A história mais recente de Angola, essa que remonta da década de cinquenta até à data, tem no Moxico, uma referência obrigatória, senão pela negativa, pelo menos, pela positiva. "Eleita", desde muito cedo, como um sítio geo-estratégico, no quadro da feitura da independência e da conquista da paz, consentiu enormes prejuízos, alguns por inventariar e outros por reparar.
O Jornal de Angola traz-lhe aqui uma radiografia sobre a maior província de Angola.
Moxico regenera-se quase do nada
A província do Moxico, berço da paz de que os angolanos usufruem, há quatro anos, reergue-se dos escombros da guerra, com semelhante lentidão de quem sofreu fortes golpes nas suas áreas mais vitais, ao ponto de perder a estabilidade necessária para caminhar com as suas próprias forças.
Com infra-estruturas económicas completamente destruídas e as sociais total ou parcialmente degradadas, na sua maioria, os esforços de reconstrução nacional exigem, nessa parcela do país, esforços acrescidos.
O seu agregado social, calculado acima de 800 mil habitantes, dos quais cerca de 50 por cento são menores de 18 anos, acusa baixos índices de desenvolvimento humano, sobretudo nas zonas rurais onde, calcula-se, vive mais de metade da população, exposta, como todos os mortais, aos males do seu tempo e lugar, desde doenças transfronteiriças que, no caso, vêm da República da Zâmbia, ao êxodo de refugiados fugidos da República Democrática do Congo, dois países com os quais a província partilha fronteira.
Aquele com taxas consideráveis de seroprevalência do HIV e, este, a braços com uma instabilidade político-militar.
A sua cidade capital, Luena, que em tempos ainda memoráveis, foi a "menina bonita" do Leste de Angola, graças a sumptuosidade das suas vivendas, ora aglomeradas num só sítio, como são os casos dos bairros "Santa-Rosa", "Passa-Fome" e "Chifuxi", ora intercaladas por prédios de média altura, que em combinação com as suas largas artérias abundantemente arborizadas, levaram as autoridades coloniais a baptizá-la por "Vila Luso", está hoje reduzida a um amontoado de escombros. O preço da sua localização geográfica que a fez palco de alguns dos mais aterradores confrontos armados.
A praga de construções anárquicas que afecta grande parte das principais cidades do país não poupou o Luena. Para frente ou para trás, para direita ou para esquerda, erguem-se verdadeiros guetos, consubstanciados em aglomerados de casas de adobes, como que a murar a cidade de alcatrão, deixando-a sem espaço para a sua expansão.
Um despacho do governador do Moxico, João Ernesto dos Santos, que desde há mais de dois anos ordenou a pintura de, pelo menos, a parte externa dos edifícios situados na casta urbana da cidade, colidiu com a realidade da província, onde os materiais de construção além de escassos custam "os olhos da cara".
O saneamento básico no Luena não é lá muito famoso mas, neste particular, a capital do Moxico supera, pela positiva, muitas das suas "congéneres", embora a cidade se preste a uma manutenção mais aturada e, por conseguinte, com toda susceptibilidade de oferecer um ambiente mais arejado, tendo em conta a excelente rede de esgotos de águas pluviais que possui e a baixa produção de resíduos sólidos por parte dos seus habitantes.
A distribuição, quer de energia eléctrica quer de água potável processa-se ainda de forma rudimentar e mesmo assim, um e outro bem, escapam ao bolso do cidadão de baixa renda, condenados, por isso, ao recurso a fontes alternativas. "O líquido da vida" chega ao consumidor através de camiões cisternas cujos proprietários vendem-no na medida de 1 tambor de 200 litros por 300 Kwanzas. Mas isso é para quem vê uma bagatela neste montante, porque a maioria esmagadora da população que, com esse dinheiro garante uma refeição modesta para os seus, estes demandam os rios, percorrendo distâncias quilométricas diariamente, com baldes ou outros recipientes à cabeça na busca de água.
A energia eléctrica, fornecida das 18 às 20 e tais horas, a partir de uma mini-central termoeléctrica, mal chega a todos que dela necessitam, não tanto pelos níveis de produção mas, sobretudo, pela inexistência de uma rede de distribuição funcional, porque a que havia na era colonial o tempo destruiu o quanto pode e os seus resíduos acusam insuficiência face as necessidades reais do burgo.
