar com umas cervejas de permeio.

Mas havia estórias mais giras atribuindo-se o protagonismo a superiores que não mereciam a simpatia de quem era obrigado a obedecer.

Contava-se, normalmente à mesa na Pastelaria Cristália, bastante frequentada por militares dos Dragões, que um alferes daquela unidade que não recebia a unanimidade das opiniões favoráveis quando se falava em simpatia, que exigia que os praças dormissem de pijama camuflado porque não admitia ninguém à civil na unidade.

Ao alferes era atribuída a fama de grande militarista por, além de outras coisas, não permitir que os praças trajassem à paisana na cidade.

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:57 PM | Comentários (1)

maio 04, 2004

O bigode e a PM

Nunca tinha pensado usar bigode nem barba. Não tinha nada contra as pessoas que deixavam crescer os pelos do rosto e reconheço até que foi uma moda nos finais dos anos sessenta, altura em que fui obrigado a ingressar no serviço militar.

Desde que a “penugem” começou a tomar forma de barba, passei a utilizar a “gillette” para me barbear. Quando ingressei no Batalhão de Caçadores 8, em Elvas, o rigor militar era sentido no mais pequeno pormenor e no Regimento de Artilharia Ligeira 4, em Leiria, deixou de ser rigor e passou a ser um tormento, chegando-se ao ponto de um director de instrução se preocupar em passar com um papel pela cara dos militares para punir a praça cuja barba se sentisse à passagem daquele “instrumento de inspecção”.

Porque as coisas ruins vão provocando revolta, quando cheguei ao Luso, dei por mim a não me barbear nos dias em que entrava no Comando da Zona Militar Leste, às oito horas da manhã.

Este gesto de “indisciplina” nunca foi reprimido e para isso deve ter contribuído o facto de poucas vezes ter cumprido aquele horário, pois como cada equipa só estava de serviço de três em três dias e como na maior parte das vezes trabalhava de tarde ou de noite, lá fui passando. Convém dizer que quando entrava mais tarde me barbeava porque quando andava à paisana não dispensava apresentar-me decentemente.

Como qualquer militar tem direito a um mês de férias por ano, aproveitei estas licenças para deixar crescer barba e bigode, embora ao fim dos primeiros quinze dias tivesse optado por ficar só com o bigode.

Mas nestas coisas há sempre quem esteja convencido de que está a zelar pelos interesses da Pátria e o nosso amigo Zeca Curto, meu conterrâneo e furriel da Polícia Militar, resolveu “incomodar-me” perguntando-me se eu tinha licença para usar bigide, respondendo-lhe que estava de férias e automaticamente autorizado.

Como nem tudo se conta à Polícia, nunca expliquei ao camarada de Setúbal e amigo – até porque na tropa não há amigos - que um militar, mesmo de licença, não pode alterar a sua imagem fisionómica.


Na esplanada da Pastelaria Cristália, em férias

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:48 PM | Comentários (1)

maio 03, 2004

Quimbo

As centenas de milhares de militares que tiveram que dar dois anos da sua preciosa juventude – alguns não viveram mais do que isso, porque uma bala traiçoeira, uma mina covarde ou um desastre numa curva da cidade, o levou para o Oriente Eterno – não tiveram todos as mesmas vivências em terras de África.

Mesmo os que cumpriram serviço militar em Angola tiveram dias muitos diferenciados uns dos outros, tudo dependendo da região para onde tinha sido destacado.

Nós, os que estávamos na cidade do Luso, quer os do Comando da Zona Militar Leste, quer os que estavam nas unidades ali sediadas, compreendíamos bem o que os verdadeiros operacionais sofriam. Aliás, nestas unidades, como os Comandos e o Batalhão, bem como os Dragões, tinham dias difíceis quando tinham que se embrenhar na mata.

Mas os que levavam a vidinha na cidade, número onde me incluo, tinham outras preocupações e algumas prendiam-se com o perceber as condições miseráveis em que viviam as populações nos quimbos.

Já aqui fizemos referência às bonitas e espaçosas vivendas que decoravam as bem desenhadas artérias da cidade, onde nos trajando as nossas melhores indumentárias, recreávamos, calcorreando horas sem fim, no intervalo de umas bebidas e refeições que tomávamos nas muitas salas similares de hotelaria.

Aos quimbos íamos apenas para tirar fotografias, e às vezes dávamo-nos ao luxo de vestir o camuflado - farda que nunca envergávamos a não ser para a deslocação de Luanda para o Luso e depois no regresso, e também na carreira de tiro - pois não teríamos outra oportunidade de mostrar à família um verdadeiro cenário de África. As “casas” de barro com telhado de colmo, onde para se entrar tínhamos de baixar a cabeça porque as paredes eram mais baixas do que um homem de estatura mediana, não nos mereciam outra atenção que não o servir de fundo para a fotografia.

E era este o pretexto que nos leva até aos bairros periféricos onde para chegar tínhamos que atravessar o arame farpado.