Hoje, os habitantes do Luena vivem sob qualquer coisa como um céu falso, uma espécie de tecto falso que, no caso, é um amontoado de fios de toda estirpe condutores de energia eléctrica que cruzam árvores ornamentais da cidade, atravessam casas, enfim, povoam o espaço aéreo, com todos prejuízos estéticos daí resultantes a agravarem a já pálida imagem da cidade, enquanto o roncar de geradores individuais escutam-se, noite a dentro, de esquina em esquina, para o desconforto dos que, não tendo possibilidades para adquirir o menos caro dos geradores - esses que custam perto de 8 mil Kwanzas - vêem-se "condenados" ao recolher obrigatório, instantes depois do jantar.
Desenvolvimento vem... de comboio!
O desenvolvimento do Moxico passa, forçosamente, pela reabilitação do Caminho de Ferro de Benguela (CFB) que atravessa o espaço territorial da província, ligando Angola, apartir do Lobito, às repúblicas do Congo Democrático e da Zâmbia.
O defensor da tese, Álvaro Coutinho, director provincial da Indústria, Comércio, Hotelaria e Turismo do Moxico assenta a sua opinião no facto daquela linha ferroviária ter sido, com toda a incontestabilidade de que se revestiu até, pelo menos, 1975, como um polo de desenvolvimento da região leste do país.
A construção de uma barragem hidroeléctrica, a formação de quadros especializados nos mais diversos campos da ciência e tecnologia e a recuperação do parque industrial da província, são apontados por Álvaro Coutinho como sendo parte dos factores estruturantes para o desenvolvimento da província.
A província "domicilia" no seu subsolo um acervo diversificado de recursos naturais, dentre os quais se destaca o cobre, carvão, manganês, diamantes, volfrâmio, ferro, estanho e inertes para construção civil, todos por explorar.
Para que esse potencial mineiro se converta em mais valia para a economia e consequentemente, para o desenvolvimento da região e do país em geral impõe-se a necessidade de "polir" a mão de obra local.
Álvaro Coutinho, que demostra ser bastante conhecedor da realidade do Moxico, fala com nostalgia, como quem vive de saudades dos tempos áureos, a década de 70, altura em que a província atingiu um notável crescimento industrial e rivalizou no mercado interno e externo com os maiores fornecedores de produtos similares aos da sua "lavra".
Dentre os produtos acabados de que a província era potencial fornecedor, destacam-se, mosaicos, tacos de madeira para soalhos, vinhos, licores e outras bebidas espirituosas, cuja matéria-prima produz-se localmente, até a data.
A par do seu potencial mineiro, Moxico, com um clima tropical de altura, é abastado em terras férteis para agro-pecuária e os seus lagos, rios e riachos prestam-se à pesca continental em quantidades industriais, actividades, aliás, praticadas por grande parte da população local, sobretudo a rural.
Todavia, apesar de reconhecer a importância dos sectores mineiro e agro-pecuário no desenvolvimento da província, Álvaro Coutinho não esconde a sua convicção de que é no comboio onde estará o acelerador do desenvolvimento do Moxico, porquanto, a sua circulação possibilitará o escoamento para outros mercados, a baixo custo, dos produtos a serem produzidos localmente e trazer, de outras paragens, diversos bens a preços módicos, com todas repercussões positivas no custo de vida local.
Em bom rigor, não se pode falar, neste momento, em investimentos privados no Moxico e muito menos da existência de uma classe empresarial de facto. Os agentes económicos que interagem no mercado fazem-no na procura de lucros imediatos, pelo que circunscrevem as suas actividades no comércio, sobretudo de bebidas e comida com excepção de um ou outro que, para variar, vende electrodomésticos.
O custo de vida no Moxico, neste momento, é dos mais altos do país. A livre circulação de pessoas e coisas que se regista em toda Angola, desde o advento da paz, não impede que assim seja, porque os fretes de camiões transportadores de mercadoria, de Luanda ao Luena são caros e o percurso, com mais de 1.300 quilómetros, é bastante penoso ao ponto de os camionistas "queimarem" cerca de 15 dias para, alcançarem o antigo "eldorado" do Leste de Angola. E como "sentenciam" as leis da economia, o consumidor é quem paga a última factura. De resto, basta partir do facto de que o aluguer de um camião, de Luanda para o Luena, chega a atingir a módica quantia de sete mil dólares norte americanos, dependentemente da tonelagem.
A.A.
Ainda assim, Governo local avança
O Governo do Moxico leva a cabo um conjunto de intervenções direccionadas, fundamentalmente, à reabilitação de infra-estruturas sociais destruídas durante a guerra, dentre as quais escolas, hospitais e sedes das administrações locais, ao mesmo tempo que apoia o relançamento da actividade agrícola, um pouco em toda província.