Enquanto que na cidade muitos eram os modelos de vivendas, nos quimbos as “casas” eram de modelo único.


Na picada a caminho do Rio Luena, em Abril de 1970

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 11:47 PM | Comentários (1)

maio 02, 2004

Diamantes

O Leste de Angola, sempre se disse, seria muito rico em diamantes.
O facto de existir na cidade do Luso um bonito quarteirão conhecido como a sede da Diamang, levava a que muita gente pensasse que os diamantes apareciam por ali como quem apanha ervas azedas em terreno baldio.

Quantas vezes as rodas militares não detinham nativos acusando-os de turras só porque eles, na ingenuidade de gente simples que eram, confessavam que “andavam nos pedrinha”.

Esta expressão era, para muita gente, o bilhete de identidade sonoro, a confissão, de que era turra.

Se a isto se juntava o facto de o preto não ter cartão de contratado devidamente preenchido pelo patrão, então era mais do que certo de que o “desgraçado” seria entregue aos cuidados da PIDE-DGS.

O edifício da Diamang, na rua do Café Universo, era um belo edifício de um único piso, mas, porque para lhe aceder era necessário subir pouco mais de meia dúzia de degraus, fica a ideia de que teria cave.

Largas janelas e portas transmitiam-lhe a luminosidade de um edifício moderno e acolhedor.

Desde manhã cedo eram visível, diariamente, um conjunto de empregados limpando com esmero e devoção, todos os vidos bem assim como o piso dos patamares e até do jardim envolvente.

Toda esta riqueza tinha alguma influência nas pessoas que viviam na cidade e os militares não eram alheios a essa influência.

Não se pode dizer que as conversas sobre diamantes, “feijões”, “pedras”, “pedrinhas” ou outra coisa, fosse diária, mas por vezes era tema de animadas e discretas discussões.

Sabíamos de que, como em tudo, há o falso e o verdadeiro e, isto dava-nos a segurança suficiente para que as cautelas fossem tomadas como os caldos de galinha.

Mas, havia que não se acautelasse e se atirasse de cabeça para um negócio que não era de certeza interessante para quem estava de passagem.

A mais flagrante das estórias conhecidas entre militares foi a de um alferes acabado de chegar ao luso que pensou que teria descoberto um filão e comprou uma macheia de pedras que mais não seriam de que “torrões de açúcar”...


Eu junto ao muro da Diamang


Diamang à esquerda

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 09:00 PM | Comentários (1)

maio 01, 2004

Comemorar o 1.º de Maio

Desde miúdo que comemorei o 1.º de Maio. Nos tempos de Liceu era costume irmos para o campo, com o pretexto de convivermos com as moças apanhar flores, mas não dispensávamos uma pequena intervenção de agitação, mais ou menos política, dependendo esta do grupo que se formara.

Quando iniciei a profissão de jornalista, a 27 de Abril de 1965, apanhei logo o feriado do 1.º de Maio que era extensivo a todos os trabalhadores dos jornais e tipografias..

Cheguei a Angola no dia 1 de Março de 1970 e tive a sorte de não estar de serviço no Comando da Zona Militar Leste no dia 1 de Maio desse ano, pelo que o pequeno grupo que estava preocupado com alguma actividade política não teve dificuldade em se organizar para uma pequena evocação da data, que eu estava habituado a comemorar

Em 1971, as coisas complicaram-se porque, pela escala no ComZML eu estava de serviço mas troquei com um outro camarada, embora não pudesse dizer porque motivo o fazia.

Mas nestas coisas há sempre alguém que está atento e nos chama a atenção, como foi o caso do primeiro-sargento José Azeitona Costa, que já me alertara para a vantagem de não levar a revista Seara Nova para o Centro Cripto, e “estranhou” o facto de eu ter trocado o serviço, visto que nunca o fazia.

Colmatado que estava o ligeiro contratempo que eventualmente poderia provocar alguma acção de repressão, havia só que colocar o plano das comemorações em marcha. E este estava traçado. Um almoço em minha casa com os militares de Setúbal que estavam no Luso, Etelvino Damásio, Francisco Duro, António Caneira, José Curto e Abílio Simplício.

Escolhemos a minha casa porque, se bem que normalmente tomássemos as refeições nos restaurantes, ali estaríamos mais protegidos de olhares curiosos do porquê daquela reunião à mesa.

E porque nem todos tínhamos os mesmos interesses políticos, ou pelo menos a mesma percepção dos riscos que se corriam por revelar os objectivos que nos levavam a tomar determinadas atitudes, diluímos a acção com passagens por cafés e passeios pela cidade, dando a ideia de que era um dia normal.


António Caneira, eu e Etelvino Machado, em minha casa no dia 1 de Maio de 1971


Militares do Luso comemorando o 1.º de Maio, em Setúbal, em 1973

Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em 01:13 PM | Comentários (1)