A reabilitação do Caminho de Ferro de Benguela, um investimento do Governo central, financiado através do empréstimo de recursos financeiros e a contratação da mão de obra chinesa segue, ao que se sabe, o seu curso normal. Mas, a conclusão das obras desta empreitada está aprazada para o mês de Agosto do próximo ano, se imprevistos e sobressaltos não concorrerem para a dilatação do prazo.
O Governo da província, enquanto isso, ocupa-se das suas responsabilidades cardeais. Vai reinstalando as administrações aos mais diversos níveis, construindo escolas e hospitais.
João Ernesto dos Santos Liberdade, que há mais de uma década dirige os destinos do Moxico, revela-se suficientemente preocupado em atrair investidores nacionais e estrangeiros no sentido de ancorarem a província, por forma a emprestarem, senão darem, o seu contributo para o relançamento das grandes actividades económicas, mercê das quais Moxico adquirira, no passado, o direito de "opinar" sobre questões micro e macro-económicas do país.
Os mídia exploraram com excessivo sensasionalismo a situação nada boa - diga-se em abono da verdade - pela qual o Moxico passou, até há 4 anos. Alguns órgãos de informação chamaram-na "terras do fim dom mundo". Outros, baseados em estimativas suas e de mais ninguém, consideraram-na como o sub-espaço do território angolano mais minado. Em consequência disso, a província viria a ser considerada pelos potenciais detentores de capitais, como um espaço de investimentos de risco. Um sarcófago de dinheiro!
O Governo do Moxico, desastido localmente de um "aparelho" eficiente de marketing para "vender" a imagem real da província e, por via disso, converter cepticismo em optimismo dos eventuais investidores aguarda pacientemente por futuros "descobridores" da terra das chanas.
Dividida administrativamente em 9 municípios, nomeadamente, Camanongue, Léua, Luau, Cameia, Moxico, Alto Zambeze, Luchazes, Luacano e Bundas, disputando a primazia em termos de degradação de infra-estruturas, o Governo da província reparte as suas atenções, esforços e verbas pelas referidas localidades, algumas delas distantes da sede da província, a largos e penosos cerca de 500 quilómetros de distância. Tal é o mau estado das vias.
Na sede do município dos Luchazes, em Cangamba - pasme-se - não restou pedra sobre pedra. A vila reergue-se, hoje, na base de edifícios de adobes cobertos de chapas de zinco, desde escolas, centro de saúde (só tem 1, com 4 camas), sede da administração, ao palácio do administrador local.
O município do Moxico goza do privilégio decorrente do facto de ser a sede da província. Aqui, os "esqueletos" dos edifícios são revestidos com cimento, cal e pedra. Todavia, ainda está longe de assumir-se como um lugarejo, onde as pessoas saídas do interior possam encontrar soluções para os seus mais variados problemas trazidos dos respectivos "matos".
A situação humanitária, no Moxico, não é algo passível de ser trazida a debate sem tabus de qualquer natureza e dela arrancar-se conclusões consensuais. Salvo se e quando o fechar os olhos aos factos for uma obrigação. Por 50 Kwanzas - menos de um dólar - uma criança freta as suas parcas forças para transportar sobre a cabeça isto ou aquilo mais pesado do que ela e, por uma cesta de cerveja ou pelo valor equivalente (600 kz) donzelas despem-se do pudor para comercializarem o que de mais feminino têm.
Publicado por Jorge Santos - Op.Cripto em julho 9, 2006 01:59 AMesta tudo muito bom, mas deviam comentar mais acerca das provincias de Angola suas capitais e seus recursos
ola gostaria de vos dizer que voces deriam me3 enviar mais materia sobre moxico
Afixado por: abrante mbassi em junho 29, 2007 02:46 PMgostei imenso do que li e animo-o para que continue a dar-nos noticias do moxico
parabens amigo.
afixado por paula b
gostei imenso do que li e animo-o para que continue a dar-nos noticias do moxico
parabens amigo.
afixado por paula b
Gostei imenso do que li, acrescento dizer-vos que continuem a dar noticias sobre Moxico.
E não só, o futuro desta provincia está nas mãos de todos os que contribuem para o sucesso dela. FORÇA!
Gostei imenso do que li, acrescento dizer-vos que continuem a dar noticias sobre Moxico.
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Ola sou brasileiro e gostaria de saber preço de terras ferteis em Angola. Se alguem poder me responder...actm7@yahoo.com.br
Afixado por: Alexandre Marques em fevereiro 6, 2008 02:00 PM